
Danielle Steel

O Segredo de Uma Promessa





Contra-capa
       Michael Hillyard e Nancy McAllister so jovens, exuberantes e unidos por um amor profundo. Ele  o nico herdeiro de uma das maiores firmas de arquitetura
dos Estados Unidos. Ela  de famlia pobre, criada num orfanato. Desejam se casar, mas a me dele, uma viva que dirige com mo-de-ferro o imprio deixado pelo marido,
 contra, e quer impor a unio de seu filho com uma jovem de famlia importante.
       Michael insiste em tornar Nancy sua esposa. Mas o destino  cruel e implacvel, e na noite da cerimnia o imprevisto acontece. Os anos passam, os dois seguem
rumos diferentes, vivem em mundos separados, tornam-se desconhecidos um para o outro. Mas o smbolo de um vnculo eterno jamais foi esquecido.
       "O segredo de uma promessa"  uma histria de amor comovente, um livro que se tornou sucesso no mundo inteiro, inspirado no filme de mesmo nome, visto por
milhes de pessoas.

O SEGREDO DE UMA PROMESSA

      Baseado no roteiro de
     Garry Michael White

   Danielle Steel


        Traduo de
        A.B. PINHEIRO DE LEMOS


       14 EDIO

      EDITORA RECORD
      RIO DE JANEIRO - SO PAULO
      2006

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
                Steel, Danielle
S826s                 O segredo de uma promessa / Danielle Steel;         traduo de A.B. Pinheiro de Lemos. - 14 ed. - Rio de
        Janeiro: Record, 2006.

                Traduo de: The promise
                "Baseado no roteiro de Garry Michael White"
                ISBN 85-01-01564-4

                1. Romance norte-americano. I. White, Garry Michael. 
        II. Lemos, A.B. Pinheiro de (Alfredo Barcelos Pinheiro 
        de), 1938- .III. Ttulo.
                                                CDD-813
93-0202                                        CDU - 820(73)-3

Ttulo original norte-americano: THE PROMISE

Um romance de DANIELLE STEEL
Baseado no roteiro de GARRY MICHAEL WHITE

Copyright (c) 1978 by MCA Publishing, uma diviso de MCA, Inc.
Direitos no Brasil adquiridos pela Distribuidora Record 

Captulo 1

       O sol do comeo da manh incidia em suas costas quando pegaram as bicicletas diante da Heliot House, no campus de Harvard. Pararam por um momento, a fim de 
sorrirem um para o outro. Era maio e os dois eram muito jovens. Os cabelos curtos da moa brilhavam ao sol. Os olhos dela encontraram os dele, no momento em que 
comeou a rir.
       - E ento, Doutor em Arquitetura, como se sente?
       - Pergunte-me isso dentro de duas semanas, depois que eu conseguir o doutorado.
       O rapaz sorriu para ela, sacudindo da testa uma mecha de cabelos louros.
       - Seu diploma que se dane! Estava me referindo  noite de ontem!
       Ela sorriu novamente. O rapaz deu-lhe uma palmada no traseiro.
       - Ahn... E voc, como se sente, Srta. McAllister? Ainda pode andar?
       Os dois estavam passando a perna por cima das bicicletas e a moa fitou-o com uma expresso zombeteira.
       - E voc pode?
       E com isso partiu, distanciando-se rapidamente na pequena bicicleta que ele lhe dera de presente no aniversrio, poucos meses antes. Ele estava apaixonado 
pela moa. Sempre estivera apaixonado por ela. Sonhara com ela por toda a sua vida. E a conhecia h dois anos.
       Fora um tempo solitrio que ele tivera em Harvard antes disso. J no segundo ano do curso de doutorado estava resignado a continuar assim. No queria o que 
os outros desejavam. No queria uma jovem de Radcliffe, Vassar ou Wellesley na cama a seu lado. Para Michael, havia sempre algo que faltava. Queria algo mais. Estrutura, 
substncia, alma. Resolvera o problema temporariamente no vero anterior, tendo um caso com uma amiga de sua me. A me nada soubera,  claro. E fora extremamente 
divertido e satisfatrio. Era uma mulher muito atraente, de trinta e tantos anos, bem mais moa que a me,  claro. E era uma editora da Vogue. Mas fora simplesmente 
um passatempo agradvel. Para ambos. Com Nancy, porm, era diferente.
       Ele o compreendera desde o primeiro momento em que a vira, na galeria de Boston que estava expondo os quadros dela. Havia uma solido obcecante nas paisagens 
rurais, uma ternura solitria nas pessoas retratadas. Michael sentiu-se dominado por uma profunda compaixo, com vontade de consolar aquelas pessoas e a mulher que 
as pintara. Ela estava na galeria naquele dia, com uma boina vermelha e um velho casaco de pele de guaxinim, a pele delicada ainda luzindo da caminhada at a Charles 
Street, com os olhos brilhando, o rosto cheio de vida. Michael jamais desejara outra mulher tanto quanto a desejara. Comprara dois quadros e a levara para jantar 
no Lockobers. Mas o resto levara muito mais tempo. Nancy McAllister no era uma mulher propensa a ceder prontamente seu corpo ou seu corao. Fora solitria demais 
por tempo demais para se entregar facilmente. Aos 19 anos, j era uma mulher sbia e calejada na dor. A dor de estar s. A dor de ser abandonada. Era o que a atormentava 
desde que fora colocada num orfanato, ainda bem pequena. No podia mais recordar o dia em que a me a deixara no orfanato, pouco antes de morrer. Mas lembrava-se 
nitidamente do frio horrvel dos sales. Do cheiro das pessoas estranhas. Dos sons pela manh, enquanto, deitada na cama, lutava para conter as lgrimas. Iria recordar-se 
dessas coisas pelo resto de sua vida. Por muito tempo, pensara que nada poderia preencher o vazio que havia dentro de si. Mas agora tinha Michael.
       O relacionamento entre eles nem sempre fora fcil. Mas era um relacionamento muito forte, baseado no amor e no respeito. Haviam fundido os mundos de cada 
um e disso resultara algo belo e raro. E Michael tambm no era nenhum tolo. Conhecia os perigos de se apaixonar por algum "diferente", como sua me insistia em 
ressaltar... sempre que tinha oportunidade. Mas no havia nada de "diferente" em Nancy. A nica coisa diferente era o fato de que ela era uma artista, no uma simples 
estudante. Nancy no estava mais na fase de procura, j era o que desejava. E ao contrrio das outras mulheres que Michael conhecia, ela no estava experimentando 
candidatos, mas simplesmente escolhera o homem a quem amava. Em dois anos, Michael jamais a desapontara. E ela tinha certeza de que isso jamais aconteceria. Afinal, 
conheciam-se muito bem. O que poderia haver que ela j no soubesse? Sabia de tudo. As coisas engraadas, os segredos tolos, os sonhos da infncia, os medos desesperados. 
E, atravs dele, Nancy passara a respeitar sua famlia. At mesmo a me.
       Michael nascera na tradio, condicionado desde a infncia a herdar um trono. No era algo que ele encarasse com leviandade. Nem mesmo gracejava a respeito. 
Havias ocasies em que isso chegava at a assust-lo. Teria capacidade de se mostrar  altura do mito? Mas Nancy no tinha a menor dvida quanto a isso. O av de 
Michael, Richard Cotter, fora um arquiteto. O pai dele tambm. Fora o av que fundara um imprio. Mas havia sido a fuso do imprio Cotter com a fortuna Hillyard, 
atravs do casamento dos pais de Michel, que criara o imprio Cotter-Hillyard de hoje. Richard Cotter soubera como ganhar dinheiro, mas fora o dinheiro Hillyard, 
um dinheiro antigo, tradicional, que proporcionara os rituais e tradies do poder. Havia ocasies em que era um manto incmodo de se usar, mas no se podia dizer 
que Michael no gostasse. E Nancy tambm o respeitava. Ela sabia que Michael estaria um dia no comando do imprio Cotter-Hillyard. No princpio, haviam conversado 
a respeito incessantemente. Mais tarde, voltaram a conversar constantemente, quando compreenderam como era profunda e sria a ligao que os unia. Mas Michael sabia 
que encontrara uma mulher que podia assumir tudo, tanto as responsabilidades de famlia quanto as funes nos negcios. O orfanato nada fizera a fim de preparar 
Nancy para o papel que Michael sabia que ela iria desempenhar, mas a base parecia estar fixada na prpria alma dela.
       Michael contemplava-a agora com um orgulho quase insuportvel, enquanto ela se distanciava a sua frente, segura de si, forte, as pernas geis pedalando vigorosamente, 
virando a cabea para trs de vez em quando a fim de fit-lo e rir. A vontade de Michael era aumentar a velocidade e alcan-la... tir-la da bicicleta... ali... 
na grama... da maneira como tinham feito na noite anterior... da maneira... Ele tratou de afastar o pensamento de sua mente e disparou atrs dela.
       - Ei, espere por mim, sua bruxinha!
       Michael estava emparelhado com ela um momento depois. Continuaram a pedalar, agora um pouco mais devagar. Michael estendeu a mo pelo curto espao que os 
separava.
       - Est linda hoje, Nancy. - A voz dele era uma carcia no ar da primavera. Ao redor deles, o mundo era verde e vioso. - Sabe quanto a amo?
       - No seria a metade do que o amo, Sr. Hillyard?
       - Isso demonstra o quanto sabe, Srta. Nancy Calalinda!
       Ela riu, como sempre fazia, ao ouvir o apelido. Michael sempre a fazia feliz. Ele fazia coisas maravilhosas. Nancy sempre pensara assim desde o primeiro momento, 
quando ele entrara na galeria e ameaara tirar as prprias roupas, todas, se ela no lhe vendesse todos os quadros.
       - Acontece que a amo pelo menos sete vezes mais do que me ama.
       - Essa no! - Nancy sorriu-lhe novamente, nariz no ar e disparou  frente outra vez. - Eu o amo muito mais, Michael.
       - Como sabe?
       Ele estava acelerando para alcan-la.
       - Papai Noel me contou.
       E com isso, Nancy se distanciou novamente. Desta vez, Michael deixou-a ir na frente pelo, caminho estreito. Estavam num animo festivo e ele gostava de contempl-la. 
A forma esguia dos quadris na cala de jeans, a cintura fina, os ombros impecveis com a suter vermelha amarrada frouxamente e o balano maravilhoso dos cabelos 
pretos. Michael podia contempl-la por anos a fio. Na verdade, era justamente isso o que estava planejando fazer. O que o fazia lembrar... tinha planejado conversar 
com ela a respeito naquela manh. Diminuiu novamente a distncia que os separava e bateu no ombro de Nancy gentilmente.
       - Com licena, Sra. Hillyard.
       Ela teve um sobressalto ao ouvir as palavras, depois sorriu timidamente, o sol incidindo em seu rosto. Michael podia ver as sardas no rosto dela, quase como 
poeira de ouro deixada por duendes na superfcie cremosa da pele.
       - Eu disse... Sra. Hillyard...
       Michael pronunciou as palavras com infinito prazer. Tinha esperado por dois anos.
       - No est querendo precipitar um pouco as coisas, Michael?
       Ela parecia hesitante, quase temerosa. Michael ainda no falara com Marion. E enquanto isso no acontecesse, no importava o que ele e Nancy pudessem ter 
acertado entre si.
       - No acho que esteja precipitando coisa alguma. E j tem duas semanas que estou pensando em fazer isso. Logo depois da formatura.
       H muito que haviam combinado um casamento pequeno, ntimo. Nancy no tinha famlia e Michael queria partilhar o momento com ela, no com um elenco de milhares 
de pessoas ou um exrcito de fotgrafos da sociedade.
        - Para dizer a verdade, estava planejando seguir esta noite para Nova York a fim de conversar com Marion.
       - Esta noite?
       Havia um eco de medo na voz de Nancy. Ela deixou que a bicicleta fosse diminuindo a velocidade lentamente, at parar. Michael assentiu em resposta. Nancy 
estava cada vez mais pensativa, enquanto contemplava as colinas luxuriantes ao redor.
       - O que acha que ela vai dizer?
       Nancy estava com medo de olhar para Michael. Com medo de ouvir a resposta.
       - Sim,  claro. Est mesmo preocupada com isso?
       Era uma pergunta sem sentido e ambos sabiam disso. Tinham muito com que se preocupar. Marion no era uma mera dama de honra. Era a me de Michael e tinha 
toda a ternura do Titanic. Era uma mulher de fora, determinao, concreto e ao. Havia assumido os empreendimentos da famlia com a morte do pai e voltara a faz-lo, 
com renovada determinao, depois que o marido morrera. Nada podia deter Marion Hillyard. Absolutamente nada. Certamente no uma garota esguia ou seu filho nico. 
Se no queria que os dois casassem, nada a faria dizer aquele "sim", embora Michael simulasse no ter a menor dvida a respeito. E Nancy sabia exatamente o que Marion 
Hillyard pensava dela.
       Marion jamais tentara esconder seus sentimentos. Ou pelo menos no o fizera a partir do momento em que chegara  concluso de que o "caso" de Michael com 
"aquela artista" podia ser algo srio. Chamara Michael a Nova York e o lisonjeara, persuadira e seduzira, para depois brigar, ameaar e pressionar. E finalmente 
se resignara. Ou pelo menos dera tal impresso. Michael encarara essa posio como um indcio encorajador, mas Nancy no tinha tanta certeza assim. Tinha a impresso 
de que Marion sabia o que estava fazendo e decidira, por enquanto, ignorar a "situao". No foram feitos convites, no foram formuladas acusaes, nunca foram apresentadas 
desculpas por coisas ditas a Michael no passado. Mas tambm no surgiram novos problemas. Para ela, Nancy simplesmente no existia. E, estranhamente, Nancy sempre 
se surpreendia ao descobrir como isso a magoava. No tendo famlia, ela sempre acalentara sonhos estranhos em relao a Marion. Que podiam ser amigas, que Marion 
gostaria dela, que ela e Marion iriam fazer compras para Michael... que Marion seria... a me que ela no tivera ou conhecera. Mas Marion no se enquadrava facilmente 
nesse papel. Em dois anos, Nancy tivera muitas oportunidades para compreender isso. Somente Michael se apegava obstinadamente  posio de que a me acabaria por 
ceder, que as duas se tornariam grandes amigas, a partir do momento em que Marion aceitasse o inevitvel. Mas Nancy nunca tivera tal certeza. Ela chegara mesmo a 
forar Michael a discutir a possibilidade de Marion nunca aceit-la, jamais concordar com o casamento. O que fariam ento?
       - Nesse caso, pegamos o carro e seguimos para o juiz de paz mais prximo. Afinal, j somos ambos maiores de idade.
       Nancy sorrira com a simplicidade daquela soluo. Sabia que nunca poderia ser to fcil assim. Mas que diferena fazia? Depois de dois anos juntos, eles j 
se sentiam de qualquer forma casados.
       Ficaram parados em silncio por um longo momento, contemplando a paisagem. Depois, Michael pegou a mo de Nancy e murmurou:
       - Eu a amo, querida..
       - Tambm o amo.
       Nancy fitou-o com expresso preocupada e Michael silenciou os olhos dela com um beijo. Mas nada podia sufocar as dvidas que ambos tinham. Isto , nada exceto 
a conversa com Marion. Nancy deixou a bicicleta cair e com um suspiro aconchegou-se lentamente entre os braos de Michael.
       - Gostaria que fosse tudo mais fcil, Michael.
       - E ser. Vai ver s. E agora vamos adiante. Vamos dar um passeio ou ficamos parados aqui o dia inteiro?
       Michael deu-lhe novamente uma palmada no traseiro. Nancy sorriu, enquanto ele pegava a bicicleta dela. E no momento seguinte estavam de novo pedalando, rindo, 
brincando, cantando, fingindo que Marion no existia. S que ela existia. Sempre existiria. Marion era mais uma instituio do que uma mulher. Marion era eterna. 
Pelo menos na vida de Michael. E agora na vida de Nancy.
       O sol subiu mais alto pelo cu enquanto eles pedalavam pelos campos, alternadamente adiantando-se um ao outro ou ficando emparelhados, em um momento gracejando 
exuberantemente, no outro ficando silenciosos e pensativos. J era quase meio-dia quando alcanaram a Revere Beach e avistaram o rosto fami1iar vindo em sua direo. 
Era Ben Avery, com uma nova garota a seu lado. Outra loura de pernas compridas. Todas pareciam rainhas colegiais. E muitas eram mesmo.
       - Oi, vocs dois! Esto indo para a feira? 
       Ben sorriu-lhes e depois, com um gesto vago da mo, apresentou Jeannette. Trocaram cumprimentos. Nancy protegeu os olhos com a mo e olhou na direo da feira. 
Ainda faltavam alguns quarteires para alcan-la.
       - Vale a pena parar? 
       - E como vale! Ganhamos um cachorro rosa... - Ben apontou para a criatura pequena e horrenda na cesta de Jeannette - uma tartaruga verde que deu um jeito 
de se perder, e duas latas de cerveja. Alm do mais, eles tm um milho cozido que est sensacional.
       - Acaba de me convencer. - Michael olhou para Nancy e sorriu. - Vamos at l? 
       - Claro. Vocs j esto voltando?
       Mas Nancy podia ver claramente que estavam. Ben tinha um brilho reconhecvel nos olhos e Jeannette parecia estar de pleno acordo. Nancy sorriu para si mesma 
ao observ-los.
       - J, sim. Estamos andando desde as seis horas desta manh. Estou exausto. Por falar nisso o que vocs vo fazer no jantar esta noite? No querem visitar-me 
para uma pizza?
       O quarto de Ben ficava prximo do quarto de Michael.
       - O que vamos fazer no jantar esta noite, seor?
       Nancy olhou para Michael , com um sorriso brejeiro. Mas ele estava sacudindo a cabea.
       - Tenho de resolver alguns problemas essa noite. Vamos deixar para outra ocasio.
       Era um rpido lembrete do encontro com Marion.
       - Est certo. At mais tarde.
       Ben e Jeannette acenaram e depois se afastaram, enquanto Nancy olhava para Michael.
       - Vai mesmo procur-la esta noite?
       - Vou, sim. E pare de se preocupar com isso. Tudo vai dar certo. Por falar nisso, mame diz que ele conseguiu o lugar.
        - Ben?
       Nancy levantou os olhos inquisitivamente, enquanto recomeavam a pedalar, a caminho da feira.
       - Isso mesmo. Comeamos ao mesmo tempo. Em reas diferentes,  verdade, mas comeamos no mesmo dia.
       Michael parecia satisfeito. Conhecia Ben desde o tempo do curso preparatrio e eram como irmos.
       - Ben j sabe? 
       Michael sacudiu a cabea, com um sorriso de conspirador. - Achei que seria melhor deix-lo experimentar a emoo de receber a notcia oficialmente. No quis 
estragar-lhe esse prazer.
       Nancy tambm sorriu.
       - Voc  um bom sujeito e eu o amo, Hillyard.
       - Obrigado, Sra. H.
       - Pare com isso, Michael.
       Nancy queria demais aquele sobrenome para ouvi-lo pronunciado como um gracejo, at mesmo por Michael.
       - No vou parar. E  melhor comear logo a se acostumar. - Ele parecia subitamente srio.
       - Eu vou me acostumar... quando chegar o momento certo. Mas at l, no entanto, Srta. McAllister soa melhor. 
       - Por mais duas semanas, para ser exato. Aposto que posso venc-la numa corrida! 
       E os dois dispararam em frente, lado a lado, ofegando e rindo. Michael alcanou a entrada da feira cerca de 80 segundos antes de Nancy. Ambos pareciam bronzeados, 
saudveis e despreocupados.
       - E ento, meu caro senhor, o que vamos fazer primeiro?
        Mas Nancy j adivinhara o que seria e estava absolutamente certa.
       - Ao milho cozido,  claro! Precisava perguntar?
       - No.
       Deixaram as bicicletas perto de uma rvore, sabendo que ali, naqueles campos tranqilos, ningum iria roub-las. Foram andando de braos dados. Dez minutos 
depois estavam se lambuzando com a manteiga que escorria, enquanto comiam o milho cozido. Em seguida comeram cachorros-quentes e tomaram cerveja gelada. Nancy acompanhou 
tudo com uma gigantesca poro de algodo-doce.
       - Como pode comer essa porcaria?
       - Fcil... porque  delicioso. 
       As palavras saram meio truncadas atravs do algodo-doce rosado e pegajoso, mas Nancy tinha a expresso deliciada de uma criana de cinco anos.
       - J lhe falei ultimamente como voc  bonita?
       Nancy sorriu-lhe, exibindo o rosto todo salpicado de algodo.
       Michael pegou um leno e limpou-lhe o queixo.
       - Se conseguisse limpar-se, poderamos tirar uma fotografia. 
       -  mesmo? Onde?
       O nariz de Nancy desapareceu novamente por trs de outra poro que ela abocanhou.
       - Voc  impossvel, querida. A fotografia  ali.
       Michael apontou para uma barraca em que podiam meter as cabeas atravs de buracos redondos e tirar uma foto sobre trajes exticos... Foram at l e escolheram 
Rhett Butler e Scarlet O'Hara. E por mais estranho que pudesse parecer, nem mesmo pareciam tolos na fotografia. Nancy ficou linda sobre o traje pintado meticulosamente. 
A beleza delicada de seu rosto e a preciso das feies se ajustaram perfeitamente ao traje imensamente feminino da beldade sulista. E Michael ficou parecendo um 
jovem libertino. O fotgrafo entregou-lhes a foto e recebeu o seu dlar, comentando:
       -Eu deveria ficar com essa foto. Vocs dois saram muito bem.
       - Obrigada.
       Nancy ficou comovida com o elogio, mas Michael limitou-se a sorrir. Ele sempre sentia o maior orgulho de Nancy. Apenas mais duas semanas e... Mas Nancy puxou-lhe 
a manga freneticamente, arrancando-o dos devaneios.
       - Olhe ali! Um jogo de argolas!
       Nancy sempre quisera jogar as argolas na feira quando era criana, mas as freiras do orfanato invariavelmente alegavam que era muito caro.
       - Podemos?
       - Mas  claro, minha querida!
       Michael fez-lhe uma reverncia, ofereceu o brao e tentou lev-la caminhando tranqilamente na direo da barraca. Mas Nancy estava excitada demais para andar 
normalmente. Estava quase pulando como uma criana e o excitamento dela o deliciava.
       - Podemos jogar agora?
        - Claro, meu amor!
       Michael estendeu um dlar e o homem por trs do balco entregou a Nancy quatro vezes a quantidade habitual de argolas. A maioria dos fregueses pagava apenas 
25 cents. Mas Nancy era inexperiente no jogo e todas as suas tentativas malograram. Michael observava-a divertido.
       - Exatamente que prmio est querendo?
       - As contas. - Os olhos de Nancy brilhavam como os de uma criana e as palavras saam quase como um sussurro. - Nunca tive antes um colar espalhafatoso!
       Era algo que ela sempre desejara ter quando era menina. Algo bem vistoso, brilhante, frvolo.
       - No resta a menor dvida de que  uma pessoa fcil de contentar, meu amor. Tem certeza de que no prefere o cachorrinho rosa?
       Era igual ao que Jeannette levava na cesta. Mas Nancy sacudiu a cabea, determinada.
       - Quero as contas.
       - Seu desejo  uma ordem para mim.
       E Michael arremessou todas as trs argolas perfeitamente no alvo. Com um sorriso, o homem por trs do balco entregou-lhe as contas. Imediatamente, Michael 
colocou-as no pescoo de Nancy.
       - Voil, mademoiselle! Tudo seu! Acha que devemos fazer um seguro de seu colar?
       - Quer parar de gozar as minhas contas? Acho que elas so maravilhosas!
       Nancy tocou-as suavemente, encantada por saber que estavam faiscando em seu pescoo.
       - Acho que voc  maravilhosa. Seu corao deseja mais alguma coisa?
       Nancy sorriu.
       - Mais algodo-doce.
       Michael comprou outro chumao de algodo-doce e depois foram voltando lentamente para as bicicletas.
       - Est cansada? 
       - No muito.
       - No quer seguir um pouco mais adiante? H um lugar maravilhoso aqui perto. Podemos ficar sentados l por algum tempo, contemplando o mar.
       - Boa idia.
       Partiram novamente, s que desta vez mais devagar. O clima de carnaval desaparecera e estavam ambos imersos em seus prprios pensamentos, a maior parte sobre 
o outro. Michael estava comeando a desejar que estivessem de volta  cama e Nancy no teria discordado. Estavam-se aproximando de Nahant quando ela avistou o local 
que Michael escolhera, na extremidade de uma ponta de terra, sob uma rvore antiga aprazvel. Nancy ficou contente por terem feito aquela ltima etapa do passeio.
       - Oh, Michael,  lindo! .
       - No  mesmo?
       Sentaram-se na relva, pouco antes da estreita ponta de terra comear.  distncia, podiam observar as ondas quebrarem suavemente sobre um recife logo abaixo 
da superfcie.
       - Sempre quis trazer voc at aqui.
       - E estou contente que me tenha trazido.
       Ficaram sentados em silncio por algum tempo, de mos dadas. Depois, Nancy se levantou abruptamente.
       - O que foi?
       - Quero fazer uma coisa.
       - Pode ir at ali, atrs das moitas. 
       - No  isso, seu chato!
       Nancy saiu correndo pela praia. Michael seguiu-a lentamente, sem ter a menor idia do que ela pretendia fazer. Nancy parou ao lado de uma pedra grande na 
areia e tentou desloc-la, mas no conseguiu
       - Deixe-me ajud-la, sua tolinha. O que est pretendendo fazer?
       Michael estava aturdido.
       - Quero apenas afast-la por um segundo... assim.
       A pedra cedera sob a presso de Michael, revelando uma depresso mida na areia. Rapidamente, ela tirou as contas azuis do pescoo, segurou-as por um momento, 
de olhos fechados, depois as largou na areia, no lugar sobre o qual a pedra estava antes.
       - Muito bem, Michael, pode pr a pedra de volta no lugar. 
       - Em cima das contas?
       Ela assentiu, os olhos no se desviando do vidro azul a faiscar. 
       - Essas contas sero o nosso vnculo, um vnculo fsico, enterradas enquanto esta pedra, esta praia e estas rvores continuarem aqui. Combinado?
       - Combinado. - Michael sorriu gentilmente. - Estamos sendo muito romnticos.
       - Por que no? Quando se  afortunado o bastante para se ter amor, temos de comemorar! Fazer com que tenha um lar!
       - Tem razo, tem absoluta razo. Muito bem, aqui  o lar do nosso amor.
       - E agora vamos fazer uma promessa. Prometo que nunca esquecerei o que est aqui nem esquecerei o que representa. E agora  a sua vez.
       Nancy tocou na mo dele, que lhe sorriu novamente. Michael nunca a amara tanto.
       - E eu prometo... prometo nunca dizer adeus a voc...
       E depois, sem qualquer razo em particular, os dois riram. Porque era maravilhoso ser jovem, ser romntico, at mesmo banal. O dia inteiro havia sido maravilhoso. 
       - Vamos voltar agora?
       Nancy assentiu. De mos dadas, voltaram para o lugar em que haviam deixado as bicicletas. E duas horas depois estavam no pequeno apartamento de Nancy, na 
Spark Street, perto do campus. Michael olhou ao redor ao cair sonolento no sof, compreendendo mais uma vez o quanto gostava do apartamento dela, o quanto representava 
um lar para ele. O nico lar verdadeiro que j conhecera. O apartamento gigantesco da me em Nova York nunca lhe dera realmente a impresso de lar. Essa impresso 
ele sentia no minsculo apartamento de Nancy. Que possua todos os toques afetuosos e maravilhosos de Nancy. Os quadros que ela pintara ao longo dos anos, as cores 
simples que escolhera, um sof de veludo castanho, um tapete felpudo que ela comprara de um amigo. Havia sempre flores por toda parte, muitas plantas, s quais ela 
dedicava um cuidado meticuloso. L estavam a pequena mesa de tampo de mrmore impecvel onde comiam e a cama de lato que rangia de prazer quando faziam amor.
       - Tem alguma idia do quanto amo este apartamento, Nancy.
       - Claro que tenho. - Ela olhou ao redor, nostalgicamente. - Tambm amo muito. O que vamos fazer quando nos casarmos?
       - Levar todas essas suas coisas lindas para Nova York e encontrar um pequeno lar aconchegante para receb-las.
       E foi nesse momento que algo atraiu a ateno de Michael - O que  isso? Algo novo?
       Ele estava olhando para o cavalete de Nancy, onde estava um quadro ainda nos estgios iniciais, mas j apresentando uma qualidade fascinante. Era uma paisagem 
de rvores e campos. Mas quando se aproximou, Michael percebeu que havia um menino escondido numa rvore, com as pernas pendendo.
       - O menino vai continuar a aparecer depois que puser folhas na rvore?
       - Provavelmente. De qualquer forma, porm, saberemos que est na rvore. Gosta do quadro?
       Os olhos de Nancy brilhavam, enquanto ela observava a aprovao de Michael. Ele sempre compreendera perfeitamente o trabalho dela. 
       - Adoro.
       - Ento ser o seu presente de casamento... quando estiver terminado.
       - Negcio fechado. E por falar em presentes de casamento... - Michael olhou para o relgio. J eram cinco horas da tarde e ele queria estar no aeroporto s 
seis. - Est na hora de eu partir.
       - Precisa mesmo ir esta noite?
       - Tenho, sim.  importante. Voltarei dentro de algumas horas. Devo chegar ao apartamento de Marion por volta das sete e meia ou oito horas, dependendo do 
trnsito em Nova York. Posso pegar o ltimo vo de volta, s onze horas, chegando em casa por volta da meia-noite. Est bem assim, minha linda angustiada?
       - Est bem. - Mas Nancy estava hesitante, apreensiva pela partida dele. No queria que Michael fosse a Nova York e ao mesmo tempo no sabia por qu. - Espero 
que tudo corra bem.
       - Tenho certeza de que vai correr.
       Mas ambos sabiam que Marion s fazia o que queria, s escutava o que desejava ouvir e compreendia apenas o que lhe convinha. Mas Michael sabia que, de alguma 
forma, iriam venc-la. Tinham de faz-lo. Ele precisava ter Nancy. E nada mais importava. Abraou-a uma ltima vez, antes de ajeitar uma gravata no colarinho da 
camisa esporte e pegar um casaco leve nas costas de uma cadeira. Deixara-o ali naquela manh. Sabia que estaria fazendo calor em Nova York, mas sabia tambm que 
tinha de aparecer no apartamento de Marion de palet e gravata. Marion no tolerava "hippies" ou pessoas insignificantes... como Nancy. Ambos sabiam o que ele estava 
enfrentando quando se deram um beijo de despedida na porta.
       - Boa sorte.
       - Eu a amo.
       Por longo tempo, Nancy ficou sentada no apartamento silencioso olhando para a fotografia que haviam tirado na feira. Rhett e Scarlet, amantes imortais, naqueles 
trajes absurdos pintados na madeira, os rostos metidos atravs de buracos. Mas no pareciam tolos. Pareciam felizes. Nancy se perguntou se Marion seria capaz de 
compreender isso, se ela saberia a diferena entre ser feliz e tolo, entre o real e o imaginrio. Tinha dvidas se Marion poderia entender qualquer coisa.
       
Captulo 2
       
       A mesa da sala de jantar brilhava como a superfcie de um lago. A perfeio cintilante s era interrompida num ponto, onde estava um nico jogo de linho irlands 
de cor creme, sobre o qual descansava a porcelana azul e dourada. Havia um servio de caf de prata ao lado do prato, assim como um pequeno sino todo ornado. Marion 
Hillyard recostou-se na cadeira, deixando escapar um pequeno suspiro, enquanto exalava a fumaa do cigarro que acabara de acender. Estava bastante cansada naquele 
dia... Os domingos sempre a cansavam. Havia ocasies em que ela pensava que trabalhava mais em casa do que no escritrio. Sempre passava os domingos cuidando de 
sua correspondncia pessoal, examinando as contas que a cozinheira e a governanta mantinham rigorosamente em dia, fazendo listas do que julgava ser necessrio consertar 
no apartamento e dos artigos que precisava para completar seu guarda-roupa, alm de planejar os cardpios da semana. Era um trabalho tedioso; mas h anos que ela 
o fazia, mesmo antes de comear a dirigir o imprio da famlia. Depois que assumira o lugar do marido, continuara a passar os domingos cuidando da casa e tomando 
conta de Michael, no dia de folga da bab. A recordao a fez sorrir. Fechou os olhos por um momento. Aqueles domingos haviam sido preciosos, umas poucas horas em 
companhia do filho sem que ningum interferisse; sem que ningum aparecesse para afast-lo dela. Mas seus domingos j no eram mais assim; haviam deixado de ser 
h muitos anos. Uma pequena lgrima brilhante insinuou-se entre as pestanas, enquanto Marion permanecia imvel na cadeira, vendo o filho como fora dezoito anos antes, 
um garoto de seis anos e todo dela. Como havia amado aquele menino! Teria feito qualquer coisa por ele. E fizera mesmo. Mantivera um imprio para Michael, preservando 
o legado de uma gerao para a seguinte. Era o seu presente mais valioso para Michael Cotter-Hillyard. E ela passara a amar o imprio quase tanto quanto amava o 
filho.
       - Est linda, mame.
       Os olhos dela se abriram bruscamente, em surpresa, deparando com o filho parado na entrada em arcada da sala de jantar revestida de lambris. A viso dele 
naquele momento quase a fez chorar. Sentiu vontade de abra-lo, como o fizera por todos aqueles anos. Em vez disso, porm, limitou-se a sorrir lentamente para o 
filho.
       - No ouvi voc chegar.
       No era um convite para Michael se aproximar, no havia qualquer indcio do que ela estava sentindo. Com Marion, ningum jamais sabia o que se passava dentro 
dela.
       - Usei minha chave. Posso entrar?
       - Claro. Quer uma sobremesa?
       Michael avanou lentamente para ela, um tnue sorriso nervoso a lhe contrair os lbios. Depois, como um garotinho, deu uma espiada no prato da me.
       - Hum...o que era? Parece alguma coisa  base de chocolate...
       Marion soltou uma risadinha e sacudiu a cabea. Michael jamais cresceria. Ou pelo menos no em algumas coisas.
       - Profiteroles. Quer um pouco? Mattie ainda est l na copa.
       - Provavelmente comendo o que sobrou.
       Ambos riram, pelo que sabiam ser provavelmente verdadeiro.
       Mesmo assim, Marion tocou o sino.
       Mattie apareceu um instante depois, de uniforme preto, guarnecido de renda, rosto plido. Ela passara a vida inteira correndo, buscando, fazendo coisas para 
os outros, com apenas um breve domingo semanal a que podia chamar de todo seu. E quando chegava o "dia" to cobiado, ela descobria que nada tinha para fazer.
       - Pois no, madame?
       - Traga caf para Sr. Hillyard, Mattie. E... quer sobremesa, querido? - Michael sacudiu a cabea - Apenas caf ento.  
       - Pois no, madame.
       Por um momento, Michael se perguntou, como j fizera muitas vezes antes, por que a me nunca dizia "obrigado" s empregadas. Como se elas tivessem nascido 
para cumprir suas ordens. Mas ele sabia que era exatamente isso o que a me pensava. Marion sempre vivera cercada por criados, secretrias, toda espcie de empregados 
que se podia imaginar. Tivera uma criao solitria, mas das mais confortveis. A me morrera quando ela tinha trs anos, num acidente que vitimara tambm o nico 
irmo de Marion, que seria o herdeiro do trono arquitetnico da famlia. O acidente deixara apenas Marion para assumir o papel de filho substituto. E ela o assumira 
eficazmente.
       - Como vai a escola?
       - Quase acabando, graas a Deus. S faltam mais duas semanas.
       - Sei disso. E estou muito orgulhosa de voc. Um doutorado  algo maravilhoso para se ter, especialmente em arquitetura.
       Por alguma razo, aquelas palavras despertaram em Michael o desejo de exclamar, "Oh! Mame!", como fazia quando tinha nove anos de idade.
       - Vamos entrar em contato com o jovem Avery nesta semana, para acertarmos o emprego dele. No lhe contou nada, no  mesmo ?
       Marion parecia mais curiosa do que austera. Na verdade, no se, importava com tal detalhe. Julgara um tanto infantil que Michael pensasse que era to importante 
fazer uma surpresa a Ben. 
       - No, no contei. Ele vai ficar muito contente.
       - No  para menos. Afinal,  um excelente emprego. 
       - Ele merece.
       - Espero que sim. - Marion jamais cedia um centmetro sequer. - E voc? Est pronto para comear a trabalhar? Sua sala estar pronta na prxima semana.
       Os olhos dela brilharam ao pensar nisso. Era um lindo gabinete, todo revestido de madeira, como teria sido o do pai de Michael, com gravuras que haviam pertencido 
ao pai de Marion, um impressivo conjunto de sof e poltronas de couro, mveis antigos. Ela os comprara em Londres, nas suas frias.
       - Est ficando maravilhoso, querido.
       - timo. - Ele sorriu para a me por um momento, antes de acrescentar: - Tenho algumas coisas que quero mandar emoldurar, mas vou esperar at dar uma olhada 
na decorao.
       - No vai haver qualquer necessidade. J providenciei tudo o que vai precisar para as paredes.
       E Michael tambm tinha. Os quadros de Nancy. Havia agora um fogo sbito em seus olhos, um ar de vigilncia e cautela nos olhos de Marion. Ela percebera algo 
no rosto do filho.
       - Mame... - Ele se sentou perto da me, soltando um pequeno suspiro e esticando as pernas, enquanto Mattie chegava com o caf. - Obrigado, Mattie.
        -  sempre bem-vindo, Sr. Hillyard.
       Ela lhe sorriu to afetuosamente quanto sempre o fazia. Ele era sempre amvel, como se detestasse incomod-la, muito diferente da...
       - Deseja mais alguma coisa, madame?
       - No. Para dizer a verdade... Michael, no quer tomar o caf na biblioteca?
       - Est certo.
       Talvez fosse mais fcil conversar l. A sala de jantar da me sempre o fizera recordar os sales de baile que vira em manses ancestrais. No era propcia 
a conversas ntimas, muito menos a uma suave persuaso. Ele se levantou e seguiu a me para fora da sala, descendo trs degraus atapetados e entrando na biblioteca, 
 esquerda. De l, tinha-se uma vista esplndida da Quinta Avenida e de parte considervel do Central Park. Mas havia tambm na sala uma lareira aconchegante e duas 
paredes cobertas de livros. A quarta parede era dominada por um retrato do pai de Michel. Mas era um retrato de que ele gostava, em que o pai parecia extremamente 
simptico, como algum que se tinha vontade de conhecer. Quando menino, Michael ia muitas vezes olhar para aquele retrato e "conversava" em voz alta com o pai. A 
me o descobrira assim certa ocasio e dissera-lhe que isso era um absurdo. Mais tarde, porm, Michael a descobrira chorando naquela sala, olhando para o retrato, 
da mesma forma como ele fazia.
       A me se acomodou em seu lugar de sempre, uma cadeira Lus XV forrada em damasco bege e de frente para a lareira. Naquela noite, o vestido dela era quase 
da mesma cor. Por um momento, ao claro da lareira, Michael julgou-a quase bonita. Marion j o tinha sido e no fazia muito tempo. Ela estava agora com 57 anos. 
Michael nascera quando a me tinha 33 anos. Ela no tivera tempo para ter filhos antes disso. Marion era muito bonita naquela poca. Possua os mesmos cabelos louros, 
quase cor de mel, que Michael tinha, s que agora estavam cada vez mais grisalhos. E a vida em seu rosto se desvanecera. Fora substituda por outras coisas. Principalmente 
pela preocupao com os negcios. E os olhos outrora de um azul sereno pareciam quase cinzentos agora. Como se o inverno tivesse finalmente chegado.
       - Tenho o pressentimento de que veio aqui esta noite para falar-me sobre algo importante, Michael.  isso mesmo?
       Ser que ele engravidara alguma mulher? Teria destrudo o carro? Ferira algum? Nada era irreparvel,  claro, contanto que Michael lhe contasse tudo. Ela 
estava contente pelo fato do filho ter vindo procur-la.
       - No  nada de grave. Mas h algo que preciso discutir com voc.  
       Errado. Michael encolheu-se quase visivelmente diante de suas palavras. "Discutir." Deveria ter falado que havia algo que queria contar e no discutir. Oh,! 
diabo!
       - Achei que j era tempo de sermos francos um com o outro. 
       - Fala como se geralmente isso no acontecesse.
       - Em algumas coisas, no acontece mesmo.
       Todo o corpo de Michael estava agora tenso. Ele se inclinou para frente, consciente de que o pai olhava por cima de seu ombro.
       - No somos francos em relao a Nancy, mame.
       - Nancy?
       Ela parecia ignorar inteiramente o nome. Por um instante, Michael sentiu um impulso de levantar-se e esbofete-la. Detestava a maneira como a me pronunciara 
o nome de Nancy. Como se no passasse de uma criada.
       - Nancy McAllister. Minha amiga.
       - Ah, sim... - Houve uma pausa interminvel, enquanto Marion mudava a posio da colher esmaltada no pires. - E em que no somos francos em relao a Nancy?
       Os olhos dela estavam agora velados por uma mortalha de gelo cinzento.
       - Tenta fingir que ela no existe. E procuro no incomod-la com isso. Mas a verdade, mame,  que... vou me casar com ela. - Ele respirou fundo e recostou-se, 
antes de arrematar: - Dentro de duas semanas.
       - Entendo. - Marion Hillyard estava perfeitamente imvel. Os olhos no se mexiam, nem as mos, nem o rosto. Nada. - E posso perguntar por qu? Ela est grvida?
       - Claro que no!
       - O que  muita sorte. Sendo assim, posso perguntar por que vai se casar com ela? E por que dentro de duas semanas?
       - Porque estarei formado ento, mudando-me para Nova York e comeando a trabalhar. Porque faz sentido.
       - Para quem?
       O gelo estava se endurecendo e uma perna foi cruzada cuidadosamente sobre a outra, com o rudo de seda. Michael sentiu-se constrangido sob a firmeza do olhar 
da me. Ela no desviara os olhos dele uma nica vez. Como nos negcios, Marion estava se mostrando implacvel. Era capaz de fazer qualquer homem encolher-se e finalmente 
desmoronar.
       - Faz sentido para ns, mame.
       - Pois no faz para mim. Fomos chamados a construir um centro mdico em So Francisco, pelo mesmo grupo que est por trs do Hartford Center. No ter tempo 
para uma esposa. Estou contando muito com sua ajuda pelo prximo ano ou dois. Francamente, querido, gostaria que esperasse.
       Era a primeira vez que Michael via a me abrandar um pouco uma posio, o que o levou a pensar que talvez houvesse alguma esperana.
       - Nancy ser til para ns dois, mame. No ser uma distrao para mim nem um estorvo para voc. Ela  uma moa maravilhosa. 
       -  possvel. Mas quanto a ser til... Por acaso j pensou no escndalo?
       Havia agora um brilho de vitria nos olhos de Marion. Ela estava se preparando para o bote e subitamente Michael prendeu a respirao como presa indefesa, 
sem saber por que lado a me iria atacar. Ou como.
       - Que escndalo?
       - Ela lhe contou quem , no  mesmo?
       Oh, Deus! O que viria agora?
       - O que est querendo insinuar com esse quem ela ? 
       - Exatamente isso, posso ser mais especfica.
       Com um movimento suave, felino, Marion largou a xcara numa mesinha e deslizou at sua escrivaninha. Tirou uma pasta da ltima gaveta e entregou-a a Michael, 
sem dizer nada. Ele segurou a pasta, indeciso, com medo de ver o que havia dentro.
       - O que  isso?
       - Um relatrio. Contratei um investigador particular para saber quem era a sua amiguinha pintora. No estava muito satisfeita. 
       O que era uma atenuao da verdade. Marion ficara furiosa. 
       - Por favor, Michael, sente-se e leia.
       Ele no se sentou, mas relutantemente abriu a pasta e comeou a ler. Nas primeiras doze linhas, descobriu que o pai de Nancy fora morto na priso quando ela 
ainda era beb, e que a me morrera dois anos depois, como alcolatra. Estava tambm explicado que o pai dela fora condenado a sete anos de priso por assalto a 
mo armada.
       - No acha que eram pessoas encantadoras, querido?
       A voz dela era ligeiramente desdenhosa. Abruptamente, Michael jogou a pasta em cima da escrivaninha. O contedo deslizou rapidamente para o cho.
       - No vou ler esse lixo.
       - No quer ler... mas vai casar-se com esse lixo.
       - Que diferena faz quem foram os pais dela? Por acaso  culpa de Nancy? 
       - No.  o infortnio dela. E o seu, se casar com ela. Seja sensato, Michael. Vai entrar para um negcio em que milhes de dlares esto envolvidos em cada 
transao. No pode mais expor-se ao risco de um escndalo. Poderia nos arruinar. Seu av fundou esse imprio h mais de 50 anos e vai agora destru-lo por causa 
de um romance? No seja absurdo. Est na hora de crescer, meu rapaz. Mais do que na hora. Os tempos de aventuras vo se acabar para voc exatamente dentro de duas 
semanas.
       Marion estava agora inflamada, sem tirar os olhos do filho. No ia perder aquela batalha, no importava o que tivesse de fazer.
       - No quero discutir esse problema com voc, Michael. No tem alternativa.
       Marion sempre lhe dissera aquilo. Sempre...
       - Uma ova que no tenho! - Era um sbito rugido, enquanto ele andava pela sala. - No vou me inclinar diante de voc e de suas regras pelo resto da vida, 
mame! De jeito nenhum! O que est pensando exatamente? Que vai me levar para o negcio, paparicar-me at se aposentar e depois continuar a me controlar como um 
ttere de seu quarto? Pois saiba que isso no vai acontecer! Vou trabalhar para voc e mais nada! No  dona de minha vida, nem agora nem nunca! E tenho o direto 
de me casar com quem quiser! 
       - Michael!
       Foram interrompidos pelo som abrupto da campainha da porta. Os dois estavam de p, olhando-se, como jaguares numa jaula. O jaguar velho e o novo, cada um 
ligeiramente temeroso do outro, ambos famintos pela vitria, ambos lutando pela sobrevivncia. Estavam ainda parados em lados opostos da sala, tremendo de raiva, 
quando George Calloway entrou, percebendo prontamente que viera deparar com uma cena de paixo intensa. Homem suave, elegante, de cinqenta e tantos anos, ele era 
h muito tempo o brao-direito de Marion. Mais do que isso, era em grande parte a fora por trs da Cotter-Hillyard. Mas, ao contrrio de Marion, raramente aparecia 
na linha de frente. Preferia exercer sua fora das sombras. H muito que aprendera os mritos da fora discreta. Isso lhe valera a confiana e admirao de Marion 
h vrios anos, assim que ela assumira o lugar do marido na empresa. Marion fora ento apenas uma figura de proa e George  que realmente dirigira a Cotter-Hillyard 
pelo primeiro ano, enquanto resolutamente, conscienciosamente, ensinava tudo a ela. E George fizera um bom trabalho. Marion aprendera tudo o que ele lhe ensinara 
e muito mais. Ela era agora uma fora por si mesma, mas ainda se apoiava em George em todas as operaes de grande monta. Isso significava tudo para ele. Saber que 
Marion ainda precisava dele depois de todos aqueles anos. Saber que ela sempre precisaria. George podia agora compreender isso. Formavam uma equipe, silenciosa, 
inseparvel, cada um to forte quanto o outro. Algumas vezes George se perguntava se Michael sabia o quanto eram unidos. Duvidava muito. Michael sempre fora o centro 
da vida da me. Por que iria perceber at que ponto George estava envolvido? Sob certos aspectos, a prpria Marion no chegava a compreender. Mas George aceitava 
tudo. Dedicava seu afeto e energias  empresa. E talvez algum dia... George olhou agora para Marion com uma preocupao imediata. Aprendera a reconhecer a contrao 
nos cantos da boca e a estranha palidez por baixo do p-de-arroz e rouge cuidadosamente aplicados.
        - Voc est bem, Marion?
       George conhecia mais a respeito da sade dela do que qualquer outra pessoa. Marion lhe confidenciara tudo, anos atrs. Algum tinha de saber, pelo bem da 
empresa. Ela tinha uma presso assustadoramente alta e um problema cardaco.
       Por um momento no houve resposta. Depois, ela desviou os olhos do filho para fix-los no associado e amigo de muitos anos.
       - Estou... estou bem. Desculpe. Boa noite, George. Pode entrar.
       - Acho que cheguei num momento errado.
       - Absolutamente, George. Eu j estava saindo.
       Michael virou-se para fit-lo e nem ao menos conseguiu exibir um arremedo de sorriso. Depois, olhou novamente para a me, mas no fez qualquer meno de se 
aproximar dela.
       - Boa noite, mame.
       - Telefono para voc amanh, Michael. Podemos discutir o problema pelo telefone.
       Michael sentiu vontade de dizer algo odioso para a me, deix-la amedrontada. Mas no podia, no sabia como. E de que isso adiantaria?
       - Michael...
       Ele no respondeu. Apertou solenemente a mo de George e depois saiu da sala, sem olhar para trs. No chegou a ver a expresso nos olhos da me ou a preocupao 
nos de George, enquanto ela afundava lentamente de volta na cadeira e erguia as mos trmulas ao rosto. Havia lgrimas nos olhos dela, que ocultou at mesmo de George.
       - O que aconteceu?
       - Ele vai fazer uma loucura.
       - Talvez no. Todos ns ameaamos fazer loucuras de vez em quando.
       - Em nossa idade, ameaamos. Na idade de Michael, eles fazem.
       "Todos os meus esforos para nada", pensou Marion. "Os relatrios do investigador particular, os telefonemas, os..." Ela suspirou e recostou-se lentamente 
na cadeira.
       - J tomou o seu remdio hoje, Marion? - Ela sacudiu a cabea, quase imperceptivelmente. 
       - Onde est?
       - Na minha bolsa. Atrs da escrivaninha.
       George foi at l, sem fazer qualquer comentrio sobre as pginas do relatrio espalhadas sobre a mesa e o cho. Encontrou a bolsa de crocodilo preto, com 
um fecho de ouro de 18 quilates. Conhecia bem aquela bolsa. Fora um presente de Natal dele, trs anos antes. Encontrou o remdio e voltou para junto de Marion, com 
duas plulas brancas na mo. Ela ouviu o barulho da xcara de caf a seu lado e abriu os olhos. Desta vez, Marion sorriu-lhe.
       - O que eu faria sem voc, George?
       - E o que eu faria sem voc?
       George no podia sequer suportar tal pensamento. - Devo ir embora agora? Voc precisa descansar.
       - Se ficar sozinha, vou pensar em Michael e me tornarei cada vez mais angustiada.
       - Ele ainda vem trabalhar na firma?
       - Vem, sim. O problema  outro.
       Ou seja, a moa. George tambm estava a par disso, mas no queria pressionar Marion naquele momento. Ela estava bastante angustiada, mas pelo menos a cor 
estava agora voltando a seu rosto. Depois de engolir as plulas, ela pegou um cigarro. George acendeu-o, enquanto observava o rosto dela. Marion era uma linda mulher. 
Ele sempre o achara. Mesmo agora, quando ela se tornava cada vez mais cansada e doente. Ele se perguntou se Michael saberia o quanto a me estava doente. Provavelmente 
no sabia, caso contrrio no a deixaria transtornada daquela maneira.
       O que George no sabia era que Michael estava igualmente desesperado e angustiado naquele momento. Lgrimas ardentes lhe queimavam os olhos, enquanto seguia 
de txi para o aeroporto.
       Ele telefonou para Nancy assim que chegou ao terminal. Seu avio partiria dentro de 20 minutos.
       - Como foi o encontro?
       Nancy no pudera perceber coisa alguma pela maneira como ele a cumprimentara.
       - Tudo bem. Agora, quero que voc entre em ao. Prepare uma mala, vista-se, esteja pronta dentro de uma hora e meia, quando estarei chegando a.
       - Pronta para qu?
       Nancy estava aturdida, sentada no canto do sof, toda enroscada, com o fone na mo. Michael fez uma breve pausa, sorrindo em seguida. Era o seu primeiro sorriso 
em duas horas.
       - Para uma aventura, meu amor. Vai descobrir quando chegar a hora.
       - Acho que ficou doido.
       Ela estava rindo, aquela sua risada suave e maravilhosa. 
       - Isso mesmo, estou doido por voc. 
       Michael sentiu que voltava a ser ele prprio. Novamente, tudo comeava a fazer sentido. Estava de volta a Nancy. Ningum poderia jamais tirar isso dele. Nem 
sua me. Nem um relatrio confidencial. Ningum. Nada. Ele prometera naquele dia, na praia, quando haviam enterrado as contas, que nunca diria adeus para Nancy. 
E estava falando srio.
       - Muito bem, Nancy Calalinda; trate de se mexer! Ah, sim... e no se esquea de usar algo novo, algo velho...
       Ele no estava apenas sorrindo agora; estava transbordando de felicidade.
       - Est querendo dizer... 
       A voz de Nancy se desvaneceu no espanto.
       - Estou querendo dizer que vamos nos casar esta noite. Est certo para voc?
       - Est, sim. Mas...
       - Mas coisa nenhuma, mocinha. Levante esse rabo da e comece a se comportar como uma noiva no dia do casamento. 
       - Mas por que esta noite?
       - Por uma questo de instinto. Confie em mim. Alm do mais,  uma noite de lua cheia.
       - Deve ser.
       Nancy tambm estava sorrindo agora. Ia casar-se. Ela e Michael iam casar-se.
       - Eu a verei dentro de uma hora, meu bem. S mais uma coisa, Nancy...
       - O que ?
       - Eu a amo.
       Michael desligou e correu para o porto. Foi o ltimo passageiro a embarcar no avio para Boston. Nada podia det-lo agora.
       
       
Captulo 3
       
       Ele estava batendo na porta h quase 10 minutos, mas no ia desistir. Sabia que Ben estava l dentro
       - Ben! Vamos, abra a porta! Ben! Pelo amor de Deus, cara, abra logo essa porta!
       Outra saraivada de batidas e depois o som de passos, seguido por um sbito estrondo. A porta se abriu para revelar um Ben sonolento, parado ali, inteiramente 
atordoado, de cueca, esfregando a canela.
       - So apenas 11 horas, Ben. O que est fazendo dormindo a uma hora dessas? - O sorriso no rosto de Ben revelou tudo, a um segundo olhar. - Ei, voc est chumbado!
       - At as pontas dos dedos dos ps!
       Ben olhou para os ps, com um sorriso malicioso e as pernas balanando tropegamente.
       - Pois vai ter de ficar sbrio bem depressa, companheiro. Preciso de voc. 
       - Quero que voc se dane! Tomei seis Beefeaters com tnica e acha que vou desperdiar tudo isso? Essa no!
       - Esquea tudo o mais e trate de se vestir.
       - Estou vestido! - Ele contraiu os olhos, com uma cara de infeliz, quando Michael acendeu a luz. - Ei, que diabo est fazendo?
       Mas Michael limitou-se a sorrir, enquanto se encaminhava para a pequena cozinha, na desordem mais total.
       - O que andou fazendo por aqui, Ben? Detonou uma granada de mo?
       - Isso mesmo. E vou meter uma pelo seu...
       - Ora, ora, esta  uma ocasio especial, Ben.
       Michael virou-se para sorrir-lhe, da entrada da cozinha. Por um momento, houve um brilho de esperana nos olhos de Ben. 
       - E podemos beber por conta dessa ocasio?
       - Tudo o que quiser. S que depois.
       - Essa no!
       Ben desabou numa poltrona e deixou que a cabea recostasse nas almofadas.
       - No quer saber qual  a ocasio, Ben?
       - No, se eu no puder beber por conta. Vou terminar o curso de doutorado. E isso  algo pelo qual posso beber.
       - E eu vou me casar.
       - Isso  timo... - No instante seguinte, Ben se endireitou na poltrona, arregalando os olhos. - Voc o qu?
       - Ouviu direito o que eu falei. Nancy e eu vamos nos casar.
       Michael falou com o orgulho sereno de um homem que sabe o que quer.
       - E vamos para uma festa de noivado?
       Ben exibia agora uma expresso de satisfao. Ali estava algo que valia pelo menos outra meia dzia de Beefeaters. Talvez at uns sete ou oito.
       - No  uma festa de noivado, Ben Avery. J lhe disse.  um casamento.
       - Agora? - Confuso novamente. Hillyard era de fato um p no saco. - Por que agora?
       - Porque queremos. Alm do mais, voc est chumbado demais para entender qualquer coisa. Pode dar um jeito para ficar de p pelo tempo suficiente para ser 
nosso padrinho?
       - Claro. Ora, seu filho da me, voc vai mesmo...
       Ben levantou-se de um pulo da poltrona, cambaleou perigosamente, bateu com o dedo na mesinha do caf.
       - Mas que merda!
       - Trate de vestir algumas roupas sem se matar, Ben. Vou fazer um caf para voc.
       - Est bem.
       Ele ainda estava murmurando consigo mesmo quando desapareceu no quarto, mas j estava ligeiramente mais controlado quando voltou. Chegara mesmo a pr uma 
gravata sobre a T-shirt listrada de azul e vermelho. Michael fitou-o e sacudiu a cabea, com um sorriso.
       - Poderia pelo menos ter escolhido uma gravata que combinasse com essa camisa.
       A gravata era marrom escura, com padres beges e pretos.
       - Preciso mesmo de uma gravata? - Ben parecia subitamente preocupado. - No consegui encontrar nenhuma que combinasse.
       - Basta agora levantar o zper da cala e estaremos prontos. E talvez seja bom descobrir onde est seu outro sapato.
       Ben olhou para os ps e descobriu que estava s com um sapato. Desatou a rir.
       - Est certo, estou chumbado. Mas por acaso eu sabia que ia precisar de mim esta noite? Poderia pelo menos ter me contado esta manh.
       - Eu ainda no sabia esta manh.
       Tal resposta provocou uma expresso de seriedade nos olhos de Ben.
       - No sabia?
       - No.
       - Tem certeza do que est fazendo?
       - Absoluta. E no me venha com sermes. J ouvi bastante esta noite. Trate apenas de terminar de se arrumar decentemente para podermos ir buscar Nancy.
       Michael entregou ao amigo uma caneca de caf fumegante.
       Ben tomou um gole prolongado e depois fez uma carranca.
       - Mas que desperdcio de um bom gim!
       - Pagaremos quantos voc puder tomar depois do casamento.
       - Por falar nisso, onde  que vai se casar?
       - J vai descobrir.  uma cidadezinha linda, pela qual estou apaixonado h anos. Passei um vero l quando era menino.  o lugar perfeito.
       - Tem uma licena?
       - No h necessidade.  uma dessas cidadezinhas malucas em que as pessoas podem casar-se com a cara e a coragem. Est pronto?
       Ben engoliu o resto do caf e assentiu.
       - Acho que sim. Puxa estou comeando a ficar nervoso.  No est apavorado?
       Ele olhou para o amigo, mais sbrio agora. Mas Michael parecia estranhamente calmo.
        - Nem um pouco.
       - Talvez saiba o que est fazendo. No sei...  que... o casamento... - Ben sacudiu a cabea e olhou novamente para os ps, o que o fez recordar que ainda 
precisava encontrar o outro sapato. - Mas Nancy  uma garota sensacional.
       - Muito mais do que isso. - Michael avistou o outro sapato debaixo do sof, e pegou-o. - Ela  tudo o que sempre desejei.
       - Ento espero que o casamento proporcione aos dois tudo o que querem, Michael. Para sempre. 
       Havia um brilho de ternura nos olhos de Ben e por um momento Michael segurou-o pelos braos.
       - Obrigado.
       E no instante seguinte os dois desviaram o olhar, ansiosos em partirem, para rirem novamente, para saborearem o momento com alegria, ao invs de solenemente.
       - Estou apresentvel?
       Ben apalpou a cala para verificar se estava com a carteira, depois procurou as chaves.
       - Est deslumbrante.
       - Ora, v... Mas onde  que se meteram as minhas chaves?
       Ben olhou ao redor, desolado, enquanto Michael ria. As chaves estavam presas numa das presilhas de cinto da cala dele.
       - Vamos logo embora, Avery. J estamos atrasados.
       Os dois partiram, de braos dados, entoando canes de cervejaria de veres anteriores. Todo o prdio podia ouvi-los, mas ningum se importava realmente. 
Era povoado por estudantes que viviam nas proximidades do campus e todos andavam promovendo os maiores tumultos, quando faltavam duas semanas para terminarem as 
aulas.
       Dez minutos depois, estavam diante do prdio de Nancy, na Spark Street. Ela acenou nervosamente da janela quando Michael buzinou. Tinha a sensao de que 
estava pronta h horas. Um momento depois, estava parada ao lado do carro. Por alguns segundos, os dois rapazes ficaram em silncio. Foi Michael o primeiro a falar:
       - Deus do cu, Nancy... voc est maravilhosa! Onde conseguiu esse vestido?
       - Eu o tinha.
       Eles trocaram um sorriso prolongado. Nenhum dos dois se mexeu. Nancy sentiu-se de repente uma noiva da cabea aos ps, apesar da hora tardia e das circunstncias 
heterodoxas. Usava um vestido branco comprido e tinha uma pequena touca azul de cetim sobre os cabelos pretos lustrosos. O vestido fora comprado quando servira como 
dama de honra no casamento de uma amiga, trs anos antes, mas Michael nunca o tinha visto. Ela estava de sandlias brancas e levava um leno de renda muito antigo 
e bonito.
       - Est vendo, Michael? Algo velho, algo novo... o leno era de minha av.
       E a pequena touca era azul. Ela estava to bonita que, por um momento, Michael ficou sem saber o que dizer. At mesmo Ben parecia ter ficado completamente 
sbrio pela contemplao dela..
       - Est parecendo uma princesa, Nancy.
       - Obrigada, Ben.
       - Ei, voc tem algo emprestado?
       - Como assim?
       - No est lembrada? Algo velho, algo novo... algo emprestado... - Nancy riu e sacudiu a cabea. - Pois aqui est algo emprestado.
       Ben inclinou a cabea para frente e comeou a mexer em algo no pescoo. Um momento depois, ele exibiu uma corrente de ouro delicada e bonita.
       -  apenas um emprstimo. Minha irm me mandou de presente de formatura, mas abri antes. Pode tomar emprestado para o casamento.
       Ele se inclinou para fora do carro a fim de prender a corrente no pescoo de Nancy. Terminava um pouco acima da gola rendada do vestido.
       -  perfeito.
       - Assim como voc.
        O comentrio foi de Michael, que saiu do carro nesse momento e abriu a porta para Nancy entrar. Ele ficara to atordoado pela aparncia dela que por algum 
tempo fora incapaz de pensar.
       - V para trs, Avery. Voc senta na frente, querida.
       - Ela no pode sentar no meu colo?
       Ben murmurou um dbil protesto, enquanto se transferia para o banco traseiro. Michael sacudiu-lhe o dedo.
       - No precisa ficar nervoso, cara. Apenas pensei que por ser o padrinho podia...
       - Vai acabar virando um homem morto se no tomar mais cuidado, Avery.
       O nimo de ambos era da mais intensa alegria, sendo as palavras pronunciadas em tom zombeteiro. Nancy acomodou-se no banco da frente e fitou radiante o homem 
com quem estava prestes a casar. Sentiu um momento de apreenso ao pensar em Marion, mas tratou de afastar o problema de sua mente. Aquele era um momento para pensar 
apenas em si mesma. E em Michael.
       - Que noite mais doida... mas estou adorando!
       Alternadamente, gracejaram e ficaram em silncio, no caminho para a pequena cidade em que Michael estava pensando. Chegou finalmente o momento em que nenhum 
dos trs falou mais qualquer coisa. Tinham uma poro de coisas em que pensar. Michael estava recordando o encontro com a me, enquanto Nancy pensava em tudo o que 
aquele dia representava para ela.
       - Ainda falta muito, amor?
       Nancy estava comeando a ficar nervosa e o leno da av parecia cada vez mais amarrotado, espremido entre as mos.
       - Faltam apenas sete ou oito quilmetros. Estamos quase chegando... - Michael acariciou por um momento a mo de Nancy. - S mais alguns minutos, querida, 
e estaremos casados.
       - Pois ento trate de acelerar, mister, antes que eu fique de ps frios - cantarolou Ben, no banco de trs. 
       Michael calcou o acelerador e entrou na curva seguinte, enquanto os trs riam. Mas as risadas rapidamente se transformaram em arquejos, enquanto Michael dava 
uma guinada desesperada no volante, tentando inutilmente evitar um caminho que ocupava as duas pistas, avanando na direo deles, depressa demais, quase descontrolado. 
O motorista devia estar meio adormecido. Nancy recordou-se depois de ter ouvido o grito angustiado de Ben:
       - Oh, no!
       E sua prpria voz, ressoando em seus ouvidos. E depois houve o barulho interminvel de vidro espatifado, metal rangendo, sendo destroado, motores se encontrando, 
couro e plstico sendo rasgado, tudo se cobrindo com uma mortalha de fragmentos de vidro. E depois, finalmente, tudo parou, o mundo ficou totalmente escuro.
       Parecia que se haviam passado muitos anos quando Ben despertou, a cabea comprimida contra o painel, um latejar horrvel nos ouvidos. Tudo estava escuro ao 
seu redor e parecia haver um punhado de areia em sua boca. Teve a sensao de que transcorreram mais algumas horas antes que conseguisse abrir os olhos. O esforo 
deixou-o terrivelmente enjoado, sentindo-se mal. A princpio, no pde compreender o que viu. Nada parecia fazer sentido. Depois, compreendeu que olhava para o olho 
direito de Michael. Estava no banco da frente com ele, mas tudo o que podia ver era Michael. E havia um filete de sangue escorrendo lentamente pelo lado do rosto 
de Michael, continuando pelo pescoo. Era estranho ficar observando, mas por algum tempo foi tudo o que Ben fez... observar... Michael... sangrando... Santo Deus! 
Ocorreu-lhe finalmente o que estava acontecendo. Acidente... houvera um acidente... ele e Michael estavam no carro e... Ben levantou a cabea e tentou divisar mais 
alguma coisa, mas um golpe, que parecia de uma barra de ferro, obrigou-o a baix-la novamente. Alguns minutos se passaram antes que ele conseguisse recuperar o flego 
e pudesse abrir os olhos novamente. Michael ainda estava cado no mesmo lugar, sangrando. Mas Bem pde agora constatar que o amigo estava respirando. Desta vez, 
quando ele se mexeu, nada aconteceu. Pde levantar a cabea. O que viu, alm de Michael, foi o caminho que os abalroara,  beira da estrada, capotado. O que ele 
no viu foi o motorista, sob a cabina do caminho, morto. Algum tempo se passaria antes que algum visse isso. E depois Ben compreendeu algo mais, que estava vendo 
tudo atravs de janelas abertas. No restava mais vidro intacto em qualquer lugar do carro. O vidro estava por cima deles, espatifado em pequenos fragmentos ao redor 
deles. E no lado de Michael tambm no havia porta. No instante seguinte, Ben recordou-se de mais uma coisa. Havia outra pessoa no carro... Nancy estava com eles, 
e para onde estavam indo?
       Era muito difcil lembrar-se das coisas, ver tudo direito. A cabea de Ben doa terrivelmente. Quando ele se mexeu, uma dor terrvel subiu-lhe pela perna, 
continuou pelo lado do corpo. Ele se mexeu para o outro lado, a fim de se livrar da dor. E foi nesse momento que a viu. Nancy... oh, Deus... era Nancy, numa espcie 
de roupa vermelha e branca, cada sobre o cap, o rosto virado para baixo... Nancy... ela s podia estar morta... Ben j no se importava mais com a dor em sua perna. 
Arrastou-se por cima do painel, aproximando-se dela. Ele tinha de vir-la... alcan-la... ajud-la... Nancy... E foi ento que percebeu a poeira tnue que cobria 
os cabelos de Nancy. Ela estava usando o pra-brisa por cima do vestido, sobre a nuca, sobre... Santo Deus! Com suas ltimas reservas de energia, ele a rolou lentamente 
para o lado.. E depois, desoladamente, com um garotinho aterrorizado.
        - Oh, Deus... 
       No mais havia qualquer rosto por baixo da touca azul de cetim ensopada de sangue. Ele no podia dizer se Nancy estava morta ou viva. Mas, por um instante 
horrvel, esperou que ela estivesse morta. Porque simplesmente no existia mais nenhuma Nancy. No restava absolutamente mais ningum ali, nem mesmo um remanescente 
do rosto outrora bonito. E depois, misericordiosamente, entre o sangue de Nancy e as suas prprias lgrimas, Ben desmaiou.


Captulo 4

       Ele parecia terrivelmente plido, com a me sentada ali a observ-lo. Marion Hillyard, sentada num canto do quarto, tinha uma expresso desolada. J estivera 
ali antes, naquele quarto, naquele dia, observando aquele rosto... no realmente aquele rosto ou aquele quarto, mas ela tinha a sensao de que nada mudara. Era 
exatamente como na ocasio em que Frederick tivera o infarto fulminante que o matara em poucas horas. Ela ficara sentada ali, igualmente imvel, igualmente apavorada, 
igualmente sozinha. E ele acabara... Frederick... Marion sentiu novamente um soluo subir por sua garganta e respirou fundo. No podia chorar. No podia deixar-se 
dominar por aqueles pensamentos. O marido morrera. Michael no ia morrer. Nada aconteceria a Michael. Ela no deixaria que coisa alguma lhe acontecesse. Estava agora 
fazendo-o resistir com as ltimas reservas de energia que podia dar.
       Por um momento, ela desviou o olhar para o rosto da enfermeira. A mulher estava observando Michael atentamente, mas no havia qualquer sinal de alarme em 
sua atitude. Ele passara o dia inteiro em estado de coma, desde o acidente na noite anterior. Marion chegara ali s cinco horas da manh. Telefonara para um servio 
de limusine que funcionava 24 horas por dia e viera de carro de Nova York. Mas teria vindo a p, se fosse necessrio. Nada a impediria de ficar ao lado de Michael. 
Tinha de estar ali para mant-lo vivo. Michael era agora tudo o que ela tinha. Michael e a firma... e a firma era para ele. Fizera tudo para Michael... isto , nem 
tudo por ele, mas a maior parte. Era o maior presente que podia dar ao filho. O presente do poder, do sucesso. Michael no podia jogar tudo fora por causa daquela 
sem-vergonha... assim como no podia perder tudo morrendo. Oh, Deus! Era tudo culpa dela, daquela maldita mulher. Ela provavelmente persuadira Michael a fazer aquilo. 
Ela...
       A enfermeira levantou-se abruptamente e puxou as plpebras de Michael. Marion ficou tensa e esqueceu tudo o que estava pensando. Ela tambm se levantou, silenciosamente, 
indo postar-se ao lado da enfermeira. O que quer que houvesse para ver, ela queria ver. Mas no havia nada. Nenhuma mudana. A mulher inexpressiva de branco pegou 
o pulso de Michael por um momento e depois formou com a boca as mesmas palavras de sempre:
       - Continua na mesma.
       Ela fez um gesto na direo do corredor e Marion seguiu-a para fora do quarto. Desta vez, a preocupao da enfermeira no era com Michael, mas sim com a me.
       - O Dr. Wickfield pediu-me que lhe dissesse que devia sair s cinco horas, Sra. Hillyard. E, infelizmente...
       Ela olhou ameaadoramente para o relgio e depois sorriu, como se pedisse desculpas. Eram 5h15min. Marion estava ao lado de Michael h exatamente 12 horas. 
Ficara sentada ali durante o dia inteiro, ininterruptamente, com apenas duas xcaras de caf para se manter. Mas no estava cansada, no estava com fome, no estava 
coisa alguma. E no ia embora.
       - Obrigada pela gentileza. Vou andar um pouco pelo corredor e depois voltarei.
       Ela no ia deixar Michael. Nunca mais. Deixara Frederick. Apenas por uma hora, para jantar. Haviam insistido que ela comesse alguma coisa e fora nessa ocasio 
que Frederick morrera. Morrera enquanto ela estava ausente. O que no ia acontecer desta vez. Ela sabia que Michael no morreria enquanto estivesse sentada ali no 
quarto. As leses haviam sido principalmente internas, mas o prprio Wickfield achava que Michael poderia em breve emergir do estado de coma. De qualquer forma, 
Marion no estava disposta a correr qualquer risco. Haviam tambm pensado que Frederick iria em breve se recuperar. Havia agora lgrimas nos olhos dela, enquanto 
ficava parada ali, os olhos vazios fixados na parede azul-clara por trs da enfermeira.
       - Sra. Hillyard? - A mulher tocou-lhe gentilmente o brao e Marion estremeceu. - Deve descansar um pouco. O Dr. Wickfield reservou-lhe um quarto no terceiro 
andar.
       - No h necessidade.
       Marion sorriu inexpressivamente para a enfermeira e afastou-se pelo corredor. O sol ainda brilhava na janela na extremidade do corredor. Ela se sentou cuidadosamente 
no peitoril da janela, para fumar o seu primeiro cigarro em horas e contemplar o sol se pr atrs de uma igreja branca naquela agradvel cidadezinha da Nova Inglaterra. 
Graas a Deus que a cidade apenas parecia remota, quando na verdade estava a menos de uma hora de carro de Boston. No houvera a menor dificuldade em trazer os melhores 
mdicos para examinarem Michael. Assim que estivesse em condies Michael seria transferido para um hospital em Nova York. At l, ela sabia que, pelo menos, o filho 
estaria em boas mos. Em termos mdicos, fora Michael quem mais sofrera. O rapaz Avery sara bastante machucado do acidente, mas estava desperto e vivo. O pai levara-o 
de ambulncia para Boston, naquela tarde. Ele quebrara um brao, uma perna, um p e uma clavcula, mas iria recuperar-se inteiramente. E, a moa... ora, tudo fora 
culpa dela, no havia razo para que devesse... Marion apagou o cigarro com um movimento vigoroso do p. A moa tambm ficaria boa. Isto , pelo menos viveria. A 
nica coisa que ela perdera havia sido o rosto. E talvez tivesse sido at melhor assim. Por uma frao de segundo, Marion quis combater a raiva que sentia, desejou 
sentir pena da moa... para o caso de toda aquela baboseira sobre caridade crist ser verdadeira, para o caso de seus sentimentos fazerem alguma diferena para Michael... 
e pela possibilidade de haver um Deus que pudesse puni-la. Mas no conseguiu. Odiava a moa at o fundo de seu corao.
       - Pensei ter deixado ordens para que fosse descansar um pouco.
       Marion virou-se na direo da voz, com um sobressalto. Sorriu, cansada, ao deparar com o seu Dr. Wickfield. Wicky.
       - Ser que nunca acata o que os outros dizem, Marion? 
       - No, se puder evit-lo. Como est Michael?
       Ela estava com o cenho franzido, enquanto pegava outro cigarro.
       - Acabei de dar uma olhada. Ele continua estvel. J lhe disse que ele vai sair do estado de coma, mas  preciso dar-lhe algum tempo. Todo o seu organismo 
recebeu um tremendo choque.
       - Foi o que tambm aconteceu comigo, quando recebi a notcia. - O mdico assentiu, com uma expresso compreensiva. - Tem certeza de que no haver leses 
permanentes? - Marion fez uma breve pausa, antes de acrescentar as palavras terrveis: - Leses cerebrais?
       Wickfield afagou-lhe o brao e sentou-se a seu lado no peitoril da janela. Por trs deles, a cidadezinha era um cenrio digno de um carto-postal.
       - J lhe falei tudo, Marion. Na medida em que podemos prever, ele ficar inteiramente bom. Mas  claro que muito vai depender do tempo em que permanecer em 
estado de choque. Mas posso afirmar-lhe que ainda no estou assustado.
       - Mas eu estou.
       Eram trs palavras bem pequenas na boca de uma mulher muito forte. Surpreenderam o seu mdico, que a fitou atentamente. Havia facetas de Marion Hillyard de 
que ningum jamais suspeitava.
       - Como est a moa? - indagou ela.
       Agora ela era novamente a Marion que Wickfield sempre conhecera, os olhos estreitados por trs da fumaa do cigarro, o rosto duro, o medo dissipado.
       - No h muita coisa que possa mudar para ela. Ou pelo menos no por enquanto. O estado dela permaneceu estvel durante o dia inteiro, mas no h absolutamente 
nada que possamos fazer por ela. Por um lado, porque ainda  muito cedo; por outro, porque s existem dois homens em todo o pas que podem cuidar desse tipo de reconstruo 
total. No restou absolutamente nada no rosto dela, nem um nico osso intacto, nervo ou msculo. Somente os olhos  que no foram totalmente destruidos.
       - Melhor assim, porque dessa forma ela poder contemplar a si mesma.
       O Dr. Wickfield teve um sobressalto com o tom de voz de Marion.
       - Michael  que estava dirigindo, Marion. No era ela.
       Mas Marion limitou-se a assentir em resposta. No havia sentido em insistir no assunto com Wickfield. Ela sabia de quem era a culpa. Era toda da moa.
       - O que acontece com algum nesse estado, se o trabalho de reconstruo no for feito? Ela viver?
       - Infelizmente, sim. Mas levar uma vida trgica. No se pode pegar uma moa de 20 anos e transform-la num horror desse tipo esperando que se ajuste. Ningum 
pode ajustar-se. Ela era... bonita antes do acidente?
       - Acho que era. Mas no sei com certeza. Nunca nos encontramos.
       A voz de Marion era dura como rocha, assim como os olhos.
       - Entendo. Seja como for, ela vai enfrentar uma terrvel realidade. Faro tudo o que for possvel aqui no hospital, assim que ela melhorar um pouco. Mas no 
poder ser muita coisa. Ela por acaso tem dinheiro?
       - Nenhum.
       Marion pronunciou a palavra como se fosse uma sentena de morte. Era a pior coisa que podia dizer a respeito de qualquer pessoa. 
       - Ento ela no tem muitas opes. Infelizmente, os homens que fazem esse tipo de trabalho no so de fazer caridade.
       - J pensou em algum em particular?
       - Conheo alguns nomes. Dois, para ser mais exato. O melhor est em So Francisco. - Um pequeno fogo ateou-se no corao do Dr. Wickfield. Com todo o seu 
dinheiro, Marion Hil1yard podia... se ao menos... - O nome dele  Peter Gregson. Ns nos conhecemos h alguns anos.  realmente um homem extraordinrio.
       - Ele seria capaz de fazer um trabalho desses?
       Wickfield sentiu um impulso de admirao pela mulher. Sentiu vontade de abra-la, mas no se atreveu. . 
       -  bem possvel que ele seja o nico homem capaz de faz-lo. Devo... quer que eu entre em contato com ele?
       Ele hesitou em dizer as palavras. Marion fitou-o com seus olhos frios e calculistas e Wickfield ficou sem saber o que ela estava pensando. A onda de admirao 
quase se transformou em medo.
       - Eu lhe direi quando chegar o momento.
        - Est certo. - Wickfield olhou para o relgio e depois se levantou. - Gostaria que descesse agora e descansasse um pouco. Estou falando srio.
       - Sei disso. - Marion presenteou-o com um sorriso frio. - Mas acontece que no vou descansar. E voc sabe disso tambm. Tenho de ficar ao lado de Michael.
       - Mesmo que se matasse fazendo isso?
       - No vou me matar. Sou ruim demais para morrer, Wicky. Alm disso, ainda tenho muito trabalho a fazer.
       - E vale a pena?
       Wickfield fitou-a com curiosidade por um momento. Se tivesse um dcimo da ambio dela, teria sido um grande cirurgio. Mas no tinha e por isso no era. 
E nem mesmo tinha certeza se a invejava.
       - E vale a pena?
       Na segunda vez, ele falou mais suavemente. Marion assentiu.
       - Claro que vale. Jamais duvide disso, por um segundo sequer. Tem-me dado tudo o que quero da vida.
       A menos que eu perca Michael. Marion fechou os olhos, tratando de afastar o pensamento da mente.
        - Muito bem, vou deix-la mais uma hora com Michael e depois voltarei para c. E vou obrig-la a descansar nem que tenha de aplicar-lhe Nembutal e arrast-la 
pessoalmente para fora do quarto. Entendido?
       - Est certo. - Marion levantou-se, deixou cair o outro cigarro no cho, esmagou-o com o p, afagou o rosto dele ligeiramente. - E Wicky... - Ela o fitou 
sob as pestanas castanhas compridas. Por um momento, era toda suavidade e beleza castanha. - ... obrigada.
       Ele a beijou gentilmente no rosto, apertou-lhe o brao e depois recuou por um momento.
       - Ele vai ficar bom, Marion. Voc vai ver.
       Ele no se atreveu a mencionar a moa novamente. Poderiam voltar a falar sobre isso mais tarde. Limitou-se a sorrir e afastou-se, enquanto Marion continuava 
parada no mesmo lugar, parecendo vulnervel e solitria. Wickfield sentiu-se contente por ter se lembrado de telefonar para George Calloway, poucas horas antes. 
Marion precisava de algum a seu lado. Wickfield no parou de pensar nela enquanto avanava pelo corredor. Marion ficou parada, observando-o afastar-se. S depois 
que ele sumiu  que ela comeou a avanar pelo corredor, um vulto solitrio, a caminho do quarto de Michael, passando por portas abertas e fechadas, por desesperos 
que estavam para chegar e esperanas que jamais se concretizariam. E umas poucas que sobreviveriam. Aquele andar estava reservado para os doentes em estado crtico 
e no saa qualquer rudo dos quartos pelos quais ela passava, lentamente. J estava na metade do corredor quando ouviu soluos convulsivos saindo por uma porta 
aberta. Os sons eram to baixos que a princpio Marion no teve certeza se estava mesmo ouvindo alguma coisa. E foi ento que viu o nmero do quarto e compreendeu 
tudo. Estacou abruptamente, como se tivesse esbarrado numa parede invisvel. Olhou para a porta e para a escurido alm.
       Podia avistar a cama no canto, os contornos meio indefinidos. Mas o quarto estava s escuras. Todas as persianas e cortinas estavam fechadas, como se a paciente 
no pudesse ser atingida pela luz. Marion ficou parada ali por um longo tempo, com receio de entrar no quarto, mas sabendo que tinha de faz-lo. Lentamente, um p 
depois do outro, suavemente, quase deslizando, ela avanou um pouco pelo quarto. E parou novamente. Os soluos eram um pouco mais altos agora e soando a intervalos 
mais rpidos, com ligeiros arquejos de pnico.
       - H algum a?
       Toda a cabea da jovem estava envolta por ataduras e a voz soava abafada e estranha.
       - H algum a? - A voz tornou-se um pouco mais alta. - No posso ver.
       - Seus olhos esto apenas cobertos por ataduras. No h nada de errado com seus olhos. - Mais tais palavras foram recebidas por novos soluos. - Por que est 
acordada?
       Marion falava num tom impassvel. No eram palavras visando a tranqilizar, mas sim palavras inteiramente destitudas de toda e qualquer emoo. A prpria 
Marion tinha a sensao de que estava falando num sonho. Mas sabia que tinha de estar ali.  No havia outro jeito. Pelo bem de Michael.
       - No lhe deram nada para dormir?
       - No funciona. Continuo acordando a todo instante.
       - A dor  terrvel demais?
       - No. Sinto o corpo todo dormente. Quem... quem  voc?
       Marion ficou com medo de dizer. Em vez disso, aproximou-se da cama e sentou-se na cadeira azul estreita que alguma enfermeira devia ter deixado ali. As mos 
da moa tambm estavam envoltas em ataduras e pediam nos lados, inteis. Marion recordou-se de que Wicky lhe dissera que a moa naturalmente usara as mos para proteger 
o rosto. As leses nas mos eram to grandes quanto no rosto, o que seria terrvel para ela, por ser uma pintora. Em suma, toda a vida daquela moa estava praticamente 
liquidada. A juventude, a beleza, o trabalho. E o seu romance. Mas agora Marion sabia o que tinha de dizer.
       - Nancy... - era a primeira vez que ela pronunciava o nome, mas agora isso no tinha importncia. No havia alternativa. - Eles...
       Marion fez uma pausa. Sentada ali, ao lado da jovem mutilada, sua voz era suave e insinuante.
       Houve um silncio total no quarto por um tempo interminvel. Depois, um pequeno soluo angustiado emergiu do meio das ataduras.
       - J lhe falaram sobre o terrvel estado em que seu rosto ficou?
       Marion sentiu o estmago revirar-se ao pronunciar tais palavras, mas no podia parar agora. Tinha de libertar Michael. Se o libertasse, ele viveria. Ela podia 
sentir isso no fundo de si mesma.
       - J lhe contaram como seria impossvel reconstitu-lo com perfeio?
       Os soluos eram agora furiosos.
       - Mentiram para mim! Disseram...
       - S h um homem que pode realizar o trabalho com perfeio, Nancy. E custaria centenas de milhares de dlares. No tem condies de pagar. Nem Michael.
       - Eu jamais permitiria que Michael pagasse! - Ela estava agora furiosa com a voz, assim como se revoltava contra o destino. - Nunca permitiria...
       - E o que vai fazer ento?
        Os soluos recomearam
       - Poderia enfrent-lo desse jeito?
       Demorou alguns minutos para que o "no" sufocado sasse do meio das ataduras. 
       - Acha que ele iria am-la desse jeito? Mesmo que ele tentasse, por sentir algum vinculo de lealdade, alguma obrigao, quanto tempo acha que poderia durar? 
Quanto tempo voc suportaria saber sua aparncia e o que est fazendo com ele?
       Os sons que Nancy emitia agora eram assustadores. Ela dava a impresso de que estava passando muito mal e Marion perguntou-se qual teria sido sua reao naquelas 
circunstncias.
       - No restou nada de voc, Nancy. Absolutamente nada. Nada restou da vida que voc tinha antes deste dia.
        As duas permaneceram num silncio interminvel. Marion tinha a impresso de que iria ouvir aqueles soluos para sempre. Mas tinha que ser doloroso, caso 
contrrio no daria certo.
        - J o perdeu, Nancy. No pode fazer uma coisa dessas com ele. E ele... ele merece muito mais do que isso. Se o ama, sabe disso. E... e voc tambm merece. 
Mas pode ter uma vida nova, Nancy.
       A moa nem mesmo se deu ao trabalho de responder, continuando a soluar.
        - Pode ter uma vida nova, Nancy. Um mundo inteiramente novo. - Marion esperou, at que os soluos se tornaram novamente furiosos e depois cessaram. - Um 
rosto inteiramente novo, Nancy.
       - Como?
       - H um homem em So Francisco que pode torn-la bonita novamente. Que pode faz-la capaz de pintar outra vez. Levaria muito tempo, um dinheiro incalculvel. 
Mas valeria a pena, Nancy... no acha?
       Havia agora um sorriso incipiente nos cantos da boca de Marion. Estava em terreno familiar. Era como fazer uma transao de muitos milhes de dlares. Uma 
transao de 100 milhes de dlares. No final, era tudo a mesma coisa.
       Um pequeno suspiro entrecortado emergiu das ataduras. 
       - Ns no temos condies para um tratamento desses. 
       Marion quase estremeceu ao ouvir o "ns". No eram mais um "ns". Nunca haviam sido. Ela, Marion, e Michael  que eram o "ns". No aquela... aquela... Marion 
respirou fundo, tratando de recuperar o controle. Tinha um trabalho a fazer. Era a nica maneira pela qual podia pensar sobre o caso. No podia pensar na moa. Apenas 
em Michael.
       - Vocs no podem, Nancy. Mas eu posso. Sabe agora quem eu sou, no  mesmo?
       - Sei.
       - Pode compreender que j perdeu Michael? Que ele no pode sobreviver  presso e tragdia do que lhe aconteceu, se  que conseguir escapar com vida do acidente? 
Pode compreender isso, no  mesmo?
       - Posso.
       - E sabe que seria uma iniqidade tentar submet-lo a essa provao, faz-lo demonstrar a sua lealdade para com voc?
       Marion no queria dizer a palavra "amor". Aquela moa no era digna de tanto. E isso era algo em que Marion tinha de acreditar de qualquer maneira.
       - Pode compreender isso, Nancy? - Houve um momento ele silncio. - Pode, Nancy?
       Desta vez, a resposta foi uma palavra, desesperada, exausta, desolada:
       - Posso.
       - O que significa que j perdeu tudo o que podia perder, no  mesmo?
       - , sim.
       Novamente a voz soava destituda de inflexo, sem qualquer vida. Era como se a prpria vida estivesse se escoando da moa.
       - Nancy, eu gostaria de lhe propor um pequeno acordo.
       Era Marion Hillyard no melhor de sua classe. Se o filho pudesse ouvi-la naquele momento, sentiria vontade de mat-la.
       - Gostaria que pensasse sobre aquele rosto novo. Sobre uma nova vida, uma nova Nancy. Pense nisso. Sobre o que poderia representar. Seria bonita novamente, 
poderia outra vez ter amigos, poderia ir a lugares... restaurantes, cinemas, lojas... poderia vestir roupas bonitas e sair com homens. A alternativa... as pessoas 
se encolhendo e recuando quando voc se aproximar. No poderia ir a lugar nenhum, no poderia fazer coisa alguma, no seria ningum. As crianas chorariam se a vissem. 
Pode imaginar o que seria viver assim? Mas tem uma opo. 
       Marion parou de falar, dando tempo para que a moa absorvesse suas palavras.
       - No, no tenho.
       - Tem, sim. Quero dar-lhe essa opo. Eu lhe darei essa nova vida. Um novo rosto, um novo mundo. Um apartamento em outra cidade, enquanto o trabalho estiver 
sendo realizado... qualquer coisa que precisar, qualquer coisa que quiser. No haver qualquer dificuldade. Dentro de um ano mais ou menos, Nancy, o pesadelo estar 
terminado.
       - E depois?
       - Voc estar livre. A. nova vida lhe pertencer.
       Houve uma pausa interminvel, enquanto Marion se preparava para desfechar o golpe de misericrdia que Nancy estava esperando.
       - Contanto que voc nunca mais volte a entrar em contato com Michael. O novo rosto ser seu somente se renunciar a Michael. Mas se no aceitar... meu presente, 
sabe que de qualquer maneira j o perdeu. Assim, por que viver o resto de sua vida como uma aberrao, se no tem necessidade?
       - E, se Michael no quiser respeitar o acordo? E se eu me afastar dele, mas Michael no quiser ficar longe de mim?
       - Tudo o que quero de voc  a promessa de que ficar longe dele. O que Michael quiser fazer  problema dele.
       - E voc vai respeitar isso? Se Michael me quiser... se vier atrs de mim... ento  tudo com ele?
       - Respeitarei isso.
       Deitada ali, Nancy sentiu-se vitoriosa. Conhecia Michael infinitamente melhor que a me dele. Michael jamais renunciaria a ela. Acabaria por encontr-la e 
insistiria em ajud-la a superar a provao. A esta altura, ela j estaria a caminho de se tomar a mesma Nancy de antes. A me dele no poderia vencer, por mais 
que tentasse. Aceitando o acordo, Nancy estaria de certa forma trapaceando, pois j sabia qual seria o resultado. Mas tinha de aceitar. No havia alternativa.
       - Vai aceitar?
       Marion quase perdeu a respirao, enquanto esperava pela palavra por que estava rezando, a palavra que libertaria Michael. E finalmente essa palavra chegou.
       Mas seria uma palavra de vitria, no de derrota. Estaria impregnada com toda a f que Nancy depositava em Michael. Ela se recordou das palavras que Michael 
lhe dissera na praia, na manh anterior, ao esconderem as contas: "Prometo nunca dizer adeus". Ela sabia que ele jamais o faria.
       - Qual  a sua resposta, Nancy?
       Marion no podia esperar por mais tempo. O corao dela no suportaria.
       - Sim.



Captulo 5

       Marion Hillyard estava parada  entrada do hospital num vestido preto de l e com um casaco preto de Cardin, observando os homens que embarcavam a moa em 
uma ambulncia. Eram seis horas da manh e ela no voltara a falar com Nancy. Assim que haviam concludo o acordo na noite anterior, Marion imediatamente pedira 
a Wicky que telefonasse para o homem que ele conhecia em So Francisco. Wickfield ficara na maior alegria. Ele beijara Marion no rosto e depois tratara de entrar 
em contato com Peter Gregson, encontrando-o em casa. Gregson concordara em realizar o trabalho. E pedira que Nancy seguisse imediatamente para a Califrnia. Marion 
providenciara um compartimento especial de primeira classe e duas enfermeiras, num jato que partia para So Francisco s oito horas da manh.
       - Ela  uma moa de sorte, Marion.
       Wickfield contemplou-a com expresso de admirao, enquanto ela esmagava outro cigarro.
       - Tambm acho. E no quero que Michael saiba, Wicky. Entendido? - Wickfield entendia, assim como a insinuao do "ou ento" na voz dela. - Se algum contar 
alguma coisa a Michael, cancelo imediatamente o tratamento dela.
       - Mas por qu? Ele tem o direito de saber o que voc fez pela moa.
       - Fica entre ns duas. Ou melhor, entre ns quatro, incluindo voc e Gregson. Michael no precisa saber de nada. Quando ele sair do estado de coma, no deve 
mencionar-lhe a moa. S serviria para deix-lo nervoso.
       Se  que Michael ia sair do estado de coma. Marion cochilara numa cadeira ao lado dele durante a noite inteira, apesar dos protestos de Wicky. Mas sentira-se 
estranhamente revigorada depois de sua conversa com Nancy. Finalmente libertara Michael. Agora ele podia viver. De certa forma, dera a vida a ambos. E sabia que 
estava certa ao agir como fizera.
       - No vai dizer coisa alguma, no  mesmo, Robert?
       Marion nunca o chamava assim, exceto para recordar-lhe o que o dinheiro Hil1yard fizera por seu hospital.
       - Claro que no, se  isso o que voc quer.
       - , sim.
       Houve o estrpito seco da porta da ambulncia sendo fechada. A derradeira manta azul que envolvia a moa desapareceu, assim como as duas enfermeiras. Elas 
ficariam com Nancy pelos primeiros seis ou oito meses em So Francisco. Depois disso, dissera Gregson, a moa no mais precisaria delas. Mas durante esses seis ou 
oito meses ela passaria a maior parte do tempo com os olhos vendados, enquanto ele trabalhava nas plpebras e nariz, testa e faces. Era preciso reconstruir inteiramente 
o rosto. E havia outras despesas envolvidas.
       Nancy precisaria dos cuidados quase constantes de um psiquiatra, para poder enfrentar o choque emocional de se transformar numa nova pessoa. No havia a menor 
possibilidade de Gregson restaurar o mesmo rosto que ela tivera antes. Ele tinha de criar uma mulher inteiramente nova. Marion achou que a idia no podia ser melhor. 
Assim, a moa ficaria ainda mais apartada de Michael. Estava eliminada a possibilidade de um encontro por acaso num aeroporto, cinco anos depois. Marion no queria 
que isso acontecesse. Ela repassou mentalmente as providncias que havia acertado pelo telefone com Gregson, s quatro horas daquela madrugada, uma hora em So Francisco. 
Ele dera a impresso de ser inteligente e dinmico, um homem na casa dos 40 anos, com reputao internacional extraordinria em seu campo. Nancy era uma moa de 
muita sorte.
       Gregson dissera que mandaria sua secretria cuidar dos detalhes. O apartamento, as roupas. Haviam rapidamente calculado o custo de 18 meses de cirurgia e 
as despesas adicionais de cuidados psiquitricos, enfermeiras permanentes por algum tempo e at mesmo medidas de apoio de carter geral. Terminaram por fixar-se 
em 400 mil dlares como uma cifra razovel. Marion telefonaria para seu banco s nove horas e mandaria transferir a quantia para a conta de Gregson em So Francisco. 
O dinheiro j estaria l quando o banco dele abrisse, s nove horas. No que Gregson estivesse preocupado com isso. Sabia quem era Hillyard. Quem no sabia?
       - Por que no entra agora e come alguma coisa, Marion? 
       Wickfield estava perdendo a esperana de ter qualquer influncia sobre ela e Calloway dissera que no poderia deixar Nova York antes daquela manh. Wickfield 
no sabia que Marion dissera a Calloway que no viesse. Ela queria estar sozinha para poder acertar devidamente os termos do "negcio". E tudo sara  perfeio.
       - Marion?
       - O que ?
       - Vai tomar o caf?
       - Mais tarde, Wicky. Quero antes ver como Michael est.
       - Vou subir para dar uma olhada nele agora.
       Marion parou por um momento no banheiro, enquanto Wickfield seguia em frente para ver Michael. Mas ele no esperava qualquer mudana imediata. Afinal, o examinara 
apenas uma hora antes.
       Mas havia um estranho silncio quando Marion entrou no quarto cinco minutos depois. Wicky estava afastado da cama, com expresso solene, a enfermeira no 
estava mais no quarto.
       O sol da Nova Inglaterra incidia sobre a cama e de algum lugar vinha o barulho de gua pingando numa pia. Tudo estava quieto demais. Subitamente, Marion sentiu 
que o corao lhe subia  boca. Era como na ocasio em que Frederick... oh, Deus!... a mo de Marion subiu involuntariamente para o corao e ela ficou paralisada 
na porta, olhando de Wicky para a cama. E depois ela o viu e seus olhos se encheram de lgrimas. Estava sorrindo para ela... o seu menino. No era absolutamente 
como Frederick. Um soluo ficou preso em sua garganta e ela se encaminhou para a cama, as pernas trmulas. Inclinou-se e tocou o rosto dele com as mos.
       - Oi, mame.
       Eram as palavras mais lindas que ela j tinha ouvido e as lgrimas escorreram por suas faces enquanto sorria.
       - Eu o amo, Michael.
       - Tambm a amo.
       At mesmo Wickfield tinha lgrimas nos olhos enquanto os observava. O rapaz, to jovem e bonito e vivo novamente, a mulher que tanto dera de si nos ltimos 
dois dias. Ele saiu discretamente do quarto e nenhum dos dois ouviu-o retirar-se.
       Marion ficou abraando o filho gentilmente por longo tempo, depois passou a mo pelos cabelos dele.
       - No precisa mais se preocupar, mame. Est tudo bem. Puxa, como estou com fome!
       Marion riu. Michael parecia estar muito bem. Estava vivo novamente. E era todo dela.
       - Vamos oferecer-lhe o caf da manh maior e mais especial que j conheceu em toda a sua vida, se Wicky achar que no h problema.
       - Wicky que se dane. Estou morrendo de fome.
       - Michael!
       Mas Marion no podia zangar-se com ele. Podia apenas am-lo. Mas depois, enquanto ela o contemplava, viu o rosto de Michael tornar-se abruptamente sombrio, 
como se recordasse de repente por que estava ali. Antes disso, ele se comportara como se tivesse acabado de despertar depois que lhe haviam arrancado as amgdalas. 
Tudo o que queria era sorvete e a me. Mas agora havia muito mais coisas no rosto de Michael. Ele tentou sentar-se na cama. No sabia como dizer as palavras, mas 
tinha de perguntar de qualquer maneira. Examinou atentamente o rosto de Marion, que manteve os olhos fixados nos dele, segurando-lhe a mo firmemente.
       - Fique calmo, querido.
       - Mame... os outros... a noite passada... estou me lembrando do que aconteceu...
       - Ben j voltou para Boston com o pai. Ele ficou bastante machucado, mas vai se recuperar. O estado dele no era to grave quanto o seu.
       Marion pontuou tais palavras com um suspiro e apertou ainda mais a mo do filho. Ela j sabia o que viria em seguida. Mas estava preparada para a pergunta.
       - E... Nancy? - O rosto dele estava branco como marfim ao pronunciar o nome da moa. - E Nancy, mame?
       As lgrimas j apareciam nos olhos de Michael. Ele podia divisar a resposta no rosto da me, enquanto ela se sentava cuidadosamente na cadeira ao lado da 
cama e passava a mo gentilmente pelos contornos do rosto dele.
       - Ela no conseguiu se salvar, querido. Fizeram tudo o que era possvel. Mas as leses que ela sofreu haviam sido grandes demais. - Marion fez uma pausa por 
uns poucos segundos e depois acrescentou: - Ela morreu esta madrugada.
       - Voc a viu?
       Michael ainda estava imvel, observando atentamente o rosto da me,  procura de algo mais.
       - Passei algum tempo sentada com ela na noite passada.
       - Oh, Deus... e eu no estava l! Oh, Nancy...
       Michael virou a cabea contra o travesseiro e chorou como uma criana, enquanto Marion lhe segurava firmemente os ombros. Ele murmurou o nome dela vezes sem 
conta, interminavelmente, at que finalmente no podia mais continuar a chorar. Enquanto se virou a fim de olhar novamente para a me, ela viu algo no rosto de Michael 
que nunca antes conhecera. Era como se ele tivesse perdido alguma coisa de si mesmo durante aqueles momentos em que ficara murmurando o nome de Nancy. Como se uma 
parte dele tivesse se esvado e morrido.


Captulo 6

       Nancy ouviu o barulho do trem de aterrissagem sendo baixado. Pela centsima vez, desde que o vo comeara, sentiu o contacto da mesma mo que j lhe tocara 
o brao antes. Era estranhamente reconfortante sentir a mo da enfermeira e ficou satisfeita ao constatar que j podia reconhecer a diferena entre as duas. Uma 
das mulheres tinha mos finas e delicadas, com dedos compridos, as mos estavam sempre frias, mas havia um indcio de grande fora na maneira como seguravam Nancy. 
E faziam com que Nancy se sentisse corajosa novamente, pelo simples contato. A outra enfermeira tinha mos quentes, gorduchas, macias, que a faziam sentir-se segura 
e amada. Ela afagava constantemente o brao de Nancy. Fora ela quem aplicara em Nancy as duas injees contra a dor. Possua voz suave e tranqilizadora. A primeira 
mulher tinha um ligeiro sotaque. Nancy j estava gostando das duas.
       - Agora no vai demorar muito, minha cara. J podemos ver a baa. Mais alguns minutos e estaremos aterrissando.
       Mas o avio ainda levaria 20 minutos para pousar. Era o tempo que Paul Gregson estava contando, enquanto avanava rapidamente pela freeway em seu Porsche 
preto. A ambulncia iria encontrar-se com ele no aeroporto. Mais tarde, ainda naquela manh, poderia mandar uma das moas do escritrio buscar o seu carro. Gregson 
queria ir para a cidade junto com a moa. Estava intrigado. Ela devia ser "Algum" para que Marion Hillyard se interessasse tanto pelo seu caso. Afinal, 400 mil 
dlares era uma quantia e tanto. E apenas 300 mil seriam para ele. Os outros 100 mil dlares serviriam para manter a moa confortavelmente, pelo prximo ano e meio. 
O que de fato aconteceria. Fora o que ele prometera a Marion Hillyard. De qualquer forma, teria mesmo providenciado isso. Era parte do trabalho que fazia. Precisaria 
conhecer at a prpria alma da moa. Iriam tornar-se mais que amigos; ele passaria a representar tudo para a moa e vice-versa. Tinha de ser assim, porque ela seria 
a pessoa com que ia parecer no momento em que seu novo rosto nascesse. Peter Gregson ia dar  luz Nancy McAllister, depois uma gravidez de 18 longos meses. Ela teria 
de ser uma moa bastante corajosa. Mas certamente seria. Ele providenciaria para que assim fosse. Enfrentariam tudo juntos. A prpria idia excitou-o. Ele amava 
o que fazia e, de uma estranha maneira, j amava Nancy. Amava aquilo em que a transformaria. O que ela seria. Iria dar a Nancy tudo o que ele tinha para dar.
       Gregson olhou para o relgio e pisou mais ainda no acelerador. O carro era uma de suas vlvulas de escape prediletas. Ele tambm pilotava seu prprio avio, 
dedicava-se  caa submarina sempre que tinha tempo, esquiava, j havia escalado diversas montanhas da Europa. Era um homem que gostava de alcanar as culminncias, 
por todos os meios possveis. Gostava de desafiar o impossvel e vencer. Era por isso que amava seu trabalho. Muitas pessoas acusavam-no de bancar Deus. Mas no 
era realmente isso. Era a emoo dos percalos insuperveis que o estimulava. E at hoje ele nunca fora derrotado. Nem pelas mulheres, pelas montanhas ou pelo cu. 
Nem mesmo por uma paciente. Aos 47 anos, havia conquistado tudo em que tocara. E ia vencer novamente agora. Os cabelos pretos de Gregson agitavam-se ao vento e os 
olhos quase transbordavam de vida. Ainda tinha um bronzeado da semana que passara recentemente no Tahiti. Vestia cala esporte cinza e suter de casimira azul-clara, 
da cor de seus olhos. Estava sempre impecavelmente vestido, as roupas combinando perfeitamente. Era um homem de aparncia excepcionalmente atraente, mas tinha algo 
mais do que isso. Era a sua vitalidade, a sua exuberncia, que atraam a ateno das pessoas muito mais que a aparncia.
       Ele encostou o carro no meio-fio, diante do aeroporto, exatamente no momento em que o avio de Nancy tocava na pista. Exibiu um passe especial para um guarda, 
que assentiu e prometeu ficar de olho no carro. At mesmo o guarda sorriu para Gregson. Peter Gregson era um homem que ningum podia ignorar. Possua um encanto 
quase irresistvel e uma fora que transparecia em tudo o que fazia. E despertava nas pessoas a vontade de estarem perto dele.
       Avanou rapidamente pelo saguo do aeroporto e foi falar com um supervisor. O homem pegou um telefone e momentos depois Peter foi levado por uma porta, desceu 
um lance de escada e embarcou em um pequeno veculo do aeroporto. Foi levado pela pista at o local em que a ambulncia estava parada, com os atendentes esperando 
que a paciente fosse desembarcada do avio. Agradeceu ao motorista que o trouxera e depois seguiu apressadamente para a ambulncia. Verificou rapidamente o interior 
da ambulncia, a fim de conferir se suas ordens haviam sido cumpridas. E haviam, ao p da letra. L estava tudo o que ele precisava. Era difcil imaginar em que 
estado a moa poderia ter ficado depois do vo. Mas ele a queria em So Francisco imediatamente, a fim de poder supervisionar tudo de perto. Tinha muito planejamento 
a fazer e o trabalho iria comear dentro de poucos dias.
       Os outros passageiros foram retidos por mais alguns minutos enquanto Nancy era retirada do avio. As aeromoas recuaram, com expresses sombrias, desviando 
o olhar dos vidros e tubos de transfuso que pendiam sobre a moa envolta em ataduras, mas as enfermeiras pareciam estar conversando com a paciente, enquanto a acompanhavam 
para fora do avio. Peter Gregson gostou da aparncia das enfermeiras. Eram jovens, mas competentes, pareciam trabalhar bem como uma equipe. Era justamente o que 
ele desejava. Todos iriam fazer parte de uma equipe pelo prximo ano e meio e cada pessoa tinha a sua importncia. No havia lugar para relutncia ou incompetncia. 
Todos tinham que ser o melhor de que eram capazes, inclusive Nancy. Mas disso ele cuidaria. Nancy ia ser a estrela do espetculo. Ele ficou observando enquanto a 
levavam para longe do lugar em que estava e esperou at que a maca fosse ajeitada suavemente no interior da ambulncia. Sorriu para as enfermeiras, mas no disse 
nada. Ergueu a mo, gesticulando para que esperassem um pouco, enquanto entrava na ambulncia e sentava-se em um banco ao lado de Nancy.
       Pegou a mo dela e suspendeu-a ligeiramente.
       - Ol, Nancy. Sou Peter. Como foi a viagem?
       Como se ela fosse algo concreto. Como se ainda fosse algum e no apenas uma massa informe. Nancy sentiu um alvio imenso invadi-la ao ouvir a voz de Peter 
Gregson.
       - Foi tudo bem.  o Dr. Gregson?
       Ela parecia cansada, mas interessada.
       - Exatamente. Mas acho que Peter soa um pouco menos formal entre duas pessoas que vo trabalhar juntas.
       Nancy gostou da maneira como ele falou; se pudesse, teria sorrido.
       - Veio ao aeroporto para me receber?
       - No teria feito a mesma coisa?
       - Teria. - Nancy queria sacudir a cabea em assentimento, mas no podia. - Obrigada.
       - Estou contente por ter vindo esper-la. J esteve em So  Francisco alguma vez antes, Nancy?
       - No.
       - Pois vai adorar a cidade. E vamos arrumar-lhe um apartamento de que vai gostar tanto que nunca mais vai querer ir embora. Talvez j saiba que a maioria 
das pessoas nunca deixa So Francisco. A partir do momento em que chegam aqui, as pessoas querem ficar para sempre. Eu prprio vim de Chicago h cerca de 15 anos 
e nada neste mundo me faria voltar.
       Nancy riu pela maneira como ele falou. Peter sorriu e indagou:
       - Voc  de Boston?
       Ele a estava tratando como se tivessem sido apresentados por amigos comuns. Mas queria que ela relaxasse depois do longo vo. E uns poucos minutos sem movimento 
iriam fazer-lhe bem. As enfermeiras tambm estavam contentes pela oportunidade de esticarem as pernas por algum tempo, enquanto conversavam com os dois atendentes 
da ambulncia a fim de verificarem se o Dr. Gregson ainda estava conversando com Nancy. J tinham simpatizado com ele. O Dr. Gregson irradiava simpatia.
       - No. Eu era de New Hampshire. Ou pelo menos foi l que cresci. Num orfanato. Mudei-me para Boston quando estava com 18 anos.
       - Parece muito romntico. Ou ser que o orfanato era uma instituio sada diretamente de Dickens ?
       Ele imprimiu  indagao um toque leve, uma conotao feliz. Nancy no pde deixar de rir da pergunta referente a Dickens.
       - Absolutamente. As freiras eram maravilhosas. E de tal forma que por muito tempo pensei em me tomar freira.
       - Essa no! Quero que saiba de uma coisa... - Nancy riu novamente, por causa do tom com que ele falava. - Quando terminarmos com o nosso projeto, minha jovem, 
estar prontinha para Hollywood. Se for esconder-se em algum convento, eu... eu... eu... ora, vou me atirar da ponte!  melhor prometer logo de uma vez que no vai 
sair daqui para virar freira em algum lugar.
       Era uma promessa fcil de fazer. Ela tinha de ficar preparada para Michael. Os sonhos de se tornar a Irm Agnes Marie haviam se dissipado h anos, mas ela 
queria provocar Gregson mais um pouco. J estava gostando dele. 
       - Est bem, est bem...
       Nancy falou relutantemente, mas havia um indcio de riso em sua voz.
       - Isso  uma promessa? Vamos, quero que diga uma coisa: eu prometo. 
       - Eu prometo.
       - O que est prometendo?
       Ambos estavam agora rindo.
       - Prometo no ser uma freira.
       - Assim est melhor.
       Ele fez sinal para que as duas enfermeiras embarcassem na ambulncia. Os atendentes seguiram para a frente do veculo. Nancy estava agora pronta para ir e 
ele no queria cans-la com conversa demasiada. 
       - Porque no me apresenta a suas amigas, Nancy? 
       - Deixe-me ver... as mos frias so de Lily e as quentes de Gretchen.
       Os quatro riram.
       - Muito obrigada, Nancy.
       Lily riu afavelmente, enquanto Nancy sorria para si mesma. Sentia-se segura com seus novos amigos e tudo o que podia pensar naquele momento era como pareceria 
para Michael, depois que tudo estivesse terminado. J estava gostando de Peter Gregson e subitamente compreendeu que ele iria faz-la algum muito especial, porque 
se importava com a sorte dela.
       - Seja bem-vinda a So Francisco, mocinha.
       As mos frias de Lily foram substitudas pelas mos fortes e gentis de Peter Gregson. Ele manteve a mo pousada de leve sobre o ombro de Nancy durante toda 
a viagem at a cidade. Estranhamente, ele fazia com que Nancy sentisse que havia chegado em casa.


Captulo 7

       As portas da ambulncia abriram-se e levaram a maca para o hotel. O gerente estava esperando para receb-los, tendo reservado uma sute de cobertura para 
atend-los. Estavam planejando ficar apenas um ou dois dias, mas o hotel proporcionaria um intervalo necessrio entre o hospital e a casa. Marion tinha algumas reunies 
de negcios em Boston e, alm disso, por alguma razo inexplicvel, Michael insistira em passar alguns dias num hotel, antes de voltar para casa. E a me estava 
disposta a atender a todos os caprichos dele.
       Os atendentes da ambulncia puseram-no cuidadosamente na cama. Michael fez uma careta.
       - Pelo amor de Deus, mame, no h nada de errado comigo! Disseram que j estou bem!
       - Mas no h necessidade de exagerar.
       - Exagerar?
       Michael correu os olhos pela sute e resmungou, enquanto Marion dava uma gorjeta aos atendentes da ambulncia, que prontamente desapareceram. O quarto estava 
repleto de flores e havia uma imensa cesta de frutas numa mesinha perto da cama. A me era a proprietria do hotel. Comprara-o anos antes, como um investimento.
       - Procure relaxar agora, querido. No fique excitado demais. Vai querer alguma coisa para comer? 
       Marion quisera manter a enfermeira, mas at mesmo o mdico dissera que era desnecessrio e que s serviria para agravar ainda mais o estado nervoso de Michael. 
Tudo o que ele precisava agora era descansar por outras duas semanas e depois podia comear a trabalhar. Mas ele tinha de fazer uma coisa antes.
       - No gostaria de almoar agora, querido? - indagou Marion.
       - Quero, sim. Escargots. Ostras Rockefeller. Champanha. Ovos de tartaruga e caviar.
       Michael sentou-se na cama, como uma criana travessa.
       - Mas que combinao horrvel, meu amor! - Mas Marion no estava realmente escutando. Deu uma olhada no relgio, antes de acrescentar - Mas pode pedir o que 
quiser. George deve estar chegando. Nosso encontro no centro   uma hora.
       Ela saiu do quarto, meio distrada, para procurar sua mala. Michael ouviu a campainha tocar na porta da frente da suite. Um momento depois, George Calloway 
entrou no quarto dele.
       - E ento, Michael, como est se sentindo?
       - Depois de duas semanas no hospital sem fazer absolutamente nada, estou me sentindo principalmente constrangido.
       Ele tentava no dar muita importncia  situao, mas ainda havia uma expresso desolada em seus olhos. Marion havia percebido tal expresso, mas atribura 
 fadiga. Afastara dos pensamentos a possibilidade de qualquer explicao alternativa. E ela e Michael jamais discutiam o assunto. Conversavam sobre os negcios, 
sobre o projeto para o centro mdico em So Francisco. Jamais sobre o acidente.
       - Estive em sua sala esta manh, Michael. Ficou realmente muito boa.
       George sorriu, sentando-se ao p da cama.
       - No tenho a menor dvida quanto a isso.
       Michael observou a me entrar no quarto. Ela usava um costume Chanel cinza-claro, com blusa de seda azul, brincos de prolas e trs fieiras de prolas no 
pescoo.
       - Mame tem muito bom gosto.
       - Tambm acho. 
       George sorriu afetuosamente para Marion, mas ela acenou nervosamente indicando que estava na hora de irem embora.
       - Pare de jogar confete. J estamos atrasados. Trouxe os documentos de que precisamos, George? 
       - Claro.
       - Ento vamos embora. Ela se aproximou rapidamente da cama de Michael e inclinou-se para beijar-lhe o alto da cabea. - Descanse, querido. E no se esquea 
de pedir o almoo.
       - Sim, madame. E boa sorte na reunio.
        Marion levantou a cabea e sorriu de pura expectativa.
       - A sorte nada tem a ver com os resultados.
       Os dois homens riram e Michael ficou observando-os se retirarem.
       Depois, sentou-se na cama. Ficou sentado em silncio, pacientemente esperando e pensando. Sabia exatamente o que ia fazer. H duas semanas que vinha planejando. 
Vivera para aquele momento. Era a nica coisa em que podia pensar. Fora por isso que sugerira ficarem um pouco no hotel, chegara mesmo a insistir, recomendara  
me que comparecesse pessoalmente s reunies para tratar do projeto da nova biblioteca pblica de Boston. Michael precisava daquela tarde s para si. No queria 
estragar coisa alguma com a possibilidade de irem atrs dele. Queria ter certeza de que ningum iria impedi-lo. Por isso, ficou sentado exatamente onde estava por 
meia hora. E depois teve certeza de que eles tinham ido mesmo.
       Ensaiara tudo mentalmente uma centena de vezes. Foi rapidamente  sua mala no estrado ao p da cama e tirou o que precisava. Cala cinza, camisa azul, sapatos 
de lona, meias, cueca. Parecia que se haviam passado mil nos desde que se vestira assim pela ltima vez. Ficou surpreso ao constatar como estava trmulo ao vestir-se. 
Teve de sentar-se trs ou quatro vezes, a fim de recuperar o flego. Era ridculo sentir-se to fraco assim e ele no estava disposto a se entregar. No iria esperar 
mais um dia. Ia at l agora, de qualquer maneira. Levou quase. meia hora para vestir-se e pentear os cabelos. Depois, telefonou para a portaria e pediu um txi. 
Estava extremamente plido ao descer do elevador, mas o excitamento pelo plano que estava executando fazia com que se sentisse melhor. A simples perspectiva proporcionava-lhe 
nimo novamente, como nenhuma outra coisa o fizera em duas semanas. O txi estava a sua espera, encostado no meio-fio.
       Michael deu o endereo ao motorista e recostou-se, com um sentimento de imensa exultao. Era como se tivessem marcado um encontro, como se ela estivesse 
a sua espera, como se ela soubesse. Michael foi sorrindo para si mesmo durante toda a viagem e deu ao motorista uma gorjeta generosa. No lhe pediu que esperasse. 
No queria que ningum ficasse esperando por ele. Ficaria ali sozinho, por tanto tempo quanto quisesse. Chegara mesmo a pensar na possibilidade de continuar a pagar 
o aluguel do apartamento, a fim de que pudesse ir para l sempre que desejasse. Era apenas uma hora de vo de Nova York e dessa maneira ficaria sempre com o apartamento 
deles. O apartamento deles... Ele contemplou o prdio com um calor familiar. Quase contra a vontade, ouviu-se a si mesmo pronunciar as palavras que estava pensando:
       - Oi, Nancy Calalinda, cheguei!
       Dissera aquelas palavras mil vezes antes, ao passar pela porta e encontr-la sentada diante do cavalete, mos e braos borrados de tinta, ocasionalmente o 
rosto tambm. Se estava profundamente envolvida no trabalho, havia ocasies em que Nancy no o ouvia chegar.
       Ele subiu lentamente a escada, cansado, mas animado pela sensao de estar chegando em casa. Queria simplesmente subir e sentar-se no apartamento, perto dela, 
com ela... com as coisas dela... Todos os mesmos cheiros familiares impregnavam o prdio, havia o barulho de gua correndo, de uma criana, um gato miando no corredor 
l embaixo, uma buzina tocando insistentemente na rua. Michael podia ouvir uma cano italiana no rdio. Por um estranho momento, imaginou que o rdio estava no 
estdio dela. Tinha a chave na mo quando finalmente chegou ao patamar do andar em que ficava o apartamento. Parou ali, por um longo tempo. Pela primeira vez, em 
todo aquele dia, sentiu lgrimas a lhe arderem nos olhos. Ainda no sabia a verdade. Ela no estaria l dentro. Fora-se para sempre. Estava morta.
       Michael ainda tentava pronunciar a palavra em voz alta de tempos a tempos, apenas para se obrigar a diz-la, para se forar a saber. No queria ser uma dessas 
pessoas doidas que se recusam a enfrentar a verdade, que se entregavam a jogos de fingimento.
       Ela teria desdenhado tal atitude. Mas de vez em quando ele deixava que o conhecimento se dissipasse, s para t-lo de volta como um golpe forte, um impacto 
violento. Como acontecia naquele momento. Ele girou a chave na fechadura e esperou, como se algum, no final das contas, pudesse vir abrir a porta. Mas no havia 
ningum ali. Michael abriu a porta lentamente e deixou escapar uma exclamao de espanto.
       - Oh, Deus! Onde est... onde...
       Tudo desaparecera. Cada mesa, cadeira, as plantas, os quadros, o cavalete, as tintas. As roupas dela, as...
       - Nancy!
       Michael ouviu-se chorando furiosamente, as lgrimas lhe queimando o rosto, enquanto abria as portas. Nada. At mesmo a geladeira sumira. Ele continuou parado 
ali completamente atordoado por um momento, depois desceu correndo a escada, de dois em dois degraus, at chegar ao apartamento do zelador, no poro.
       Bateu insistentemente na porta, at que o homenzinho abriu-a, apenas pela largura da corrente de segurana, olhando com expresso de medo nos olhos. Reconheceu 
Michael imediatamente, abriu toda a porta e comeou a sorrir, at que Michael agarrou-o pela gola e ps-se a sacudi-lo.
       - Onde esto as coisas dela, Kowalski? Onde est tudo? O que fez com elas? Foi voc quem as tirou? Quem foi ento? Onde esto as coisas dela?
       - Que coisas? Quem.. oh, Deus... no, no, eu no peguei coisa alguma! Eles apareceram h duas semanas. E me disseram...
       Ele estava tremendo de terror. Michael tambm tremia, s que de raiva.
       - Quem eram eles?
       - No sei. Algum telefonou e disse que o apartamento seria desocupado. Que a Srta. McAllister estava... tinha... - Ele percebeu as lgrimas ainda brilhando 
no rosto de Michael e ficou com medo de continuar. - J sabe o que aconteceu. Eles me informaram e acrescentaram que o apartamento seria desocupado at o final da 
semana. Duas enfermeiras apareceram aqui e pegaram algumas coisas e o caminho da Goodwill chegou na manh seguinte.
       - Enfermeiras? Que enfermeiras?
       Michael no estava entendendo nada. E a Goodwill? Quem a chamara?
       - No sei quem elas eram. Mas pareciam enfermeiras... estavam todas de branco. No levaram muita coisa. Apenas aquela sacola pequena e os quadros. A Goodwill 
levou o resto. No peguei nada. Juro que no peguei. Jamais faria uma coisa dessas. No para uma moa to simptica como...
       Mas Michael no estava escutando. J estava subindo a escada para a rua, completamente atordoado, enquanto o velho zelador observava-o, sacudindo a cabea. 
Pobre coitado. Provavelmente acabara de receber a notcia.
       - Ei... ei! - Michael virou-se e o velho baixou a voz para acrescentar: - Sinto muito.
       Michael limitou-se a assentir e saiu para a rua. Como as enfermeiras sabiam? Como podiam ter feito tal coisa? Provavelmente haviam levado as poucas jias 
que Nancy possua, quase tudo fantasia, e os quadros. Talvez algum lhes tivesse contado alguma coisa no hospital. Eram como abutres, recolhendo o que ficara.
       Oh, Deus, Se ele as tivesse visto, iria... Michael cerrou as mos nos lados do corpo, depois levantou bruscamente o brao a fim de fazer sinal para um txi. 
Pelo menos... talvez... valia a pena tentar. Ele entrou na txi, ignorando a dor intensa que comeava a sentir, a nuca latejando terrivelmente.
       - Onde fica a Goodwill mais prxima?
       - Goodwill o qu?
       O motorista tinha na boca um charuto todo babado e no estava particularmente interessado em qualquer espcie de Goodwill.
       - As lojas Goodwill. A que compra roupas usadas, mveis velhos, coisas assim.
       - Ah, sim... Est certo.
       O garoto no parecia um fregus habitual da Goodwill, mas uma corrida era uma corrida. Era uma viagem de cinco minutos do apartamento de Nancy  loja. O vento 
batendo no rosto de Michael ajudou-o a se recuperar do choque que experimentara ao encontrar o apartamento totalmente vazio. Havia sido como verificar o pulso e 
descobrir de repente que o corao tinha parado de bater.
       -  aqui.
       - Michael agradeceu, distraidamente, pagou o dobro do preo da corrida e saltou. Nem mesmo tinha certeza se queria entrar na loja. Queria ver as coisas no 
apartamento de Nancy, que era o lugar a que pertenciam. No em alguma loja velha, cheia de mofo, malcheirosa, com etiquetas de preo. E o que iria fazer? Comprar 
tudo? E depois o qu? Ele entrou na loja sentindo-se solitrio, cansado e confuso. Ningum se ofereceu para ajud-lo. Michael ps-se a vaguear pela loja, sem encontrar 
nada que conhecia, sem ver nada familiar, sentindo-se subitamente angustiado, no pelas "coisas" que lhe haviam parecido to importantes naquela manh, mas pela 
jovem que as possura. Ela se fora e nada do que encontrasse ou deixasse de encontrar jamais faria qualquer diferena. As lgrimas comearam a escorrer por suas 
faces, enquanto voltava lentamente para a rua. 
       Desta vez ele no fez sinal para um txi. Simplesmente saiu andando. s cegas, sozinho, numa direo que os ps pareciam conhecer, mas a cabea desconhecia. 
A cabea j no conhecia mais nada. Dava a impresso de haver se transformado numa massa informe. Todo o corpo parecia uma papa, mas o corao era como pedra. Subitamente, 
naquela loja velha e ftida, sua vida chegara ao fim. Compreendia agora o que tudo aquilo significava. E enquanto estava parado num sinal vermelho, esperando que 
mudasse, sem dar qualquer importncia a que isso acontecesse ou no, acabou desmaiando.
       Acordou um momento depois, com uma multido ao seu redor, deitado num pequeno gramado, para onde algum o levara. Um guarda estava parado por cima dele, fitando-o 
nos olhos.
       - Est bem, filho?
       O guarda tinha certeza de que o rapaz no estava bbado nem sob a ao de txicos, mas estava terrivelmente plido. Era mais provvel que estivesse doente. 
Ou talvez apenas com fome. Ou qualquer coisa no gnero. Mas o rapaz dava a impresso de que tinha dinheiro. Portanto, no podia ser um simples caso de inanio.
       - Estou, sim. Sa do hospital esta manh e acho que exagerei querendo andar demais.
       Michael sorriu tristemente. Os rostos ao seu redor comearam a girar quando tentou se levantar. O guarda percebeu o que estava acontecendo e insistiu para 
que a multido se dispersasse. Depois, virou-se novamente para Michael e disse:
       - Vou chamar um carro para lev-lo em casa.
       - No precisa. Estou bem agora.
       - No h nenhum problema. Mas diga uma coisa: no prefere voltar para o hospital?
       - No!
       - Est certo. Neste caso, vamos lev-lo para casa. - O guarda falou por um pequeno ualkie-talkie e depois agachou-se ao lado de Michael. - O carro j vai 
chegar. Est doente h muito tempo?
       Michael sacudiu a cabea, depois olhou para as mos e murmurou:
       - H duas semanas.
       Ainda havia uma pequena cicatriz perto de sua tmpora, to pequena que no dava para o guarda perceber 
       -  melhor se cuidar, rapaz.
       O carro da polcia encostou no meio-fio e o guarda ajudou Michael a levantar-se. Ele j estava melhor agora. Ainda bastante plido, mas bem mais firme que 
a princpio. Michael virou a cabea para olhar o guarda e tentou sorrir, balbuciando:
       - Obrigado.
       Mas a tentativa de sorriso s serviu para deixar o guarda imaginando o que estaria errado. Havia um desespero visvel nos olhos do rapaz. 
       Michael deu aos homens do carro da polcia um endereo a um quarteiro do hotel e agradeceu-lhes quando saltou. Percorreu a p o quarteiro final. A sute 
ainda estava vazia quando ele chegou l. Por um momento, Michael pensou em tirar as roupas e voltar para a cama. Mas de nada serviria continuar empenhado naquele 
jogo. J fizera o que tinha querido fazer. No o levara a parte alguma, mas pelo menos realizara o que havia imaginado. O que fora procurar havia sido Nancy. J 
devia saber que no a encontraria no apartamento. Nem em qualquer outro lugar. S poderia encontr-la no nico lugar em que ela ainda vivia: no seu corao.
       A porta da sute abriu-se enquanto ele estava olhando pela janela. Por um momento, ele no se virou. No queria realmente v-los nem ouvir notcias sobre 
a reunio ou ter de fingir que estava se sentindo bem. No estava bem. E talvez nunca mais voltasse a ficar.
       - O que est fazendo de p, Michael?
       A me falava como se ele fosse fazer sete anos dentro de mais alguns dias, ao invs de 25 anos. Michael virou-se lentamente e no disse nada a princpio. 
Depois, com um ar de exausto completa, sorriu para George.
       - J est na hora de eu comear a me levantar, mame. No posso passar o resto da vida na cama. Na verdade, vou partir para Nova York esta noite.
       - Vai o qu?
       - Vou para Nova York.
       - Mas por qu? No queria ficar aqui?
       Marion estava totalmente confusa.
       - J teve o seu encontro, mame. - E eu tive o meu. No temos motivo para continuarmos por aqui. E eu quero estar no escritrio amanh. Certo, George?
       George fitou-o nervosamente, assustado pela angstia e desespero que via nos olhos do rapaz. Talvez lhe fizesse bem ter alguma coisa com que se ocupar.  
verdade que Michael ainda no parecia bastante forte, mas fora-lhe muito difcil passar todo aquele tempo deitado. Tinha assim muito tempo para pensar.
       -  bem possvel que seja melhor assim, Michael. E sempre pode trabalhar apenas meio expediente, no incio.
       - Acho que os dois esto doidos - interveio Marion - Afinal ele saiu do hospital esta manh.
        - E voc, evidentemente,  famosa por sempre tomar cuidado consigo mesma. Certo, mame?
       Michael inclinou a cabea na direo dela. Marion afundou lentamente no sof.
       - Est bem, est bem... - murmurou ela, com um sorriso hesitante.
        - Como foi a reunio?
       Michael sentou-se ao lado dela e procurou dar a impresso de que o assunto o interessava. Teria de comportar-se assim muitas vezes, porque naquela tarde tomara 
uma deciso. Dali por diante ia viver para uma coisa e somente por uma coisa. Seu trabalho. Nada mais lhe restava na vida.


Captulo 8

       - Est pronta? 
       - Creio que sim.
       Ela no podia sentir coisa alguma acima dos ombros. Era como se a cabea tivesse sido cortada. As luzes intensas da sala de operaes despertaram em Nancy 
a vontade de cerrar os olhos, mas nem isso ela podia fazer. Tudo o que podia ver era o rosto de Peter, enquanto se inclinava sobre ela, a barba impecavelmente aparada 
coberta por uma mscara cirrgica azul, os olhos deslocando-se rapidamente de um lado para outro. Ele passara quase trs semanas estudando as radiografias, medindo, 
avaliando, projetando, planejando, preparando tudo e conversando com Nancy.
       A nica fotografia de Nancy de que ele dispunha era a que fora tirada na feira, no dia do acidente. Mas o rosto estava parcialmente obscurecido pelo tapume 
de madeira, com os trajes tolos pintados, no qual ficavam os buracos pelos quais ela e Michael haviam metido a cabea, a fim de tirarem a foto. Pelo menos proporcionava 
uma idia geral a Peter, um ponto de partida. Mas ele teria de ir muito alm. Nancy seria uma moa diferente quando tudo terminasse, uma pessoa que qualquer mulher 
sonharia ser. Peter sorriu novamente para ela, observando que as plpebras comeavam a baixar.
       - Vai ter de permanecer acordada agora e ficar falando comigo. Pode ficar sonolenta, mas no pode dormir.
       Afora isso, Nancy podia sufocar em seu prprio sangue. Mas ela no precisava saber disso. Peter tratou de mant-la distrada, contando histrias e anedotas, 
fazendo perguntas, obrigando-a a pensar em coisas, a vasculhar a mente em busca de respostas, a recordar os nomes de todas as freiras que conhecera quando era menina.
       - E tem certeza de que continua no querendo ser a irm Agnes Marie?
       - Claro que tenho. No prometi?
       Os dois ficaram gracejando um com o outro durante as trs horas em que durou o trabalho, as mos de Peter no parando por um momento sequer. Para Nancy, era 
como assistir a um bal.
       - Pense s que mais duas semanas e j teremos providenciado um apartamento s para voc, talvez um apartamento com uma linda vista... Ei, sonolenta, o que 
acha da vista? No gostaria de contemplar a baa do quarto?
       - Claro que gostaria. Por que no?
       - Apenas "claro"? Quer saber de uma coisa, Nancy? Acho que est ficando entediada com a vista que tem do seu quarto aqui no hospital.
       - Isso no  verdade. Estou adorando tudo.
       - Neste caso, vamos sair juntos e descobrir algo ainda melhor. Combinado?
       - Combinado. - Mesmo com a voz sonolenta, Nancy parecia satisfeita - Ainda no posso dormir?
       - S mais um pouco, Princesa. Mais alguns minutos e a levaremos de volta para seu quarto. Poder ento dormir tanto quanto quiser.
       - timo.
       - J est cansada de me ouvir?
       Nancy soltou uma risada, pelo tom zombeteiro de quem estava magoado usado por Peter.
       - Pronto, amor... j est tudo terminado.
       Ele olhou para seu assistente e acenou com a cabea, recuando em seguida por um momento, enquanto uma enfermeira se adiantava e aplicava uma injeo na coxa 
de Nancy. Peter voltou a postar-se ao lado dela e sorriu para os olhos que j conhecia to bem. Nem mesmo via o resto. Ainda no. Mas via os olhos. E os conhecia 
intimamente. To bem quanto ela conhecia os seus prprios olhos.
       - Sabia que hoje  um dia especial?
       - Sabia.
       - Sabia mesmo? E como sabia?
       Porque era aniversrio de Michael, mas Nancy no queria dizer-lhe isso. Michael estava completando 25 anos naquele dia. Nancy perguntou-se o que ele estaria 
fazendo.
       - Simplesmente sabia.
       - Pois  um dia muito especial para mim porque assinala o princpio. Nossa primeira cirurgia juntos, nosso primeiro passo por uma estrada maravilhosa que 
levar a uma nova voc. O que acha disso?
       Peter sorriu para ela. Nancy fechou os olhos e adormeceu. A injeo tinha um efeito rpido.
       
       - Feliz aniversrio, chefe.
       - No me chame de chefe, seu palhao. Puxa, voc est parecendo nojento, Ben.
       - Muito obrigado.
       Ben ficou olhando para o amigo enquanto avanava pela sala de muletas e com a ajuda de uma secretria. Ela o sentou numa cadeira e depois retirou-se da sala 
luxuosa e revestida de lambris de Michael.
       - Ento  este o lugar que ajeitaram para voc, hem? O meu vai ser igual?
       - Se no for, pode ficar com este. Eu o detesto.
       - Isso  timo. Quais so as novidades?
       A conversa entre os dois ainda era tensa. Haviam se encontrado duas vezes desde que Ben chegara de Boston, mas o esforo de evitar qualquer referncia a Nancy 
era quase demasiado para ambos. Era tudo em que pensavam.
       - O mdico disse que posso comear a trabalhar na prxima semana.
       Michael riu e sacudiu a cabea.
       - Est parecendo completamente doido, Ben
       - E voc no est?
       Uma nuvem toldou os olhos de Michael por um momento.
       - No quebrei nada. - Ou pelo menos nada que se pudesse ver. - J lhe disse que pode esperar mais um ms. Ou dois, se for necessrio. Por que no vai para 
a Europa com sua irm?  
       - Para fazer o qu? Ficar sentado numa cadeira de rodas sonhando com biqunis? Quero comear a trabalhar logo. Posso comear daqui a duas semanas?
        - Vamos ver.
       Houve um silncio prolongado e depois, abruptamente, Michael fitou o amigo com uma expresso de amargura que Ben nunca vira antes.
       - E depois o qu?
       - O que est querendo dizer com esse "depois o qu?", Michael?
       - Exatamente isso. Trabalhamos at no poder mais pelos prximos 50 anos, trepamos com quantas mulheres pudermos, ganhamos tanto dinheiro quanto conseguirmos... 
e depois o qu? O que fazemos com tudo isso?
       - Est com um nimo maravilhoso. O que aconteceu? Prendeu o dedo na gaveta esta manh?
       - Pelo amor de Deus, Ben, por que no pode ser srio uma vez, para variar? Estou falando srio. J pensou nisso alguma vez? Que diabo significa tudo isso 
?
       Ben estava entendendo perfeitamente e no havia agora como evitar as perguntas.
       - No sei, Michael. O acidente tambm me fez pensar nisso. Levou-me a perguntar a mim mesmo o que  importante em minha vida, em que acredito.
       - E qual foi a resposta que encontrou? .
       - No tenho certeza. Acho que me sinto simplesmente grato por estar aqui. Talvez tenha me ensinado como a vida  importante, como  bom viv-la, enquanto 
podemos. - Havia lgrimas nos olhos de Ben enquanto ele falava. - Ainda no entendo por que aconteceu daquela maneira. Eu gostaria... gostaria... - E foi com um 
fio de voz, quase inaudvel, que ele arrematou: - Gostaria que tivesse sido eu...
       Michael fechou os olhos para conter suas prprias lgrimas e depois contornou lentamente a mesa, aproximando-se do amigo. Ficaram se olhando em silncio por 
um momento, as lgrimas escorrendo pelos rostos de ambos, sentindo a amizade de dez anos reconfort-los como nenhuma outra coisa conseguiria.
       - Obrigado, Ben. 
       - Ei, escute! - Ben enxugou as lgrimas do rosto com a manga do casaco. No quer sair e tomar um porre? Afinal,  o seu aniversrio. Por que no?
       Michael riu por um minuto. Depois, como um garotinho chamado para uma conspirao, assentiu. 
       - J so quase cinco horas da tarde. No tenho mais reunies a que deveria comparecer. Vamos para o Oak Room e tomaremos um porre memorvel.
       Ele ajudou Ben a levantar-se e sair da sala. Pegaram um txi e meia hora depois estavam a caminho de um porre inesquecvel. Michael s chegou de volta ao 
apartamento da me depois de meia-noite. Precisou da ajuda do porteiro para conseguir subir. Na manh seguinte, ao entrar em seu quarto, a empregada encontrou-o 
adormecido no cho. Mas pelo menos ele conseguira sobreviver ao aniversrio.
       
       Michael mal conseguia ver alguma coisa quando se sentou  mesa para o caf da manh. A me j estava ali, de vestido preto, lendo The New York Times. Michael 
teve vontade de vomitar ao sentir o cheiro do caf.
       - Deve ter-se divertido muito ontem  noite.
       O tom de Marion era glacial.
       - Sa com Ben.
       - Foi o que sua secretria me disse. Espero que no transforme isso num hbito.
       Oh, Deus! Por que no?
       - O qu? Tomar um porre?
       - No. Deixar o escritrio mais cedo. E, para ser franca, a outra coisa tambm. Devia estar com uma aparncia encantadora quando chegou em casa.
       - No consigo lembrar.
       Michael estava tentando desesperadamente no engasgar com o caf.
       - H mais uma coisa de que no se lembra. - Marion largou o jornal em cima da mesa e fitou-o com expresso furiosa. - Tnhamos um compromisso para jantar 
ontem  noite, no Vinte-e-Um. Fiquei a esper-lo por duas horas. Com nove outras pessoas. Era o seu aniversrio... est lembrado?
       Oh, Deus! Isso teria sido tudo o que ele precisaria para explodir .
       - No me falou nada sobre as outras nove pessoas. Apenas convidou-me para jantar. Pensei que seramos apenas ns dois.
        claro que se tratava de um argumento dos mais discutveis.
       - E sendo apenas eu, no haveria problema em me deixar esperando sem avisar nada? E isso o que est querendo dizer?
       - No, mame. Simplesmente esqueci-me por completo. No foi exatamente o meu aniversrio predileto.
       - Sinto muito.
       Mas Marion no dava a impresso de se recordar por que aquele aniversrio era diferente. Ou pelo menos no se importava. E estava visivelmente irritada.
       - Isso nos leva a um outro problema, mame. Vou sair daqui, passar a morar em meu prprio apartamento.
       Marion ficou aturdida.
       - Por qu?
       - Porque estou com 25 anos. Trabalho para voc, mame.  Mas no sou obrigado a viver com voc.
       - No  obrigado a fazer coisa alguma.
       Marion estava comeando a ter dvidas quanto ao rapaz Avery e tipo de influncia que exercia sobre Michael. Aquilo parecia ser idia dele.
       - No vamos discutir isso agora, mame. Estou com uma dor de cabea monumental.
       - Ressaca. - Marion olhou para o relgio e levantou-se. - Eu o verei no escritrio, dentro de meia hora. No se esquea da reunio com o pessoal de Houston. 
Estar em condies de comparecer?
       - Estarei, mame. E mais uma coisa, lamento muito sobre o apartamento, mas acho que j  tempo.
       Ela o fitou firmemente por um momento e depois deixou escapar um pequeno suspiro.
       - Talvez seja, Michael, talvez seja... Feliz aniversrio, por falar nisso.
       Ela se abaixou para beij-lo. Michael chegou a sorrir, apesar da dor terrvel em sua cabea.
       - Deixei um pequeno presente em sua mesa.
       - No deveria.
       Nenhum presente tinha mais qualquer importncia. Ben compreendera isso e nada lhe dera.
       - Aniversrios so aniversrios no final das contas, Michael. Vejo-o mais tarde no escrit6rio.
        Depois que a me se retirou, Michael continuou sentado na sala de jantar por longo tempo, contemplando a vista. Sabia exatamente como era o apartamento que 
desejava. S que ficava em Boston. Mas faria tudo o que fosse humanamente possvel para encontrar um apartamento igual em Nova York. Em algumas coisas, ainda no 
renunciara totalmente ao sonho. Embora soubesse que era uma loucura apegar-se a ele.


Captulo 9

       - Oi, Sue. Sr. Hillyard est?
       Ben tinha a expresso das cinco horas da tarde ao chegar  porta da sala de Michael: no estava inteiramente desgrenhado, mas bastante aliviado pelo fato 
de estar quase terminando o dia. Mal tivera tempo de sentar-se durante o dia inteiro, muito menos de relaxar.
       - Est, sim. Devo avis-lo de que est aqui?
       Ela lhe sorriu. Ben contemplou o corpo cuidadosamente oculto da jovem. Marion Hillyard no aprovava secretrias sensuais, nem mesmo para o prprio filho... 
"ou seria especialmente para o filho?" perguntou-se Ben, enquanto sacudia a cabea.
       - No, obrigado. Eu mesmo me anunciarei.
       Ben passou pela secretria, carregando as pastas que eram seu pretexto. Bateu na porta de carvalho.
       - Algum em casa?
       No houve resposta e por isso ele bateu novamente. Continuou a no haver resposta. Ele se virou para a secretria, com um olhar inquisitivo.
       - Tem certeza de que ele est?
       - Absoluta.
       - Est certo.
       Ben tentou novamente e desta vez um resmungo rouco mandou-o entrar. Ele abriu a porta cautelosamente e olhou ao redor.
       - Estava dormindo ou algo assim?
       Michael levantou os olhos e sorriu para o amigo.
       - Bem que gostaria. Olhe s para essa mixrdia..
       Michael estava cercado por pastas, maquetes, plantas, relatrios. Era o suficiente para manter dez homens ocupados durante um ano inteiro.
       - Sente-se, Ben.
       - Obrigado, chefe.
       Ben no podia resistir a zombar do amigo.
       - Ora, no enche! O que h nessas pastas que est me trazendo?
       Michael passou a mo pelos cabelos e recostou-se na cadeira forrada de couro a que j se acostumara. Acostumara-se at mesmo s gravuras impessoais nas paredes. 
No tinha mais nenhuma importncia. Ele no ligava absolutamente. Nunca olhava para as paredes, para a sala, para a secretria... ou para a prpria vida. Olhava 
para o trabalho em sua mesa e bem pouco mais alm disso. J se haviam passado quatro meses.
       - Por favor, no me diga que est trazendo mais problemas com aquele maldito centro comercial em Kansas City. Isso est me levando  loucura.
       - E voc est adorando. Diga-me uma coisa, Michael: qual foi o ltimo filme a que assistiu? A Ponte do Rio Kwai ou Fantasia? Ser que nunca sai daqui?
       - Quando eu tiver uma oportunidade - respondeu Michael, examinando alguns papis enquanto falava. - E ento, o que h nessas pastas?
       - So apenas um estratagema. Queria entrar aqui para conversar com voc.
       - E no pode fazer isso sem uma desculpa?
       Michael sorriu-lhe novamente. Era como se fossem garotos novamente, visitando um ao outro no estudo sob o pretexto de consultas sobre deveres de casa.
       - Estou sempre me esquecendo de que sua me no  como o velho Sanders l na escola.
       - Graas a Deus.
       Na verdade, ambos sabiam que Marion era pior, mas nenhum dos dois podia admitir tal coisa. Ela detestava ver pessoas "zanzando" pelos corredores, como dizia, 
esse apressava em verificar quais eram as pastas que estavam levando.
       - Quais so as novidades, Ben? Como vo os Hamptons este vero?
       Ben sentou-se, ficando imvel por um momento, observando-o, antes de responder:
       - Realmente se importa?
       - Com voc ou com os Hamptons?
       O sorriso de Michael era artificial e ele apresentava a palidez lgubre de dezembro, no de setembro. Era evidente que ele no tinha ido a lugar nenhum naquele 
vero.
       - Eu me importo muito com voc, Ben.
       - Mas no com voc mesmo. Tem-se olhado no espelho ultimamente? Est com uma cara que assustaria a me de Frankenstein.
       - Obrigado.
       - No precisa agradecer. De qualquer forma,  justamente por isso que estou aqui.
       - Por conta da me de Frankenstein?
       - Por minha prpria conta. Queremos que voc passe este fim de semana no Cape. Eles querem, eu quero, todos ns queremos. E se disser no, vou pular por cima 
dessa mesa e arrast-lo  fora. Precisa sair daqui de vez em quando.
       Ben no estava mais sorrindo. Estava bastante srio e Michael sabia disso. Mesmo assim, sacudiu a cabea.
       - Eu adoraria, Ben, mas no posso. Tenho de cuidar de Kansas City. So 47 mil problemas que ainda no conseguimos resolver. E voc sabe disso. Esteve na reunio 
ontem.
       - Assim como 23 outras pessoas. Deixe que elas cuidem dos problemas. Pelo menos por um fim de semana. Ou ser que seu ego  to grande que no pode permitir 
que ningum mais toque em seu trabalho?
       Mas ambos sabiam que no era esse o caso. O trabalho tornara-se o txico de Michael. Deixava-o atordoado para tudo o mais. E ele vinha abusando do trabalho 
desde o dia em que entrara naquela sala.
       - Vamos, Michael, seja indulgente consigo mesmo. Apenas esta vez.
       - No posso, Ben.
       - Mas que diabo, cara! O que preciso dizer-lhe? Olhe para si mesmo! Ser que no se importa? Est se matando... e para qu?
       A voz dele ressoou pela sala e atingiu Michael com um impacto quase fsico. Ben observou o rosto do amigo ficar convulsionado pela emoo.
       - De que vai adiantar tudo isso, Michael? Mesmo que se mate, isso no a trar de volta. E voc est vivo. Com 25 anos de idade e vivo... e desperdiando sua 
vida, matando-se de tanto trabalhar, como a sua me.  isso o que voc quer? Ser como ela? Viver, comer, dormir, beber e morrer por essa maldita firma?  isso o 
que lhe serve agora? Ficou assim? Pois no acredito. Sei que existe outra pessoa nessa sua pele... e adoro essa outra pessoa. Mas voc a est tratando como a um 
co, algo que no posso permitir. Sabe o que deveria estar fazendo? Deveria estar saindo, vivendo. Deveria estar saindo e divertindo-se com a sua secretria gostosa 
ou dez outras mulheres que encontra nas melhores festas da cidade. Levante o rabo dessa cadeira, Michael, saia de casa, antes...
       Mas Michael interrompeu-o antes que ele pudesse terminar. Estava meio debruado sobre a mesa, tremendo, ainda mais plido do que antes.
       - Saia da minha sala, Ben, antes que eu o mate! Saia!
       Era o rugido de um leo ferido. Por um momento, os dois homens ficaram a se olhar, abalados e assustados pelo que estavam sentindo e dizendo.
       - Desculpe. - Michael voltou a afundar na cadeira e baixou a cabea para as mos. - Por que no deixamos as coisas como esto por hoje?
       Ele no voltou a olhar para Bem, que atravessou lentamente a sala, apertou-lhe o ombro e depois saiu fechando a porta. No restava mais nada a dizer.
       A secretria de Michael olhou para Ben inquisitivamente quando ele passou, mas no disse nada. Ela ouvira o rugido de Michael ao final. Todo o andar poderia 
ter ouvido, se as pessoas estivessem prestando ateno. Ben passou por Marion no corredor, ao voltar para sua sala. Mas ela estava ocupada com algo que Calloway 
lhe mostrava e Ben no estava com disposio para as amenidades habituais. No suportava mais Marion e o que ela estava deixando que Michael fizesse consigo mesmo. 
Podia servir aos objetivos dela fazer com que Michael trabalhasse daquele jeito; era bom para a firma, para o imprio, para a dinastia... e deixava Ben Avery enojado.
       Ele deixou o escritrio s seis e meia. Na rua, olhando para cima, verificou que as luzes na sala de Michael continuavam acesas. Sabia que ainda estariam 
acesas at 11 horas ou meia-noite. E por que no? Para que ele voltaria para casa? Para encontrar o apartamento vazio que alugara trs meses antes? Michael encontrara 
um apartamento pequeno e aconchegante em Central Park South. Ao visit-lo, Ben lembrara-se do apartamento de Nancy em Boston. Tinha certeza de que Michael tambm 
percebera a semelhana. Talvez tivesse sido por isso que ele ficara com o apartamento.
       Mas depois algo acontecera. A pouca vida que ainda restava em Michael se desvanecera. Ele comeara a trabalhar como um doido, uma verdadeira maratona de loucura. 
Por isso, jamais se dera ao trabalho de fazer qualquer coisa com o apartamento. Continuava do mesmo jeito, frio, vazio e solitrio. Os nicos mveis que Michael 
providenciara haviam sido duas cadeiras dobrveis, uma cama e um velho abajur horrendo, que ficava no cho. Todo o apartamento ressoava com os ecos do vazio. Parecia 
at que o inquilino fora despejado naquela manh.
       Ben ficava deprimido s de pensar em ir para uma casa assim e podia perfeitamente imaginar qual era o efeito em Michael... se  que ele ainda era capaz de 
notar o ambiente em que se encontrava, o que Ben estava comeando a duvidar. Dera trs plantas a Michael para o apartamento em princpio de julho e todas tinham 
morrido ao final do ms. Como o abajur horrvel, as plantas simplesmente tinham ficado no cho, desamadas e esquecidas.
       Ben no gostava do que estava acontecendo, mas no havia nada que alguma pessoa pudesse fazer. Ningum podia ajudar,  exceo de Nancy. E Nancy estava morta. 
Pensar nela ainda provocava em Ben uma dor quase fsica, como as pontadas que sentia no tornozelo e quadril quando ficava cansado. Mas as fraturas haviam-se reparado 
rapidamente com a ajuda da juventude. Ben ainda acalentava a esperana de que a mesma coisa pudesse acontecer com Michael. Mas o problema de Michael era diferente. 
As fraturas dele eram de partes que no se podia ver, no estavam  mostra. A no ser nos olhos. Ou no rosto ao final de um dia... ou na contrao da boca em um 
momento desprevenido, quando Michael estava sentado a sua mesa e ficava olhando para a distncia, para a extenso interminvel da vista.


Captulo 10

       - E ento, minha jovem? Acha que cumpri minha promessa? No tem a vista mais espetacular da cidade?
       Peter Gregson estava sentado no terrao junto com Nancy. Os dois trocaram um olhar afetuoso. O rosto dela ainda estava coberto por ataduras, mas os olhos 
estavam descobertos e brilhavam intensamente. E as mos estavam livres. Pareciam diferentes, mas eram maravilhosas enquanto ela fazia um gesto para abranger tudo 
ao redor. Do lugar em que estavam sentados, podiam avistar toda a baa, com a Ponte Golden Gate  esquerda, Alcatraz  direita, Marin County diretamente em frente; 
no outro lado do terrao, havia tambm uma vista espetacular da cidade, para o sul e leste. O terrao proporcionava a Nancy a contemplao tanto do nascer como do 
pr-do-sol e um prazer ilimitado.
       Ela passava quase o dia inteiro sentada ali. O tempo estava glorioso desde que chegara ao apartamento. Peter  que o encontrara, exatamente como prometera.
       - Quer saber de uma coisa? Estou ficando terrivelmente mimada.
       - E merece. O que me fez lembrar que trouxe uma coisa para voc. 
       Nancy bateu palmas, como uma garotinha. Peter sempre lhe trazia alguma coisa. Era uma pilha de revistas, livros, um chapu engraado, uma charpe para usar 
sobre as ataduras, braceletes maravilhosamente ruidosos para comemorar as mos novas. O fluxo de presentes era constante, mas o daquele dia era o maior de todos. 
Com misteriosa expresso de prazer, Peter atravessou o terrao e entrou no apartamento. A caixa que trouxe de volta era bastante grande e dava a impresso de ser 
muito pesada. Quando ele a ps em seu colo, Nancy descobriu que adivinhara corretamente.
       - O que  isso, Peter? Parece uma pedra.
       Nancy sorriu atravs das ataduras e Peter soltou uma risada.
        - E  mesmo... a maior esmeralda que consegui encontrar na loja da esquina.
       - Maravilhoso!
        Mas o presente era ainda mais maravilhoso do que Nancy desconfiava. O contedo da misteriosa caixa era uma mquina fotogrfica extremamente cara e altamente 
sofisticada.
       - Mas que presente espetacular, Peter! No posso...
       - Claro que pode. E espero ver algum trabalho srio feito com essa mquina.
       Ambos sabiam como Nancy andava atormentada porque no tinha mais vontade de pintar. E agora ela nem tinha mais o pretexto das mos envoltas por ataduras. 
Mas no podia pintar. Havia algo nela que a fazia desistir cada vez que pensava em tentar. Os quadros que as enfermeiras haviam trazido de seu apartamento de Boston 
ainda estavam encerrados no grande portflio preto, no fundo de um armrio. Nancy no queria v-los, muito menos trabalhar neles. Mas uma cmara podia ser diferente. 
Peter percebeu o brilho nos olhos dela e rezou para que lhe tivesse aberto uma nova porta. Ela estava precisando de novas portas. Nenhuma das antigas iria revelar 
o que ela desejava encontrar do outro lado. Seria melhor que ela comeasse tudo de novo.
       - H um folheto de instrues terrivelmente complicado, para o qual 10 anos de faculdade de medicina no conseguiram me preparar. Talvez voc consiga entend-lo.
       - Claro que conseguirei!
        Nancy olhou para o folheto grosso e concentrou-se por algum tempo, segurando a mquina, o amigo inteiramente esquecido. Depois, sacudiu o folheto distraidamente 
e disse:
       -  fantstico, Peter! Olhe esta coisa aqui... se puxar isso, vai conseguir...
       Ela se fora, totalmente fascinada. Peter recostou-se, com um sorriso satisfeito. Passou-se meia hora antes que Nancy voltasse a not-lo. Ela levantou os olhos 
subitamente e Peter percebeu pela expresso como estava grata.
       -  o presente mais maravilhoso que j recebi.
        Exceto pelas contas azuis de Michael na feira... mas Nancy rapidamente afastou o pensamento da mente. Peter estava acostumado s nuvens repentinas que toldavam 
os olhos dela, quando pensamentos antigos retornavam para atorment-la. Ele sabia que, com o tempo, tais pensamentos acabariam por deix-la.
       - Trouxe filme?
       - Claro. - Ele pegou uma caixa menor no meio do embrulho e largou-a no colo de Nancy. - Eu poderia esquecer do filme?
       - No. Nunca se esquece de coisa alguma.
       Nancy apressou-se em carregar a cmara e comeou a tirar fotografias dele, da vista e depois uma srie de um pssaro que passou voando pelo terrao.
       - Provavelmente vo sair horrveis, mas  um comeo.
       Peter ficou a observ-la por longo tempo. Depois, passou o brao pelos ombros dela e entraram no apartamento.
       - Tenho outro presente para voc hoje, Nancy.
       - Um Mercedes. Est vendo? J comeo a adivinhar as coisas.
       - No. Desta vez  srio. - Ele a fitou com um sorriso gentil e cauteloso. - Vou partilhar uma amiga com voc. Uma pessoa muito especial. 
       Por um momento insano, Nancy sentiu uma onda de cime correr por sua espinha. Mas algo no rosto de Peter disse-lhe que no precisava sentir-se assim.
        Ele percebeu que Nancy o observava atentamente, enquanto acrescentava:
       - O nome dela  Faye Allison e fomos colegas na faculdade de medicina. Ela  indubitavelmente uma das mais competentes psiquiatras da Califrnia, talvez do 
Pas.  grande amiga minha e uma pessoa muito especial. Tenho certeza de que vai gostar dela.
       - E...?
       Nancy ficou esperando, tensa mas curiosa.
       - E... acho que seria uma boa idia voc conversar com ela por algum tempo. Sabe disso - J conversamos a respeito antes.
       - No acha que estou me ajustando bem? 
       Nancy parecia magoada e largou a mquina para fit-lo mais seriamente.
       - Acho que est se saindo admiravelmente bem, Nancy. Mas mesmo que no houvesse qualquer outro motivo, precisa de uma pessoa para conversar. Tem Lily, Gretchen 
e a mim, mas isso  tudo. No gostaria de ter outra pessoa com quem conversar?
       Gostaria, sim. Michael. Ele tinha sido o melhor amigo dela  por muito tempo. Mas, no momento, Peter era suficiente.
       - No sei.
       - Acho que vai gostar, assim que conhecer Faye. Ela  incrivelmente simptica e gentil. E desde o incio que vem se interessando pelo seu caso.
       - Ela sabe a meu respeito?
       - Desde o comeo.
        Ela estava em companhia de Peter na noite em que Marion Hillyard e o Dr. Wickfield haviam telefonado, mas Nancy no precisava saber disso. Ele e Faye eram 
amantes, intermitentemente, h vrios anos, mais por uma questo de companheirismo e convenincia do que em decorrncia de uma grande paixo. Eram principalmente 
amigos.
       - Ela vir tomar caf conosco esta tarde. H algum problema para voc?
       Mas Nancy sabia que tinha pouca opo.
       - No.
       Ela ficou pensativa, enquanto se acomodava na sala de estar. No tinha certeza se lhe agradava aquele acrscimo ao cenrio, especialmente por se tratar de 
uma mulher. Experimentava um sentimento instantneo de competio e desconfiana.
       At que conheceu Faye Allison. Nada que Peter dissera a preparara para a simpatia que sentiu imediatamente pela outra mulher. Faye era alta, esguia, loura, 
angulosa, mas todas as linhas do rosto eram suaves. Os olhos eram afetuosos e alertas; naqueles olhos, havia sempre um gracejo  espera, uma resposta imediata, uma 
risada pronta para se manifestar. Ao mesmo tempo, podia-se perceber que estavam tambm sempre prontos para se mostrarem srios e compassivos. Peter deixou as duas 
sozinhas depois da primeira hora e Nancy ficou at contente por isso.
       Conversaram sobre mil coisas, em nenhum momento a respeito do acidente. Boston, pintura, So Francisco, crianas, pessoas, faculdade de medicina. Faye partilhou 
coisas de sua vida e Nancy revelou coisas de sua vida que nunca contara a ningum por muito tempo, pelo menos desde que conhecera Michael. Falou do orfanato, contando 
suas angstias, no os acontecimentos divertidos que contara para Peter. A solido, as indagaes sobre quem realmente era, por que fora deixada l, o que significava 
ser totalmente sozinha. E depois, sem qualquer motivo que pudesse compreender, contou a Faye sobre o acordo que fizera com Marion Hillyard. No houve choque, no 
houve censura, no houve outra coisa alm de simpatia e compreenso na maneira como Faye Allison escutou. Nancy descobriu-se a partilhar sentimentos que abrangiam 
anos, no apenas os ltimos quatro meses. Mas o alvio por contar sobre Marion Hillyard foi enorme.
       - No sei, parece estranho dizer isso, mas... - Ela hesitou, sentindo-se tola e parecendo infantil na maneira como olhou para sua nova amiga. - Mas eu... 
eu nunca tive qualquer tipo de famlia, sendo criada no orfanato. A madre superiora foi a pessoa mais prxima de uma me que tive e era mais como uma tia solteirona. 
Mas apesar do que eu sabia a respeito de Marion, pelas informaes de Michael, de seu amigo Ben, apesar do que eu podia pressentir... apesar de tudo, sempre tive 
sonhos loucos, fantasias absurdas, esperava que ela fosse gostar de mim, que seriamos amigas.
       Os olhos dela encheram-se de lgrimas inesperadas. Ela desviou o olhar.
       - Pensava que ela poderia tomar-se sua me?
       Nancy assentiu silenciosamente e depois afastou as lgrimas com uma risada tensa.
       - No  um absurdo?
       - Absolutamente. Era uma suposio normal. Estava apaixonada por Michael. No tem famlia. Era normal que quisesse adotar a famlia dele.  por isso que o 
acordo com Marion a magoa tanto? Mas ela j sabia qual era a resposta, assim como Nancy.
       - Exatamente. Foi a prova do quanto ela me odiava.
       - Eu no chegaria to longe, Nancy. Levando-se tudo em considerao ela fez muito por voc. Afinal, mandou-a para c, a fim de que Peter lhe proporcionasse 
um novo rosto
       Para no falar da vida extremamente confortvel que Marion estava proporcionando a Nancy durante o processo.
       - Contanto que eu renunciasse a Michael. Ela estava me rejeitando para ele... e para si mesma. Compreendi ento que jamais tivera a menor possibilidade de 
conquistar Marion. Foi um momento horrvel. - Ela suspirou e a voz tornou-se mais suave. - Mas acho que j perdi antes e consegui sobreviver.
       - Lembra-se de ter perdido seus pais?
       - No de alguma forma concreta. Era muito pequena para me recordar de qualquer coisa quando meu pai morreu e no era muito mais velha quando minha me deixou-me 
no orfanato. Mas lembro-me do dia em que me contaram que ela havia morrido. Chorei muito, mas no tenho muita certeza por que chorei. No creio que me lembrasse 
dela. Talvez simplesmente me sentisse abandonada.
       - Do mesmo modo que se sente agora?
       Era apenas um palpite, mas dos bons.
       -  possvel. Aquele sentimento insondvel do "mas quem vai tomar conta de mim agora?" Penso nisso de vez em quando. Naquela ocasio, eu sabia que o orfanato 
tomaria conta de mim at que crescesse. E agora sei que Peter o far, assim como o dinheiro de Marion, at que eu esteja inteiramente remendada. Mas o que acontecer 
depois?
       - E o que me diz de Michael? Acha que ele voltar para voc?
       - s vezes penso que sim. Ou melhor, na maior parte do tempo penso que sim.
       Houve uma pausa prolongada.
       - E o resto do tempo?
       - Estou comeando a ter dvidas. A princpio, pensei que talvez ele estivesse com medo da minha aparncia, da maneira como isso o faria sentir-se em relao 
a mim. Mas, agora ele j sabe sobre a cirurgia e deve calcular que houve alguma melhoria. Por que ento ainda no veio procurar-me? - Ela se virou subitamente para 
fitar Faye nos olhos e acrescentou: -  nisso que estou pensando agora.
       - J encontrou alguma resposta para essa indagao?
       - As coisas que me ocorreram no foram das mais agradveis. s vezes penso que ela conseguiu convenc-lo de que uma moa com os meus "antecedentes condenveis" 
iria prejudic-lo profissionalmente. Marion Hillyard ajudou a construir um imprio e est contando com Michael para continuar a manter as melhores tradies da famlia. 
Isso no inclui casar-se com uma moa annima que saiu de um orfanato e pintora, ainda por cima. Ela quer que o filho se case com alguma herdeira debutante que possa 
ser-lhe til nos negcios.
       - Acha que isso tem alguma importncia para ele?
       - No tinha importncia antes, mas agora... no sei.
       - E se o perdesse?
       Nancy titubeou, mas no respondeu. Contudo, seus olhos diziam tudo.
       - E se ele no se sentisse capaz de enfrentar tudo por que voc est passando?  uma possibilidade, Nancy. Alguns homens no so to bravos como gostaramos 
de pensar que so.
       - No sei. Talvez ele esteja esperando at que tudo termine.
       - No ficaria ressentida nesse caso? Por no estar aqui quando voc precisava dele?
       Nancy deixou escapar um longo suspiro em resposta. 
       - Talvez. Mas no sei com certeza. Penso muito nisso tudo, mas no consigo tirar concluses absolutas.
        - Somente o tempo proporciona todas as respostas. Tudo o que voc precisa saber  como se sente. Isso  tudo. Como se sente em relao a voc?  nova voc? 
Est excitada? Assustada? Furiosa por saber que vai ficar diferente? Aliviada?
       - Todas as coisas que acabou de falar. - Ambas riram pela franqueza de Nancy. - Para dizer a verdade, estou aterrorizada. Pode imaginar olhar-se no espelho 
depois de 22 anos e deparar com uma pessoa diferente? Oh, cus,  como uma aberrao!
       Ela riu novamente, mas havia um medo concreto por trs de sua reao.
       -  isso o que sente?
       - s vezes. Na maior parte do tempo, procuro no pensar a respeito.
       - E pensa em qu?
       - Sinceramente?
       - Claro.
       - Em Michael.. Algumas vezes em Peter. Mas principalmente em Michael.
       - Est se apaixonando por Peter?
       No houve hesitao na pergunta. Quem estava falando agora era a Dra. Allison e no Faye. Ela estava naquele momento pensando exclusivamente em Nancy
       - No. No posso apaixonar-me por Peter. Ele  um homem maravilhoso, um grande amigo. O tipo de pai que eu nunca tive. Est sempre me trazendo presentes. 
Mas... estou apaixonada por Michael.
        - Pois vamos ver o que acontece.
       Faye Allison olhou para o relgio e ficou espantada. As duas estavam conversando h quase trs horas. J passavam das sete horas da noite.
       - Deus do cu! Sabe que horas so?
       Nancy tambm consultou o relgio e seus olhos se arregalaram de surpresa.
       - Puxa! Como foi possvel? - E depois ela sorriu. - Vai voltar para conversar comigo, Faye? Peter estava certo. Voc  uma pessoa muito especial.
       - Obrigada. Eu adoraria voltar. Na verdade... Peter estava pensando que poderamos manter um contato numa base regular. O que acha da idia?
       - Acho que seria maravilhoso ter algum para conversar, como fizemos hoje.
       - Nem sempre posso prometer-lhe que ficarei trs horas com voc.
       As duas riram e Nancy acompanhou-a at a porta.
       - O que me diz de trs vezes por semana, durante uma hora, profissionalmente? E podemos encontrar-nos tambm em outras ocasies, como amigas. Est bem assim?
       - Est maravilhoso!
       Apertaram as mos na porta e Nancy ficou surpresa ao descobrir que j estava impaciente pela prxima sesso, dentro de dois dias.


Captulo 11

       Nancy acomodou-se confortavelmente na poltrona perto do fogo e suspirou, enquanto recostava a cabea. Ela havia chegado cinco minutos mais cedo hoje e estava 
ansiosa por conversar com Faye. Ouviu o barulho dos saltos altos de Faye atravessando o corredor a caminho do estdio que usava para receber os pacientes. Nancy 
sorriu e empertigou-se na cadeira. Queria que Faye visse tudo de sada.
       - Bom dia, pssaro madrugador. Est muito bem de vermelho hoje. - Ela parou abruptamente na porta e sorriu. - Esquea o vermelho. Deixe-me ver o queixo novo.
       Faye avanou lentamente, contemplando a parte inferior do rosto de Nancy. Depois, com um sorriso vitorioso, os olhos se encontraram com os de Nancy.
       - O que acha?
       Mas Nancy podia ver perfeitamente a resposta no rosto de Faye. Admirao pelo trabalho de Peter e prazer pela moa.
       - Nancy, voc est linda... maravilhosa!
       J podia ver agora o pescoo adorvel, subindo graciosamente dos ombros esguios, o queixo delicado e gentil, a boca sensual. E o que se podia ver era primoroso 
e perfeitamente apropriado  personalidade da moa. Os desenhos e esculturas interminveis de Peter no haviam sido em vo
       - Ei, tambm vou querer um igual!
       Nancy riu de alegria e recostou-se de novo na cadeira, escondendo o resto do rosto, que ainda estava coberto por ataduras, por trs do chapu de feltro marrom-escuro 
que tinham comprado algumas semanas antes. Combinava com o novo casaco marrom de l e as botas marrons que estava usando com o vestido de tric vermelho. Estava 
at comeando a se sentir bonita, agora que podia ver algo do que estava para vir. Peter estava cumprindo sua promessa.
       -  muito embaraoso, Faye. Estou-me sentindo to bem que tenho at vontade de gritar. E o mais estranho de tudo  que no parece absolutamente comigo, mas 
estou adorando.
       - Fico contente por isso. Mas qual  o problema de no estar parecendo com voc? Isso por acaso a incomoda, Nancy?
       - No tanto quanto eu pensava que iria acontecer. Mas talvez eu ainda espere que o resto se parea comigo. Esta  apenas uma parte isolada e de qualquer forma 
jamais gostei mesmo de minha boca. Talvez parea mais estranho quando o resto tambm parecer com outra pessoa. No sei direito. 
       - Quer saber de uma coisa, Nancy? Talvez deva simplesmente recostar-se e desfrutar. Talvez deva aprofundar-se mais um pouco. Seguir adiante.
       - Como assim ?
       - Vou tentar explicar . Voc est se empenhando em ser Nancy e procuramos um ajustamento abandonando algumas coisas dessa Nancy no processo. Talvez deva simplesmente 
recuar e contemplar o quadro inteiro. Por exemplo: voc gostava do seu jeito de andar antes?
       Nancy assumiu uma expresso de perplexidade enquanto pensava a respeito. Era uma idia inteiramente nova, algo que jamais haviam discutido nos quatro meses 
em que se encontravam.
       - No sei, Faye. Nunca pensei antes a respeito de minha  maneira de andar.
       - Pois pense a respeito. E o que me diz da voz? J pensou alguma vez em apurar a voz? Possui uma voz maravilhosa, suave e melodiosa. Talvez possa, com um 
pouco de adestramento, apur-la ainda mais. Por que no exploramos o que voc possui para tentarmos tirar o mximo de proveito?  o que Peter est fazendo. Por que 
voc prpria no faz a mesma coisa?
       O rosto de Nancy iluminou-se com a idia e ela comeou a se deixar contagiar pelo entusiasmo de Faye.
       - Eu poderia desenvolver todas as espcies de novos aspectos de mim mesma, no ? Tocar piano... arrumar um novo jeito de andar... Podia at mudar o nome.
       - Mas no vamos nos precipitar. No vai querer sentir que perdeu a si mesma. Ao contrrio, deve querer sentir-se que est acrescentando alguma coisa a si 
mesma. Vamos pensar com muito cuidado a respeito de tudo. Tenho o pressentimento de que isso vai levar-nos por algumas direes das mais interessantes.
       - Quero uma voz nova. - Nancy soltou uma risadinha. - Como esta.
       Ela baixou a voz vrias oitavas e Faye no pde deixar de rir.
       - Se fizer isso, Peter talvez tenha que lhe providenciar  uma barba.
       - Sensacional!
       Estavam subitamente dominadas por intensa alegria. Nancy levantou-se e andou pela sala, quase aos pinotes. Em ocasies como aquela Faye recordava-se de como 
ela era realmente jovem. Tinha apenas 23 anos. O aniversrio dela chegara e passara e Nancy estava amadurecendo em muitas coisas que a maioria das pessoas jamais 
precisava. Mas, por baixo da superfcie, ela ainda era quase uma garota.
       - Mas quero que voc esteja perfeitamente consciente de uma coisa, Nancy.
       A voz de Faye era agora bastante sria.
       - O que ?
       - Acho que deve compreender por que se mostra to disposta a tentar tornar-se uma nova pessoa. No  excepcional para os rfos, como voc, sentirem-se inseguros 
de suas identidades. No sabe direito como eram seus pais. Em decorrncia, sente que uma parte de voc est faltando, um vnculo com a realidade. Assim,  muito 
mais fcil para voc desistir de partes da pessoa que foi antes. O mesmo no aconteceria com algum que tivesse mantido imagens muito ntidas dos pais... e todas 
as responsabilidades que isso acarreta. Sob certos aspectos, isso pode fazer com que as coisas sejam mais fceis para voc.
       Nancy ficou calada. Faye sorriu e afundou-se na poltrona aconchegante perto do fogo. Era uma sala maravilhosa para as conversas com os pacientes, pois deixava 
qualquer pessoa imediatamente  vontade. Faye aproveitara os tapetes persas da av na sala, que tinha as paredes revestidas de madeira e antigos candelabros de parede 
de bronze para as lmpadas. A lareira era guarnecida de bronze, as cortinas eram antigas e de rendas, havia prateleiras de livros, pequenos quadros em cantos inesperados, 
por toda parte havia uma profuso de samambaias. Parecia a casa de uma mulher interessante e era justamente esse o efeito que Faye visava.
       - Mas vou dar-lhe tempo para pensar a respeito, Nancy. No momento, temos de cuidar de outra questo importante. O que vamos fazer nos feriados?
       - O que h com os feriados?
       Os olhos de Nancy fecharam-se como duas portas e o riso de momentos antes agora desaparecera por completo. Faye j sabia que isto aconteceria e por isso mesmo 
o assunto tinha de ser abordado.
       - Como se sente em relao aos feriados? Esta assustada? 
       - No.
       O rosto de Nancy permanecia impassvel, enquanto Faye a observava atentamente.
       - Est triste?
       - No.
       - Muito bem, chega de adivinhao, Nancy.  melhor dizer-me. Como se sente?
       - Quer saber como me sinto? - Nancy subitamente a fitou nos olhos. - Quer mesmo saber? - Ela foi at o outro lado da sala e voltou. - Eu me sinto furiosa.
       - Furiosa?
       - Isso mesmo, furiosa. Super furiosa. Furiosa que no acaba mais.
       - Com quem?
       Nancy tornou a afundar-se na poltrona e olhou para o fogo.
       Desta vez, quando falou, a voz era suave e triste:
       - Com Michael. Pensei que, a esta altura, ele j deveria ter me encontrado. Afinal, j se passaram mais de sete meses. Pensei que ele j estaria aqui.
       Ela fechou os olhos, para conter as lgrimas.
       - Com quem mais est furiosa? Com voc mesma?
       - Exatamente.
       - Por qu?
       - Por ter feito o acordo com Marion Hillyard em primeiro lugar. Odeio a atitude dela, mas acho que a minha foi ainda  pior. Eu me vendi.
       - Tem certeza?
       - Acho que sim. E tudo por um novo queixo.
        Ela falou com desprezo, quando pouco antes se manifestara com orgulho. Mas estavam agora penetrando mais fundo.
       - No concordo com voc, Nancy. No assumiu tal atitude por um novo queixo, mas sim por uma nova vida. Acha que  to errado assim na sua idade? O que pensaria 
de outra pessoa que tomasse a mesma deciso?
       - No sei. Talvez eu pensasse que era uma estupidez. Ou talvez compreendesse.
       - H poucos minutos, estvamos falando sobre uma nova vida. Uma voz nova, um jeito de andar novo, rosto novo, nome novo. Tudo novo, exceto uma coisa. - Nancy 
esperou, no querendo ouvir o que Faye ia dizer. - Michael. O que me diz de uma nova vida sem Michael? Por acaso j pensou nisso?
       - No.
       Mas os olhos de Nancy estavam cheios de lgrimas e ambas sabiam que ela estava mentindo.
       - Nunca?
       - Nunca penso em outros homens. Mas, s vezes, penso em no ter Michael.
       - E como se sente nessas ocasies?
       - Gostaria de estar morta.
       Mas ela no pensava realmente assim e ambas tambm sabiam disso.
       - Mas no tem Michael agora, Nancy. E no  to ruim assim, no  mesmo?
       Nancy limitou-se a dar de ombros em resposta. No momento seguinte, Faye voltou a falar, a voz infinitamente suave:
       - Talvez esteja precisando pensar de verdade a respeito de tudo isso, Nancy.
       - Est pensando que ele no vai voltar para mim?
       Nancy estava novamente furiosa, desta vez com Faye, por que no havia mais ningum em quem descarregar sua raiva.
        - No sei, Nancy. Ningum sabe a resposta para essa questo, a no ser o prprio Michael.
       - Tem razo... o cachorro...
       Nancy levantou-se e comeou novamente a andar pela sala. Depois, como um boneco de corda que vai perdendo a fora, o mpeto dos passos foi diminuindo, at 
que ela parou diante do fogo, as lgrimas escorrendo pelo rosto, as mos apertando com toda fora a tela diante da lareira.
        - Oh, Faye, estou to apavorada!  
        - Com o qu? - A voz atrs dela estava mais suave do que nunca.
       - De ficar s. De no ser mais eu. De... Fico me perguntando se no fiz uma coisa terrvel pela qual serei punida. Renunciei ao amor por meu rosto.
       - Mas pensava que j havia perdido tudo. No pode culpar-se pela opo que fez. E  possvel que, ao final, se sinta contente por essa opo.
       -  possvel... - Novos soluos soaram junto  lareira
       Faye ficou observando os ombros esguios se sacudirem, sem dizer nada.
       - Sabe, Faye, estou tambm apavorada com esses feriados do fim do ano.  pior do que no tempo em que eu estava no orfanato. Desta vez, no h ningum. Lily 
e Gretchen partiram no ms passado e voc vai esquiar. Peter vai passar uma semana na Europa e...
       Nancy no podia mais conter as lgrimas. Mas essas eram agora as realidades de sua vida. Tinha de enfrent-las. Faye no deveria sentir-se culpada por deix-la 
naquele momento. Nem Peter. Eles tinham suas prprias vidas, assim como o tempo que passavam ao lado dela. 
       - Talvez tenha chegado o momento de voc sair e fazer alguns amigos, Nancy.
       - Deste jeito? - Ela se virou novamente para Faye e tirou o chapu, deixando  mostra as ataduras. - Como posso sair e encontrar-me assim com algum? Os outros 
ficariam mortalmente apavorados. Ei, pessoal, chegou o Drcula!
       - A aparncia no  assustadora, Nancy. E vai desaparecer com o tempo. No  permanente. No passam de ataduras. As outras pessoas certamente compreendero.
       - Talvez. - Mas Nancy ainda no estava disposta a acreditar em tal possibilidade. - De qualquer forma, no preciso de amigos. Mantenho-me ocupada com a minha 
cmara.
       O presente de Peter fora uma ddiva extraordinria.
       - Sei disso. Vi a sua ltima batelada de fotos outro dia no gabinete de Peter. Ele est orgulhoso do seu trabalho e mostra as fotos a todo mundo. E devo dizer 
que  de fato um trabalho excepcional, Nancy.
       - Obrigada. - Um pouco da raiva dissipou-se com a conversa sobre o trabalho dela. - Oh, Faye... - Nancy sentou-se novamente na poltrona e estendeu as pernas. 
- O que vou fazer com a minha vida?
       - No  justamente para descobrir isso que estamos trabalhando? Enquanto isso, por que no pensa um pouco a respeito do que conversamos hoje? O treinamento 
da voz, aulas de msica... algo para diverti-la e tudo parte da pessoa que vai.se tornar.
       - Est certo, vou pensar um pouco a respeito. Por falar nisso, quando voc vai voltar? 
       - Dentro de duas semanas. Mas deixarei um telefone onde poder encontrar-me em caso de emergncia.
       Faye estava mais preocupada com o impacto dos feriados de fim de ano em Nancy do que estava disposta a admitir. Era uma poca sempre propcia  depresso, 
at mesmo ao suicdio. Mas Nancy parecia estar em condies de resistir, pelo menos no momento. Ela apenas no queria que Nancy ficasse histrica em sua solido. 
Era muito azar que ela e Peter resolvessem viajar na mesma ocasio. Por outro lado, Nancy tinha de aprender a no depender tanto deles.
       - Podemos marcar novo encontro para dentro de duas semanas. E quando eu voltar, quero ver uma poro de fotografias novas.
       - Isso me lembra uma coisa.
       Nancy levantou-se novamente e saiu da sala. Foi at o vestbulo, onde deixara um embrulho em papel pardo. Voltou e estendeu-o sorridente para Faye.
       - Feliz Natal. 
       Faye abriu, com uma expresso de satisfao. E ficou impressionada. O presente era uma fotografia dela prpria, dando a impresso de que passara horas posando, 
para que a fotgrafa pudesse captar o olhar certo, o nimo certo. Possua uma caracterstica de sonho, impressionante. Ela estava de p no terrao de Nancy, o vento 
agitando seus cabelos, com uma blusa de seda rosa-clara, o sol se pondo atrs dela em tons vermelhos e rosas. Ela se recordava do dia, mas no se lembrava de Nancy 
tirando a fotografia.
       - Quando foi que tirou a foto?
       - Quando voc no estava olhando.
       Nancy parecia satisfeita consigo mesma e tinha todo o direito de estar. A fotografia era sensacional. Ela prpria a revelara e ampliara, depois a emoldurara. 
Era uma fotografia to expressiva quanto um quadro.
       - Voc  incrvel, Nancy!  um presente maravilhoso!
       - Tive um bom tema.
       As duas se abraaram. Foi com pesar que Nancy voltou a vestir o casaco.
       - Espero que se divirta bastante esquiando.
       - Pode estar certa de que vou me divertir. E lhe trarei um pouco de neve.
       - Quero ver!
       Nancy abraou-a novamente e se desejaram Feliz Natal. Faye ficou sentindo um aperto no corao depois que ela se foi. Nancy era uma moa linda. Por dentro. 
Onde importava.


Captulo 12

       - O Sr. Calloway est no telefone, Sr. Hillyard.
       A neve estava caindo h cinco ou seis horas sobre as ruas de Nova York, mas Michael no notara coisa alguma. Estava sentado a sua mesa desde as seis horas 
da manh e agora j passavam de cinco da tarde. Ele pegou o telefone, continuando a assinar uma pilha de cartas para sua secretria despachar. Pelo menos o trabalho 
de Kansas City j no estava mais sob sua responsabilidade. Tinha agora de preocupar-se com Houston e na primavera arrumaria uma lcera por causa do centro mdico 
de So Francisco. O trabalho dele era um fluxo incessante de dores de cabea e exigncias, contratos, problemas e reunies. Graas a Deus.
       - George? Michael. Qual  o problema?
       - Sua me est neste momento numa reunio, mas pediu-me que lhe telefonasse para avisar que voltaremos de Boston esta noite, se a neve permitir. Se no, amanh.
       - Est nevando a?
       Michael parecia surpreso, como se fosse o ms de junho e a neve fosse um absurdo.
       - No. - George ficou momentaneamente confuso. - Mas disseram que est havendo uma nevasca em Nova York... No est?
       Michael olhou pela janela e sorriu.
       - Est, sim.  que eu no tinha olhado. Desculpe.
       O rapaz estava se matando, assim como a me sempre fizera. George se perguntou por um momento o que haveria naquela famlia que levava todos os seus membros 
a serem to exigentes consigo mesmos e com as pessoas que os amavam.  
       - Seja como for, agora que esse problema est resolvido, podemos cuidar do resto. - George soltou uma risadinha, antes de acrescentar: - Sua me pediu que 
lhe telefonasse a fim de confirmar a sua presena em casa para a ceia de Natal amanh. Ela convidou uns poucos amigos e naturalmente quer que voc esteja presente.
       Michael suspirou fundo enquanto escutava. Uns poucos amigos... Isto significava vinte ou trinta pessoas, com as quais ele antipatizava ou no conhecia. Alm 
da inevitvel moa solteira de boa famlia, para fazer-lhe companhia. Parecia uma maneira horrvel de passar o Natal. Ou qualquer outro dia.
       - Sinto muito, George. Devo uma desculpa a mame. Mas j assumi um compromisso.
       -  mesmo?
       George parecia desconcertado.
       - Eu pretendia dizer a ela na semana passada, mas esqueci-me inteiramente. Estava to absorvido pelo centro de Houston que nem pensei a respeito. Mas tenho 
certeza de que ela vai compreender.
       Ele estava realizando verdadeiros milagres com o cliente de Houston e por isso era melhor que a me compreendesse mesmo. Ele sabia que esse era um instrumento 
que sempre podia usar contra Marion.
       -  claro que ela vai ficar desapontada, mas ficar tambm satisfeita por saber que voc tem outros planos. Alguma coisa... ahn... alguma coisa excitante, 
pelo que imagino.
       - Exatamente, George. Um estouro.
       - Algo srio?
       George parecia agora preocupado. Oh, Deus, ser que no havia como satisfaz-los?
       - No, nada que possa preocupar. Apenas uma diverso saudvel.
       - Excelente. Bom, Michael, Feliz Natal e tudo o mais.
       - O mesmo para voc. E d lembranas minhas a mame. Telefonarei para ela amanh.
       - Est certo.
       George estava sorrindo quando desligou, satisfeito por constatar que o rapaz estava finalmente se recuperando. Michael levara uma vida muito estranha por 
algum tempo. Marion tambm ficaria aliviada, embora indubitavelmente fosse irritar-se intensamente por alguns minutos, ao saber que o filho no compareceria a sua 
ceia de Natal. Mas, no final das contas, Michael era jovem. Tinha o direito de divertir-se um pouco. George sorriu para si mesmo, enquanto tomava um gole do scotch 
e recordava um Natal em Viena h 25 anos. E depois, como sempre, seus pensamentos voltaram a fixar-se na me de Michael.
       Na sala de Michael, o telefone no parava de tocar. Ben ligou, querendo certificar-se de que ele tinha planos para o Natal. Michael assegurou-lhe que iria 
para a festa da me, tediosa, mas esperada. Diversos clientes telefonaram tambm, para se queixarem, darem os parabns ou desejarem Feliz Natal. Ao desligar, depois 
do ltimo telefonema, Michael murmurou para si mesmo:
       - Ora, que vo todos para o inferno!
       Ele levantou a cabea, surpreso, ao ouvir uma risada desconhecida na porta. Era a nova designer de interiores que Ben contratara. E era tambm uma moa bonita, 
com cabelos castanhos avermelhados caindo em ondas at os ombros, realando ainda mais a pele leitosa e os olhos azuis.  claro que Michael nunca tinha notado. Nunca 
notava coisa alguma, a menos que estivesse em sua mesa e precisando de assinatura.
       - Sempre deseja Feliz Natal s pessoas dessa maneira? 
       - Somente s pessoas de quem gosto realmente de ouvir votos de Feliz Natal.
       Ele sorriu para a moa e ficou imaginando o que ela estaria fazendo ali. No pedira para v-la e a moa no tinha nenhum assunto a tratar diretamente com 
ele, pelo menos ao que soubesse.
       - H alguma coisa que eu possa fazer por voc, Srta... - Oh, diabo! Ele no conseguia recordar o nome dela. Qual seria mesmo?
       - Wendy Towsend. Vim apenas desejar-lhe um Feliz Natal.
       Ah, uma puxa-saco! Michael estava divertido e acenou para que a moa se sentasse.
       - No lhe disseram que sou o Scrooge original [ famoso personagem avarento de uma histria de Natal], em que se baseou Charles Dickens?
       - Foi o que imaginei, quando no apareceu na festa do escritrio nem no jantar de Natal ontem  noite. Dizem tambm que trabalha demais.
       - Faz bem para a pele.
       - Outras coisas tambm fazem.
       Ela cruzou uma perna linda sobre a outra. Michael desviou os olhos. No lhe interessava, assim como nenhuma outra coisa o interessara desde maio.
       - Queria tambm agradecer pelo aumento que acabei de receber.
       Ela exibiu dentes impecveis e Michael retribuiu o sorriso. Estava comeando a se perguntar o que a moa estaria realmente querendo. Uma gratificao? Outro 
aumento?
       - Ter de agradecer a Ben Avery por isso. No tive nada a ver com o seu aumento.
       - Entendo.
       A conversa no ia levar a nada e ela sabia disso. Levantou-se, pesarosa, depois olhou para a janela. Havia quase 20 centmetros de neve empilhada no peitoril 
da janela.
       - Parece que, no final das contas, vai ser mesmo um Natal branco. E tambm vai ser praticamente impossvel chegar em casa esta noite.
       - Talvez tenha razo. E provavelmente no vou sequer tentar. - Michael apontou para o sof de couro com um sorriso. - Acho que foi por isso que puseram esse 
sof. S para me manter preso no escritrio.
       No, meu caro, voc  que est fazendo isso consigo mesmo. A moa limitou-se a sorrir, desejando-lhe um Feliz Natal.
       Michael voltou a assinar cartas. E cumprindo sua palavra, passou a noite no sof. E a noite seguinte tambm. Servia-lhe perfeitamente. O Natal caa num fim 
de semana naquele ano e assim ningum sabia onde ele estava. At mesmo o zelador e as faxineiras estavam de folga. Somente o vigia noturno soube que Michael no 
deixara o escritrio da sexta-feira at o final da noite de domingo. E, a esta altura, o Natal j havia acabado. Quando ele voltou a seu apartamento vazio, nada 
mais tinha a temer. O Natal, com todas as suas recordaes e fantasmas, j era uma coisa do passado. Havia uma poinstia grande e vistosa murchando diante de sua 
porta, enviada pela me. Michael deixou-a ao lado da lata de lixo.
       
       Em So Francisco, Nancy passou o Natal mais confortavelmente que Michael, mas em igual solido. Cozinhou um frango, entoou cantigas de Natal sozinha no terrao, 
depois que voltou da igreja, na noite de Natal. Dormiu at tarde no dia de Natal. Havia acalentado a esperana de evitar que esse dia chegasse, mas no havia como 
escapar. Era inexorvel, com seus enfeites e suas rvores, promessas e mentiras. Pelo menos, em So Francisco, o tempo no a fazia lembrar-se tanto dos Natais que 
passara na costa do Atlntico. Era quase como se todas aquelas pessoas estivessem fingindo que era Natal, quando ela sabia muito bem que isso no acontecia. A estranheza 
fazia com que se tornasse um pouco mais fcil suportar tudo. E ela recebera dois presentes nesse ano: uma linda bolsa de Gucci dada por Peter e um livro cmico de 
Faye. De tarde, depois que comeu o frango recheado, com um molho especial, ela se acomodou numa poltrona com o livro. Era como comemorar o Natal na Schrafft's, com 
todas as velhas senhoras, as esperanas de vida guardadas numa sacola de compras. Nancy sempre tentara imaginar o que havia naquelas sacolas. Talvez velhas cartas, 
fotografias, quinquilharias, trofus ou sonhos.
       J eram mais de seis horas quando finalmente largou o livro e esticou as pernas. Seria maravilhoso dar um passeio. Estava precisando respirar um pouco de 
ar fresco. Vestiu o casaco, pegou o chapu e a cmara, sorriu para si mesma no espelho. Continuava a gostar de seu novo sorriso. Era um sorriso maravilhoso. Fazia-a 
pensar em como pareceria o resto de seu rosto, quando Peter terminasse. Era um pouco como tornar-se a mulher dos sonhos dele. Certa ocasio, Peter chegara mesmo 
a dizer-lhe que a estava transformando em seu "ideal". O que era um sentimento um tanto constrangedor. De qualquer forma, ela gostava de seu novo sorriso. Nancy 
pendurou a cmara no ombro, saiu do apartamento e desceu no elevador.
       Era um final de tarde frio, com o vento soprando, sem nevoeiro. Nancy sabia que seria uma excelente noite para tirar fotografias. Encaminhou-se lentamente 
para o cais. As ruas estavam praticamente desertas. Todos estavam se recuperando da ceia de Natal, instalados em poltronas ou sofs, roncando diante dos aparelhos 
de TV. A viso que criou na prpria mente fez Nancy sorrir. Subitamente ela tropeou, soltando um grito estridente ao cambalear. Peter advertira-a desse perigo. 
Agora, quase cara na rua. Estendeu os braos para se amparar e conseguiu recuperar o equilbrio antes de bater na calada. S no instante seguinte  que percebeu 
que no tinha sido a nica a gritar. Tropeara num cachorrinho peludo, que parecia estar profundamente ofendido. Sentou-se agora, sacudiu a pata para Nancy e latiu. 
Era uma pequena bola de plo emaranhado, em tons marrons e beges. Ficou olhando para Nancy e latiu novamente.
       - Est bem, est bem... Desculpe. Mas a verdade  que voc tambm me assustou.
       Ela se abaixou para afagar o cachorro, que sacudiu o rabo e latiu mais uma vez. Era um cachorrinho cmico, pouco maior que um filhote. Nancy lamentou nada 
ter para lhe dar de comer. O bicho parecia muito faminto. Ela o afagou novamente, sorriu e depois se levantou, satisfeita por no ter deixado a cmara cair. O cachorrinho 
latiu novamente e ela voltou a sorrir.
       - Est bem... adeus.
       Ela comeou a afastar-se, mas o cachorro foi atrs, correndo a seu lado. Nancy parou e olhou-o. 
       - Escute, cachorrinho, volte para sua casa. V embora.
        Mas cada vez que ela dava um passo, o cachorro dava tambm; e quando ela parava, o cachorro sentava-se, esperando na maior felicidade que o passeio recomeasse. 
Nancy parou novamente e riu para o cachorro. Era realmente um cachorrinho ridculo, mas tambm extremamente simptico. Ela se abaixou para afag-lo novamente e tateou 
o pescoo  procura de uma coleira, mas nada encontrou. E depois, num sbito impulso, divertida, ela decidiu tirar algumas fotografias do cachorro. Ele demonstrou 
ser um modelo natural, empinando-se, posando, abanando o rabo, divertindo-se a valer. Nancy tinha feito um novo amigo. Ao final de meia hora, o cachorro ainda no 
dera qualquer sinal de que estava disposto a abandon-la.
       - Est certo, pode vir comigo.
        E assim seguiram os dois at a beira do cais, onde Nancy tirou fotografias de barracas de caranguejo e vendedores de camaro, turistas e Papais Nois embriagados, 
embarcaes e pssaros, e outros cachorros. Divertiu-se intensamente e em momento nenhum conseguiu livrar-se de seu novo amigo. O cachorrinho permaneceu ao lado 
dela at que Nancy finalmente parou para tomar um caf. Tornara-se bastante hbil em entrar em cafs e lanchonetes, abaixando a cabea a fim de ocultar a maior parte 
do rosto sob o chapu e assim pedindo o que desejava. Agora, tinha at mesmo um sorriso para acompanhar o obrigado, que j no era to difcil de exibir como antes. 
Nancy pediu caf puro para si e um hambrguer para o cachorro. Ps o prato de papel vermelho na calada, ao lado dele. O cachorro devorou tudo e depois latiu em 
agradecimento.
       - Isso significa obrigado ou que voc est querendo mais?
       O cachorro latiu novamente e ela riu. Um homem parou para afagar o cachorro e perguntou o nome dele a Nancy.
       - No sei. Ele acabou de me adotar.
       - J comunicou?
       - Ainda no.
       O homem explicou como deveria fazer e Nancy agradeceu.
       Telefonaria do apartamento, se o cachorrinho continuasse a segui-la at l. E foi justamente o que aconteceu. Ele parou na porta do prdio, como se tambm 
morasse ali. Nancy levou o cachorro para cima e telefonou para a Associao Protetora dos Animais. Mas ningum procurara a Associao para informar ter perdido um 
cachorro como aquele. Sugeriram que ela se resignasse a ficar com o cachorro ou o levasse para o depsito da prefeitura, onde dariam um jeito nele. Nancy ficou indignada 
com tal perspectiva e passou um brao protetor pelo cachorro, ambos sentados no cho, lado a lado.
       - Quer saber de uma coisa, garoto? Est com uma aparncia horrvel. O que me diz de tomar um banho?
       Ele abanou a lngua e o rabo ao mesmo tempo. Nancy pegou-o no colo e levou-o para a banheira. Ela tinha de tomar todo cuidado para no ser respingada, pois 
as ataduras em seu rosto no podiam ficar molhadas. Mas o cachorrinho submeteu-se ao banho sem qualquer resistncia. J no meio do banho, ela descobriu que a cor 
dele no era marrom e bege, mas sim marrom e branco. E o marrom era claro, da cor de chocolate com leite, enquanto o branco era da cor da neve. Era de fato um cachorrinho 
adorvel e Nancy comeou a torcer para que ningum comunicasse que o tinha perdido. Nunca antes tivera um cachorro e j estava apaixonada por aquele. No pudera 
ter um cachorro no orfanato e os bichos de estimao no eram permitidos no prdio de apartamentos em que fora morar em Boston. Mas a administrao daquele prdio 
em So Francisco no tinha qualquer objeo a bichos de estimao. Nancy sentou-se sobre os calcanhares e esfregou-o novamente com a toalha, enquanto ele rolava 
para ficar de costas, sacudindo as quatro patas. E depois ela comeou a pensar em um nome para o seu novo amigo. No demorou a encontr-lo. Seria o mesmo nome de 
um cachorro de que Michael lhe falara, o primeiro filhote que ele tivera quando era menino. De certa forma, parecia o nome perfeito para aquele cachorrinho independente.
       - O que acha do nome Fred, meu pequeno amigo? Est bom para voc? 
       Ele latiu duas vezes e Nancy encarou tal reao como um sim.


Captulo 13

       Nancy meteu a cabea pela porta e sorriu para Faye, j instalada comodamente perto do fogo.
       - O que trouxe escondido na manga hoje, minha cara?
       Faye retribuiu o sorriso, aliviada ao constatar que Nancy parecia estar muito bem.
       - Trouxe um amigo.
       -  mesmo? Eu passo duas semanas fora e voc aproveita para arrumar um novo amigo? E onde est o seu amigo?
       Fred entrou na sala, obviamente orgulhoso de sua nova coleira e da correia vermelha. Ningum comunicara t-lo perdido e a partir daquela manh ele pertencia 
oficialmente a Nancy. Tinha uma licena, cama, tigela e dezessete brinquedos. Nancy o estava cumulando de carinho.
       - Faye, quero apresentar-lhe Fred..
       Ela sorriu para o cachorrinho com um orgulho maternal e Faye no pde deixar de rir.
       - Ele  lindo, Nancy. Onde foi que o conseguiu?
       - Ele me adotou no dia de Natal. Deveria ter-lhe dado o nome de Noel, mas Fred me pareceu mais apropriado.
       Por um momento, Nancy sentiu-se embaraada em explicar a Faye por qu. Estava comeando a sentir-se como uma tola por se apegar  esperana de Michael.
       - Tambm trouxe alguns trabalhos meus para voc ver.
       - Puxa, como voc esteve ocupada! Talvez eu devesse ausentar-me com mais freqncia.
       - Se quer me fazer um favor, no faa isso.
       Os olhos de Nancy revelaram a Faye como ela se sentira solitria. Mas pelo menos conseguira sobreviver ao Natal. E sozinha. O que no era pouca coisa para 
qualquer pessoa.
       - E... - Nancy fez uma breve pausa, com evidente orgulho. - ... j providenciei tudo para fazer um curso de aprimoramento da voz. Peter diz que tudo faz parte 
do acordo. Comeo amanh, s trs horas. Ainda no posso tomar aulas de dana porque meu rosto no est acabado. Mas poderei comear no prximo vero.
       - Estou orgulhosa de voc, Nancy.
       - Tambm estou.
       Tiveram uma boa sesso naquele dia e pela primeira vez, em oito meses, no falaram de Michael. Para espanto de Faye, j estavam na primavera quando Nancy 
voltou a mencion-lo. Era quase como se ela estivesse determinada a no faz-lo. Agora, Nancy s falava a respeito de seus planos. As aulas para aprimorar a voz. 
Fotografia. O trabalho que ela queria fazer com fotografia assim que suas tcnicas se tornassem mais sofisticadas. Na primavera, ela e Fred saam para longos passeios 
pelo parque, atravs das roseiras e pelos caminhos mais remotos, perto da praia. De vez em quando, ia de carro com Peter para praias distantes e desertas, onde no 
havia ningum para ver as ataduras. Pouco a pouco, o novo rosto dela estava emergindo, assim como a sua nova personalidade. Era como se, ao remodelar as faces, testa 
e nariz de Nancy, ele tambm estivesse revelando mais da alma que estivera oculta pela juventude. Ela amadurecera consideravelmente no ano que havia transcorrido 
desde o acidente.
       - J passou um ano?
       Faye estava atnita, enquanto olhava para Nancy, uma tarde. Peter estava trabalhando na regio em torno dos olhos dela e Nancy usava imensos culos escuros, 
que escondiam as faces, assim como os olhos.
       - Exatamente. Aconteceu em maio do ano passado. E a estou vendo h oito meses, Faye. Acha realmente que estou fazendo algum progresso?
       Ela parecia desanimada. O que era natural, pois ainda estava cansada da ltima cirurgia, realizada apenas trs dias antes. 
       - Duvida de seu progresso?
       - s vezes. Quando penso demais em Michael.
       Era uma confisso extremamente rdua para Nancy. Ela ainda estava se agarrando aos ltimos resqucios de esperana... de que Michael iria finalmente encontr-la 
e o acordo com a me dele ficaria ento automaticamente cancelado.
       - No sei por que ainda fao isso comigo mesma, mas a verdade  que fao.
       - Espere s at comear a sair mais um pouco pelo mundo, Nancy. No tem mais nada para fazer agora alm de olhar para trs, contemplando as coisas de que 
se recorda, ou para frente, imaginando as coisas que ainda no conhece.  perfeitamente natural que passe um tempo considervel olhando para trs. No tem outras 
pessoas em sua vida neste momento, mas ter quando  chegar o momento. Seja paciente.
       Nancy deixou escapar um suspiro cansado.
       - Estou cansada de ser paciente, Faye. Tenho a sensao de que este trabalho em meu rosto vai durar para sempre. H ocasies em que odeio Peter por isso, 
mesmo sabendo que no  culpa dele. Ele est procurando fazer tudo o mais depressa que  possvel.
       - Valer a pena o tempo que voc est investindo. J est.
       Faye sorriu para Nancy, que retribuiu. O formato delicado do rosto da moa j emergira e a cada semana parecia haver mudanas. O aprimoramento da voz tambm 
estava indo muito bem, a voz de Nancy era agora de um tom mais baixo, muito bem modulada. Ela possua um controle maior sobre a suavidade de sua voz do que poderia 
acontecer sem o treinamento. O que deu uma idia a Faye.
       - J pensou em tornar-se atriz depois que tudo tiver acabado? A experincia pode proporcionar-lhe uma profundidade interior considervel.
       Nancy sorriu e sacudiu a cabea.
       - Posso fazer filmes, mas no atuar neles. Prefiro ficar no outro lado da cmara.
       - Foi apenas uma idia. O que tem na sua agenda para esta semana?
       - Combinei com Peter tirar algumas fotografias para ele. Vamos de avio para Santa Brbara, onde passaremos o domingo. Ele quer encontrar-se com algumas pessoas 
de l e ofereceu-me uma carona.
       - Eu gostaria de poder levar uma vida assim... - Faye olhou para o relgio, antes de acrescentar: - At quarta-feira.
       - Est bem, madame.
       Nancy despediu-se com um sorriso e Fred saiu correndo da sala com a coleira na boca. Ele estava acostumado s sesses no consultrio de Faye. Nancy nunca 
o deixava em parte alguma.
       Saindo do consultrio de Faye, Nancy decidiu percorrer a p os poucos quarteires que a separavam de um pequeno parque prximo, a fim de verificar se no 
havia crianas no playground para fotografar. J fazia algum tempo que no tirava fotografias de crianas. Ao chegar, encontrou um amplo suprimento de temas, subindo, 
pulando, empurrando, correndo. Nancy ficou sentada num banco por algum tempo, a observ-las. Era um lindo dia e ela se sentia em paz com a vida.
       
       - Vem aqui com freqncia?
       Sentado no banco, Michael levantou abruptamente a cabea, surpreso. Escapara para o parque por uma hora, apenas para se afastar do escritrio e poder ver 
algum verde. Havia sempre algo mgico naqueles primeiros dias de primavera, quando Nova York passava do cinzento para o verde vioso, arbustos, rvores e flores 
explodindo de vida. Mas estava convencido de que ficaria sozinho naquele lugar isolado em que encontrara um banco desocupado. A voz sbita o surpreendeu. Deparou 
com Wendy Twnsend, a designer de interiores do escritrio.
       - No... eu... para dizer a verdade, quase nunca. Mas estava tendo hoje um caso raro de febre da primavera.
       - Eu tambm.
       Ela parecia um tanto constrangida, parada ali, segurando um picol. Depois, rapidamente, deu urna lambida no sorvete, a fim de no perder uma boa poro de 
chocolate.
        - Est parecendo delicioso. - Michael sorriu para a moa no ar ameno da primavera
       - Quer um pouco?
       Ela estendeu o sorvete como uma colegial amistosa, mas Michael sacudiu a cabea.
       - De qualquer forma, obrigado pelo oferecimento. No gostaria de sentar-se um pouco?
       Ele se sentia um pouco tolo por ter sido surpreendido no parque, mas era um dia to bonito que no se importava de partilh-lo, especialmente com uma jovem 
to simptica. Os caminhos de ambos haviam se cruzado por diversas vezes desde que ela entrara na sala dele, cinco meses antes, para desejar Feliz Natal. Wendy Townsend 
sentou-se ao lado de Michael e terminou rapidamente o sorvete.
       - No que est trabalhando atualmente? - perguntou ele.
       - Houston e Kansas City. Meu trabalho est sempre cinco ou seis meses atrs do seu.  muito interessante seguir em seus calcanhares dessa maneira.
       - No tenho muita certeza como devo encarar tal declarao. - Mas a verdade  que Michael no estava muito preocupado com isso.
       - Como um elogio.
       Ela sorriu por baixo das pestanas, que tambm eram de uma tonalidade castanho-avermelhada.
       - Obrigada. Ben a est tratando decentemente ou  o feitor de escravos que eu lhe digo para ser?
       - Ele no saberia como faz-lo.
       - Sei disso. - Michael sorriu ao pensar no assunto. - Ns nos conhecemos pela metade de nossas vidas. Ben  como meu irmo.
       - Ele  um homem tremendamente simptico.
       Michael assentiu silenciosamente, pensando como poucas vezes vira Ben no ltimo ano. Nunca tinha tempo. Nunca dava um jeito de arrumar tempo. Nem mesmo sabia 
o que estava acontecendo na vida de Ben. Havia muitos meses que no se dava ao trabalho de arrumar tempo para descobrir. Comeou de repente a sentir-se culpado, 
por estar sentado ao lado da jovem e imerso em seus prprios pensamentos. Mas muita coisa mudara para ele ao longo do ltimo ano. Ele prprio mudara.
       - Est muito longe daqui, Sr. Hillyard. S espero que seja em algum lugar agradvel.
       Michael deu de ombros.
       - A primavera faz estranhas coisas comigo.  como se me obrigasse a parar a cada ano para fazer um bom suprimento.  justamente o que estou fazendo hoje.
       -  uma boa idia. Por alguma razo, sempre fao isso tambm em setembro. Acho que a noo do "ano escolar" me marcou para sempre. A maioria das outras pessoas 
prefere revigorar-se em janeiro para enfrentar o resto do ano. Mas acho que a primavera faz mais sentido.  na primavera que tudo comea novamente. Por que ento 
no deveramos comear nossas vidas novamente a cada primavera?
       Trocaram um sorriso e Michael olhou para o pequeno lago sereno, ocupado por uns poucos patos, que pareciam felizes da vida. No havia qualquer outra pessoa 
 vista.
       - O que estava fazendo nesta mesma poca no ano passado, Sr. Hillyard?
       Era uma pergunta inocente, mas penetrou em Michael como uma faca afiada. Um ano atrs, naquele dia...
       - Nada muito diferente do que estou fazendo agora. - Ele franziu a testa, olhou para o relgio e levantou-se. - Infelizmente, tenho uma reunio dentro de 
10 minutos.  melhor eu voltar para o escritrio. Foi um prazer conversar com voc.
       Michael mal sorriu ao se afastar. A jovem continuou sentada onde estava, imaginando o que teria dito de errado. Tinha de perguntar a Ben qual era o problema 
de Michael. No era possvel aproximar-se a menos de mil quilmetros dele.



Captulo 14

       Para surpresa de Michael, Wendy havia sido convocada para a mesma reunio, 10 minutos depois. Iam discutir o projeto preliminar para o Centro Mdico de So 
Francisco e a parte de desingn interior seria um fator importante. Uma parcela considervel da arte local seria aproveitada para realar o projeto bsico. Ben iria 
encarregar-se de encontrar essa arte pessoalmente, mas Wendy ficaria incumbida da coordenao na frente interna. E o faria numa escala maior que a habitual, j que 
Ben passaria muito tempo em So Francisco. Ainda faltava muito para a apresentao do projeto definitivo, mas j era tempo de comear a elaborar os planos, enquadrar 
os problemas e esmiuar os detalhes.
       Foi uma reunio demorada, absorvente, interessante, dirigida em grande parte por Marion, com a ajuda de George Calloway. Mas Michael teve uma participao 
quase igual. Aquele projeto era dele, como a me quisera desde o incio. Todas as grandes firmas de arquitetura do pas haviam tentado obter aquele contrato e Marion 
tencionava agora utiliz-lo para projetar definitivamente o nome e reputao de Michael.
       J era quase seis horas quando a reunio terminou. Wendy estava esgotada. Apresentara suas idias de maneira segura, resistira a Marion quando no havia outro 
jeito; seus argumentos haviam impressionado Michael. Ben estava orgulhoso dela e apertou-lhe afetuosamente o ombro, ao se retirarem.
       - Bom trabalho, menina. Saiu-se muito bem.
       Ele foi chamado por sua secretria nesse momento e Wendy continuou sozinha pelo corredor. Ficou bastante surpresa quando Michael tambm a deteve.
       - Fiquei bastante impressionado com o seu trabalho, Wendy. Tenho certeza de que vamos realizar juntos um grande trabalho em So Francisco.
       - Tambm tenho. - Ela estava radiante com o elogio, ainda mais porque partira de Michael. - Eu... Michael, eu... lamento muito se disse alguma coisa que o 
deixou ofendido esta tarde. No tencionava realmente intrometer-me em sua vida e se foi uma pergunta imprpria lamento profundamente...
       Michael sentiu algum remorso pelo constrangimento dela e levantou a mo para impedi-la de continuar, ao mesmo tempo que lhe sorria gentilmente.
       - Fui um tanto grosseiro e peo desculpas. Acho que a febre da primavera me deixa meio doido, alm de sonhador. Posso compensar convidando-a para jantar esta 
noite?
       Ele ficou to surpreso quanto ela no instante mesmo em que as palavras saram de sua boca. Jantar? Ele no jantava com uma mulher h um ano! Mas ela era uma 
jovem simptica, estava fazendo um bom trabalho e suas intenes eram boas. E estava a fit-lo naquele momento com as faces coradas e visivelmente embaraada.
       - Eu... no precisa...
       - Sei que no preciso, mas gostaria - E desta vez Michael estava falando srio. - No tem algum outro compromisso?
       - No. E tambm adoraria.
       - timo. Irei busc-la em seu apartamento dentro de uma hora. Ele anotou o endereo nas costas de seu bloco e sorriu enquanto Wendy retornava apressadamente 
 sala dela. Era um absurdo fazer aquilo, mas por que no?
       Michael chegou pontualmente ao apartamento dela, uma hora depois, e gostou do que viu. Era um prdio pequeno e bem cuidado, com uma porta preta reluzente 
e uma grande aldrava de lato. Tinha quatro apartamentos e o de Wendy era o menor, mas ela se gabava de possuir um pequeno jardim nos fundos. O apartamento dela 
era uma maravilhosa mistura de antigo e novo, o antigo autntico e o moderno vlido. Era dominado por cores suaves, i1uminao indireta, muitas flores e velas. Wendy 
parecia ter grande predileo por prataria antiga, que polira  perfeio de espelho. Ele olhou ao redor com satisfao e sentou-se para saborear os hors' d'oeuvres 
que ela preparara. Tomaram Bloody Marys e trocaram comentrios sobre os diversos projetos em que trabalhavam. Uma hora voou numa conversa descontrada. Michael detestou 
ter de interromp-la a fim de sarem para jantar, mas fizera reservas num restaurante francs das proximidades e jamais guardavam as mesas dos retardatrios por 
mais de cinco minutos.
       - Vamos ter de correr, se quisermos chegar a tempo. Ou ser que realmente nos importamos com isso?
       Michael ficou surpreso ao ouvi-la formular seus prprios pensamentos e no sabia direito o que significava o brilho malicioso nos olhos dela. Fazia tanto 
tempo que no se encontrava com uma mulher que ficou com receio de interpretar erroneamente e tomar a iniciativa errada.
       - Em que exatamente est pensando, Srta. Townsend? Ser que o pensamento  to abominvel quanto a expresso em seu rosto?
       - Pior ainda. Estava pensando que podamos providenciar alguma coisa para fazermos um piquenique, enquanto contemplamos os barcos no East River.
       - A idia parece maravilhosa. Por acaso tem manteiga de amendoim?
       - Claro que no! - Ela parecia ofendida. - Fao o meu prprio pat, Sr. Hillyard. E tenho po preto.
       Ela parecia bastante orgulhosa de si mesma e Michael ficou devidamente impressionado.
       - Confesso que eu estava pensando mais em termos de manteiga de amendoim e gelia. Ou cachorros-quentes.
       - Jamais!
       Com um sorriso, Wendy desapareceu na cozinha. Em 10 minutos, ela havia reunido o piquenique perfeito para duas pessoas. Havia uma sobra de rottatouille, o 
pat prometido, um po preto, uma poro considervel de Brie, trs pras maduras, algumas uvas e uma garrafa de vinho.
       - Acha que  suficiente?
       Ela parecia preocupada e Michael no pde conter uma risada.
       - Est falando srio? Nunca comi to bem desde que tinha doze anos. Vivo basicamente de sanduches de sobra de rosbife e do que minha secretria me alimenta, 
quando no estou olhando. Provavelmente comida para cachorro. Nunca notei.
       -  de admirar que no esteja morrendo de inanio. - Michael no estava morrendo  mngua, mas certamente estava muito magro. - Podemos ir?
       Wendy olhou ao redor da sala e pegou um xale bege, enquanto Michael pegava a cesta do piquenique. E saram. Percorreram a p os poucos quarteires que os 
separavam do East River, encontraram um banco e ali se acomodaram alegremente para contemplarem os barcos que passavam. Era uma noite quente e agradvel, o cu cheio 
de estrelas e o rio bastante povoado por rebocadores, iates e at mesmo barcos  vela, que passavam de vez enquanto num passeio noturno. Michael e Wendy no eram 
os nicos atingidos pela febre da primavera.
       -  o seu primeiro emprego, Wendy?
       Michael estava com a boca cheia de pat e parecia mais jovem que em qualquer outra ocasio do ltimo ano. Ela assentiu, com expresso feliz.
       - , sim. E tambm o primeiro a que me candidatei. Fiquei muito contente em obt-lo. Fui trabalhar com vocs assim que sa da Parsons.
       - Isso  timo.  o meu primeiro emprego tambm.
       Michael estava morrendo de vontade de indagar o que ela achava de sua me, mas no se atreveu. No teria sido justo. Alm do mais, se a moa tinha um mnimo 
de bom senso no podia deixar de detestar Marion. Afinal, Marion Hillyard era um verdadeiro monstro em questes de trabalho, o que Michael sabia perfeitamente.
       - E tudo indica que vai ter bastante sucesso e ir longe na firma, Michael.
       Ela estava novamente a provoc-lo e Michael riu.
       - O que pretende fazer depois disso? Casar e ter filhos?
       - No sei, mas  possvel. De qualquer forma, no penso nisso por longo tempo. Quero primeiro consolidar uma carreira. Sempre posso ter filhos depois, na 
casa dos 30 anos.
       - Puxa, como as coisas mudaram. Antigamente, todas as garotas viviam ansiosas por se casarem.
       Michael sorriu para sua nova amiga.
        - Algumas garotas ainda esto ansiosas por se casarem. - Ela retribuiu o sorriso e pegou um pedao de Brie. Fora um piguenique maravilhoso. - E voc, quer 
casar?
       Ela ficou observando Michael com a maior curiosidade, enquanto ele sacudia a cabea, contemplando os barcos.
       - Nunca?
       Ele virou a cabea para fit-la. Lentamente, sacudiu outra vez a cabea. Havia uma espcie de splica nos olhos de Michael. Wendy no sabia se devia ou no 
insistir na pergunta. Decidiu interrogar Michael a respeito.
       - Devo perguntar por qu ou devo parar por aqui?
       - Talvez j no tenha mais importncia. H um ano inteiro que estou fugindo disso. Cheguei mesmo a fugir de voc hoje, na hora do almoo. No posso continuar 
a fugir para sempre.
       Michael fez uma pausa, baixou os olhos para suas mos, depois tornou a fit-la.
       - Eu ia me casar no ano passado. No caminho, Ben Avery... minha... minha noiva e eu... sofremos um acidente. O outro motorista morreu e tambm... Ela tambm 
morreu.
       Michael no chorou, mas teve a sensao de que tudo por dentro lhe fora arrancado. Wendy olhava para ele fixamente, os olhos arregalados, horrorizados.
       - Oh, Michael, que coisa horrvel! Parece um pesadelo.
       - E foi mesmo. Passei dois dias em estado de coma e quando sa ela j tinha morrido. Eu... eu... - Michael quase que no podia pronunciar as palavras, mas 
tinha de faz-lo agora. Tinha de contar a algum. Jamais contara nem mesmo a Ben. - Voltei ao apartamento dela quando sa do hospital, duas semanas depois. Mas j 
estava vazio. Algum chamara a Goodwill e os quadros dela... haviam sido roubados por duas enfermeiras do hospital. Ela era pintora.
       Os dois ficaram sentados em silncio por longo tempo. Depois, Michael voltou a falar, como se desejasse ele prprio compreender melhor.
       - No restou nada. Acho que nem de mim...
       Quando ele levantou a cabea, deparou com lgrimas escorrendo pelas faces de Wendy.
        - Lamento muito, Michael.
        Ele assentiu e, pela primeira vez em um ano, tambm chorou. As lgrimas deslizavam lentamente por seu rosto quando a abraou.



Capitulo 15

       - Michael, o que acha daquela mulher que est dirigindo o escritrio de Kansas City e...
       Wendy olhou para ele, acomodado em uma cadeira de lona em seu jardim. Michael no estava ouvindo.
       - Michael...
       Os dois estavam sentados em trajes de banho, no sol quente de Nova York. Wendy sabia que ele tambm no estava prestando ateno  edio dominical do jornal.
       - Michael...
       - Ahn? O que foi?
       - Eu lhe estava fazendo uma pergunta sobre aquela mulher do escritrio de Kansas City. - Mas Wendy sabia que j o tinha perdido e fitou-o com expresso irritada. 
- Quer outro Bloody Mary?
       - Hem? Quero, sim... Acho que vou voltar para o escritrio daqui a pouco.
       Ele olhou alm dela, para um ponto qualquer acima de seu ombro.
       - Maravilhoso.
       - Como assim?
       Michael estava agora observando-a atentamente e no sabia direito o que significava a expresso no rosto dela. Se se esforasse um pouco, poderia entender 
prontamente. Mas nunca tentava.
        - Nada, nada...
       - O centro mdico de So Francisco vai me exigir o mximo de trabalho pelos prximos dois anos.  um dos maiores projetos j realizados no pas.
       - E se no fosse isso, seria alguma outra coisa. No precisa arrumar desculpas. Est tudo bem.
       - Ento no procure dar a impresso de que estou batendo o relgio-ponto toda vez que apareo aqui.
       Michael empurrou o jornal com o p e fitou-a com expresso furiosa. Ela no se conteve mais.
       - Pare com isso, Michael! S apareceu aqui ontem depois de meia-noite e meia. Tnhamos um jantar marcado com os Thompson e voc s me telefonou s 9h45min. 
Eu deveria ter sado com os Thompsons mesmo sem voc.
       - Ento por que no saiu? No precisa ficar sentada aqui  minha espera.
       -  verdade, no preciso. Mas acontece que estou apaixonada por voc. E o pior  que nem ao menos tenta ter alguma considerao. O que h com voc? Tem medo 
de estar em outro lugar que no seja em sua mesa de trabalho? Tem medo de que algum possa tomar o seu lugar? Ou est com medo de tambm se apaixonar por mim? Ser 
que isso seria to horrvel assim?
       - No seja ridcula. Sabe como meu trabalho  absorvente. E sabe disso melhor que qualquer outra pessoa.
       - Claro que conheo o seu trabalho... e  justamente por isso que sei que metade das horas que dedica a ele no tem a menor razo de ser. Usa o seu trabalho 
como um lugar para se esconder, um meio de vida. Usa-o para me evitar. E evitar a si mesmo.
       E tambm a Nancy. Mas Wendy no acrescentou esse comentrio.
       - Isso  ridculo.
       Michael levantou-se e andou pelo jardim estreito e bem cuidado, as lajes de pedra bastante quentes sob seus ps. Era setembro, mas ainda fazia calor em Nova 
York. Depois das primeiras semanas felizes de romance, ele e Wendy haviam passado um vero difcil. Michael passara a maior parte do tempo trabalhando, mas haviam 
conseguido pelo menos um fim de semana em Long Beach.
       - Alm do mais, o que est esperando de mim? Pensei que tivssemos deixado isso bem claro desde o incio. Eu lhe disse expressamente que no queria...
       - Voc me disse que no queria envolver-se demais, que tinha medo de ficar ainda mais magoado. No tinha certeza se queria casar-se algum dia. Nunca me disse 
que tinha medo de estar vivo, que tinha medo de gostar, que tinha medo de ser um ser humano. Passa mais tempo com seu ditafone do que comigo, Michael. E provavelmente 
trata melhor ao ditafone.
       - E da?
       Wendy sentiu um calafrio subir pela espinha enquanto observava o rosto dele. Michael realmente no se importava. E ela estava louca para ficar com ele. Havia 
algo em Michael, uma beleza estranha, uma fora intensa, uma tristeza profunda, que a atraa como um m. E mais do que isso, ela podia sentir como era grande angstia 
dele, a carncia. Queria atingi-lo bem fundo, mostrar-lhe que era amado. Mas Michael no se importava. Ela no era Nancy. E ambos sabiam disso.
       Wendy levantou-se em silncio e saiu do jardim, entrando no apartamento para que ele no visse as lgrimas brilhando em seus olhos. Na cozinha, serviu-se 
de outro Bloody Mary e ficou parada ali por um momento, os olhos fechados, o corpo tremendo, desejando poder alcan-lo, finalmente encontr-lo. Mas estava comeando 
a pensar que isso jamais seria possvel. Michael nunca mais se abriria para qualquer pessoa.
       Ela tomou todo o drinque em goles grandes e ps o copo vazio em cima da pia, enquanto sentia as mos de Michael flutuarem gentilmente sobre sua pele bronzeada. 
Wendy passava todos os fins de semana no jardim, bronzeando-se, sozinha. Michael nada disse naquele momento, continuando parado, logo atrs dela. Wendy podia sentir 
o calor do corpo dele. Queria-o desesperadamente, mas estava cansada de Michael saber disso e poder t-la sempre que desejava. J estava na hora de ela comear a 
tornar as coisas um pouco mais difceis para ele.
       - Eu a quero, Wendy.
       Todo o corpo dela ansiava por aquelas palavras, mas no iria entregar-se. Permaneceu de costas para ele, odiando a suavidade das mos dele a acariciarem suas 
costas e as ndegas, dando a volta para frente e subindo para os seios.
       - Como voc disse antes: e da?
       - Sabe que no posso agentar esse tipo de presso.
       A voz de Michael era to suave quanto a pele de Wendy.
        - No  presso, Michael.  amor. E o mais triste  que voc no conhece a diferena. Era assim tambm com ela?
       Wendy sentiu as mos dele pararem de repente, os braos ficarem rgidos. Mas ela no podia deter-se agora. Queria feri-lo fundo tambm.
       - Tambm tinha medo de am-la? Agora no precisa amar ningum e pode passar o resto de sua vida escondendo-se por trs da tragdia do quanto sente saudade 
dela. Isso resolve todos os seus problemas, no  mesmo?
       Ela virou-se lentamente para fit-lo e descobriu que os olhos  dele transbordavam de dio.
       - Como pode dizer uma coisa dessas? Como se atreve?
       Por um momento Michael pareceu a Wendy como a me dele, quase to implacvel, quase to cruel. Mas no o bastante. Ningum podia igualar Marion.
       - Como tem coragem de distorcer dessa maneira as coisas que lhe contei?
       - No estou distorcendo coisa alguma, apenas perguntando. Se estou enganada, lamento muito. Mas estou comeando a duvidar da possibilidade de estar enganada.
       Wendy encostou-se na pia, olhando para ele. Michael agarrou-a subitamente pelos ombros e puxou-a para si.
       - Michael...
       Mas ele no disse nada, apenas comprimiu a boca contra a dela, ao mesmo tempo em que arrancava a parte de cima do biquni. Depois, puxou com toda fora a 
parte de baixo, que no mesmo instante saiu em sua mo. Os fechos dourados nos lados haviam quebrado. A esta altura, Wendy j estava alcanando o cho da cozinha, 
nos braos dele, odiando mais a si mesma do que o odiava, por saber no fundo do corao que era justamente o que estava querendo. Pelo menos Michael estava vivo, 
pelo menos estava fazendo amor com ela, qualquer que fosse o motivo, o que quer que custasse. Mas custava muito e Wendy sabia disso. Estava custando uma parte de 
sua alma.
       E dez minutos depois ainda estavam deitados no cho da cozinha, ofegantes e cobertos de suor. Wendy podia ouvir o tique-taque do relgio da cozinha no silncio. 
Michael no disse nada. Apenas olhava para o jardim, parecendo estranhamente triste.
       - Voc est bem?
       Michael  que deveria estar fazendo essa pergunta, mas foi ela quem a formulou. Todo o caso era uma loucura total e Wendy sabia disso, mas nada podia fazer 
para se conter. s vezes, ela se perguntava o que aconteceria quando acabasse. Talvez ele mandasse Ben Avery despedi-la. Ela quase esperava por isso.
       - Michael... 
       - Hum? Eu... eu sinto muito, Wendy. H ocasies em que me comporto como um asno incomparvel.
       Havia lgrimas brilhando nos olhos dele.
       - No tenho certeza se posso discordar dessa declarao. 
       Wendy fitou-o com um sorriso triste e depois beijou-o na ponta do queixo. - Mas eu o amo, apesar de tudo.
       - Pode conseguir alguma coisa melhor, Wendy. - Pela primeira vez em meses, Michael contemplou-a e parecia estar realmente vendo-a. - H ocasies em que odeio 
a mim mesmo pelo que lhe estou fazendo. Mas eu...
       Michael no conseguiu continuar e Wendy ps um dedo sobre os lbios dele.
       - Eu sei.
       Ele assentiu silenciosamente e levantou-se, enquanto Wendy continuava a fit-lo do cho da cozinha.
       - Michael...
       - O que ?
       O rosto dele estava agora mais suave do que meia hora antes. No final das contas, Wendy fizera algo por ele.
       - Ainda sente saudade dela durante todo o tempo?
       Michael demorou por um longo momento antes de assentir, com expresso angustiada nos olhos. E depois, sem dizer mais nada, ele foi ao quarto para se vestir. 
Wendy levantou-se lentamente. No se preocupou com o biquni arrebentado. Afinal, j lhe servira bastante durante todo o vero e os pequenos fechos dourados provavelmente 
no poderiam ser consertados. Sentou-se, nua, num dos bancos do bar que separava a cozinha da sala, pensando no que vira nos olhos de Michael.
       Quando ele voltou  cozinha, alguns momentos depois, encontrou-a ainda sentada ali, imersa em seus pensamentos. Wendy levantou a cabea e no instante seguinte 
ficou pesarosa, ao v-lo usando jeans e uma camisa branca apertada no pescoo. Michael segurava sua pasta numa das mos e uma suter na outra. A pasta revelou a 
Wendy que ele iria mesmo para o escritrio, apesar de tudo, apesar de ser um domingo. O suter servia para indicar que ele ficaria no escritrio at tarde. Nenhuma 
das duas coisas era uma boa notcia para Wendy.
       - Vai voltar mais tarde? 
       Wendy odiou a si mesma pela pergunta. Estava pedindo... suplicando. E o pior  que Michael estava sacudindo a cabea negativamente.
       - Provavelmente vou trabalhar at duas ou trs horas da madrugada e depois irei para o meu apartamento. De qualquer forma terei de estar l pela manh para 
me vestir.
       O momento de suavidade de minutos antes havia desaparecido. Era novamente o mesmo Michael de antes, sempre fugindo. Wendy j o havia perdido nos 10 ou 15 
minutos que haviam transcorrido desde que tinham feito amor. Era uma situao sem esperana, mas ela detestava ter de renunciar  luta. Aquele tipo de rejeio s 
servia para faz-la querer tentar ainda mais arduamente, dar ainda mais de si.
       - Ento at amanh, no escritrio. 
       Ela se esforou em no parecer desolada, tentou at mesmo sorrir enquanto o acompanhava at a porta. Mas sentiu-se satisfeita quando Michael deixou-a rapidamente, 
roando os lbios por sua testa e saindo sem olhar para trs, porque ela j estava chorando ao fechar a porta. Michael Hillyard era uma causa perdida.


Captulo 16

       Os campos passavam velozmente por eles, enquanto Peter calcava at o fundo o acelerador do Porsche preto. Era uma sensao deliciosa, quase como voar. E no 
havia mais ningum na estrada. Agora, saam para um passeio quase todos os domingos. Peter pegava-a por volta das 11 horas e seguiam para o sul, to longe quanto 
queriam. Acabavam parando em algum lugar para almoar e depois passeavam por algum tempo de mos dadas, rindo das histrias do passado que ambos contavam. Finalmente 
voltavam para casa. Era um ritual que Nancy passara a adorar. E, de maneira estranha, estava comeando tambm a am-lo. Peter era agora uma pessoa muito especial 
em sua vida. Estava lhe devolvendo todos os seus sonhos, assim como lhe proporcionava alguns novos.
       Naquele dia haviam parado perto de Santa Cruz, em um pequeno restaurante  beira da estrada, decorado como uma estalagem francesa. Haviam almoado quiche 
e salada nioise, junto com vinho branco bastante seco. Nancy estava comeando a se acostumar a refeies como aquela. Era algo muito longe da Nova Inglaterra, feiras 
rurais e contas azuis. Peter Gregson era um homem de considervel sofisticao. O que era uma das coisas que Nancy gostava nele. Fazia com que ela se sentisse maravilhosamente 
frvola, mesmo com as ataduras e os chapus esquisitos. Mas agora j podia se ver um pouco mais de seu rosto. Toda a parte inferior do rosto estava acabada. Somente 
a rea em torno dos olhos ainda estava coberta por ataduras e esparadrapos, mas os culos ocultavam a maior parte. A testa tambm estava em grande parte coberta.
       Contudo, pelo que se podia ver, chegava-se  concluso de que Peter Gregson no apenas realizara um milagre, como tambm fizera um trabalho primoroso. A prpria 
Nancy estava consciente disso e o simples fato de saber como comeava a parecer proporcionava-lhe uma sensao de confiana cada vez maior. Usava agora os chapus 
em ngulos mais garbosos e passara a comprar roupas mais vistosas, de um corte mais sofisticado do que antes. Emagrecera mais trs quilos e parecia comprida e esguia, 
como um lindo gato da selva. E usava constantemente a sua nova voz. Estava gostando cada vez mais da nova pessoa em que se estava transformando.
       - Quer saber de uma coisa, Peter? Estive pensando em mudar meu nome.
       Nancy fez esta declarao com um sorriso tmido, ao tomar um gole de vinho. Por algum motivo, a idia parecera menos absurda ao conversar a respeito com Faye. 
Agora, arrependeu-se no mesmo instante por ter abordado o assunto. Mas Peter prontamente deixou-a  vontade.
       - Isso no me surpreende. Voc agora  uma moa inteiramente nova, Nancy. Por que no um novo nome? J lhe ocorreu algum nome especial?
       Peter fitou-a afetuosamente, enquanto acendia um Don Diego da Dunhill's. Nancy passara a gostar do aroma deles, especialmente depois de uma boa refeio. 
Peter a estava introduzindo s melhores coisas da vida. Era uma maneira deliciosa de amadurecer.
       - E ento, quem  a minha nova amiga? Como ela se chama?
       - Ainda no tenho certeza, mas estou pensando muito em adotar o nome de Marie Adamson. O que acha?
       Peter pensou por um momento e depois assentiu.
       - Nada mau... para dizer a verdade, gosto bastante. Muito mesmo. Como lhe ocorreu? 
       - O nome de minha freira predileta e o sobrenome de solteira de minha me.
       - Mas que combinao extica!
       Ambos riram e Nancy recostou-se na cadeira com um sorriso satisfeito. Marie Adamson. Ela gostava muito de seu novo nome.
       Observando-a atravs do vu de fumaa azul, Peter indagou:
       - E quando est pensando em mudar o nome?
       - No sei. Ainda no decidi.
       - Por que no comea a us-lo imediatamente? Experimente para ver se lhe agrada. Poderia, por exemplo, us-lo em seu trabalho.
       Peter parecia excitado com a idia. Sempre se mostrava excitado quando conversava a respeito do trabalho dela ou do seu prprio. E para surpresa e prazer 
de Nancy, encarava o trabalho dela  mesma luz que o dele, como se fossem igualmente importantes.  Aprendera a respeitar profundamente o talento de Nancy.
       - Falando srio, Nancy, por que no comea logo?
       - A assinar Marie Adamson nos trabalhos que lhe dou?
       Nancy achava divertida a maneira sria com que ele encarava tudo o que ela fazia. Peter e Faye eram as nicas pessoas que conheciam o seu trabalho.
       - Pode alargar um pouco seus horizontes.
       No era um assunto novo entre os dois. Nancy levantou a mo, e sacudiu a cabea firmemente, sorrindo.
       - No comece novamente.
       - Vou continuar a insistir at que seja um pouco mais sensata no assunto, Nancy. No pode ficar se escondendo para sempre.  uma artista, quer trabalhe com 
tintas ou com filmes.  um crime esconder seu trabalho da maneira como est fazendo. Tem de realizar uma exposio.
       - No. - Nancy tomou outro gole de vinho e contemplou a paisagem. - J tive todas as exposies que desejava.
       - Isso  timo... eu a recupero inteiramente para que se esconda num apartamento pelo resto da vida, tirando fotografias para mim.
       -  um destino to terrvel assim?
       - Para mim, no. - Ele sorriu gentilmente e segurou-lhe a mo. - Mas para voc, , sim. Tem talento demais, no deve ser avara com ele. No o esconda. No 
faa isso a si mesma. Por que no faz uma exposio com o nome de Marie Adamson? Poderia assim manter o anonimato. Se no gostar da exposio ou do que lhe acarretar, 
risque o nome de Marie Adamson e volte a tirar fotografias para mim. Mas pelo menos faa uma tentativa. At mesmo Greta Garbo foi um sucesso antes de se tornar uma 
reclusa. D a si mesma pelo menos uma chance.
       Havia um tom de splica na voz de Peter que a atraiu. E Peter tinha razo ao alegar o anonimato de seu novo nome. Talvez isso fizesse toda a diferena. Mas 
Nancy ainda sentia que haviam passado por aquilo mil vezes antes, sem que houvesse qualquer concluso. Algo nela resistia  idia de se tornar novamente uma artista 
profissional. Fazia com que se sentisse vulnervel. Fazia-a... pensar em Michael.
       - Vou pensar a respeito.
       Era a resposta mais positiva que Peter j obtivera em relao a este assunto, o que o deixou satisfeito. 
       - Espero que acabe se decidindo favoravelmente... Marie.
       Peter fitou-a com um sorriso radiante e ela no pde deixar de rir. 
       -  uma sensao estranha ter um novo nome.
       - Por qu? Tem um novo rosto. Tambm estranha isso? 
       - No. Ou pelo menos no mais. Graas a Faye e a voc, consegui acostumar-me.
       A maioria das mulheres daria o brao direito para se acostumar quele rosto e ela sabia disso.
       - Devo comear a cham-la de Marie?
       Peter estava apenas provocando, at ver uma nova luz nos olhos dela. Era um brilho travesso, maravilhoso, de vida a borbulhar.
       - Para ser franca... deve. Acho que vou fazer a experincia.
       - Certo, Marie. Se eu cometer um deslize, pode dar-me um piso no p.
       - No h problema. Em vez disso, vou acert-lo na cabea com a minha cmara.
       Peter pediu a conta e trocaram um sorriso prolongado e terno. Depois, passearam pela pequena cidade  beira do mar, espiando as lojas, embrenhando-se pelas 
vielas estreitas, entrando em galerias quando encontravam alguma coisa que lhes parecesse interessante. E por toda parte onde iam Fred corria logo atrs deles, igualmente 
acostumado ao ritual do domingo. Ele sempre esperava no carro enquanto os dois almoavam e os acompanhava nos passeios a seguir.
       - Cansada?
       Peter fitou-a atentamente, depois que j estavam passeando h uma hora. Embora ela estivesse gradativamente aumentando a sua resistncia, Peter sabia, mais 
que qualquer outra pessoa, como se cansava facilmente. Nos dezessete meses que haviam transcorrido desde o acidente, Nancy fora submetida a quatorze operaes. Mais 
outro ano se passaria antes que ela voltasse a ser como antes. Mas quem no a conhecesse bem, no iria suspeitar de suas fadigas ocasionais. Nancy sempre parecia 
bastante animada, mas uma hora de passeio ainda lhe exigia muito esforo.
       - J quer voltar? .
       - Por mais que eu deteste admitir, quero, sim.
       Ela assentiu tristemente, enquanto Peter lhe pegava a mo. 
       - Daqui a um ano, Marie, vai conseguir vencer-me em qualquer corrida.
       Ela riu, tanto da idia como da maneira fcil com que ele usou seu novo nome.
       - Aceitarei isso como um desafio.
       - Infelizmente, creio que vai ganhar. Possui uma grande vantagem do seu lado.
       - Qual ?
       - A juventude.
       - O que voc tambm tem.
       Ela falou fervorosamente, provocando uma risada de Peter, que sacudiu lentamente a cabea bonita.
       - Espero que me encare sempre atravs de olhos to generosos, minha cara.
       Mas quando ele virou a cabea, havia uma sombra de tristeza a lhe toldar os olhos. Ela apenas vislumbrou, mas j conhecia o problema. No havia como negar 
a diferena de idade entre os dois. No importava o quanto se gostassem, quo ntimos se houvessem tornado, no se podia negar a diferena de vinte e trs anos que 
os separava. Mas Nancy descobrira que no se importava com isso, at mesmo gostava. J o dissera antes a Peter e algumas vezes ele chegara a acreditar. Tudo dependia 
do nimo em que estivesse no momento. Mas ele jamais admitia o quanto isso o perturbava. Nancy era a primeira moa que o fizera querer ser jovem novamente, livrar-se 
de uma dcada ou talvez duas em sua idade. Haviam sido dcadas que ele apreciara intensamente, mas que descobria agora serem um fardo incmodo diante da juventude 
dela.
       - Nancy...
       O novo nome havia sido subitamente esquecido, enquanto ele a fitava com extrema seriedade, uma indagao em seus olhos. 
       - O que ?
       - Voc... ainda sente saudades dele?
       Havia tanta angstia nos olhos de Peter ao fazer a pergunta que ela sentiu vontade de abra-lo e dizer-lhe que estava tudo bem. Mas tambm no podia mentir 
para ele. Ficou surpresa ao descobrir que a pergunta lhe trouxe lgrimas aos olhos, enquanto assentia e dava de ombros.
       - s vezes. Nem sempre.
       Era uma resposta sincera.
       - Ainda o ama?
       Nancy fitou-o firmemente nos olhos, antes de responder:
       - No sei. Lembro-me dele como era, de ns como ramos. Mas nada disso continua a ser real. No sou mais a mesma pessoa e ele tambm no pode ser. O acidente 
deve ter deixado nele uma marca profunda. Talvez, se voltssemos a nos encontrar, acabssemos por descobrir que nada mais restou do que tnhamos juntos.  algo muito 
difcil de dizer. A gente fica apenas com sonhos do passado. H ocasies em que eu gostaria de tornar a encontr-lo, s para deixar tudo para trs. Mas eu... acabei 
chegando  concluso... de que nunca mais voltarei a v-lo.
       Ela falou com dificuldade, mas tambm incisivamente. Fez uma pausa, antes de arrematar:
       - E por isso tenho simplesmente de esquecer os sonhos. 
       - O que no se consegue facilmente. - A angstia nos olhos de Peter era agora ainda maior. De repente, Nancy comeou a se perguntar se ele no teria passado 
por alguma experincia similar. Talvez fosse por isso que ele sempre compreendera o que ela sentia.
       - Peter, por que nunca se casou? - Os dois estavam agora caminhando lentamente pela praia, com Fred em seus calcanhares, inteiramente esquecido. - Ou no 
devo perguntar?
       - No, pode perguntar. Acho que foi por muitas razes aparentemente sensatas. Sou egocntrico demais. Sempre andei muito ocupado com meu trabalho, que me 
absorveu totalmente a vida. Tudo isso e mais alguma coisa: sempre estou em movimento, no sou o tipo de homem de se acomodar.
       - No sei por que, no acredito nessas alegaes.
       Nancy fitou-o atentamente e ele sorriu.
       - Tambm no acredito. Mas h um pouco de verdade em todas as alegaes. - Peter fez uma pausa que parecia interminvel e depois suspirou. - H outras razes 
tambm. H doze anos, apaixonei-me por algum. Era uma paciente quando nos conhecemos e senti-me profundamente atrado. Mas evitei qualquer envolvimento pessoal. 
Ela nunca soube o que eu sentia at... at muito mais tarde. E parecamos fadados a estar nos encontrando constantemente. Em cada festa, jantar, em todas as reunies 
sociais ou profissionais.  que o marido dela tambm era mdico. Pois ela era casada. Resisti  "tentao", como se poderia dizer, durante um ano. E depois no consegui 
mais. Ns nos apaixonamos e passamos a nos encontrar em segredo. Foi maravilhoso.
       "Falamos em nos casar, fugir juntos, ter um filho. Mas nunca o fizemos. Queramos simplesmente que tudo continuasse como estava. E foi o que aconteceu, por 
doze anos. No posso compreender como conseguimos manter nosso relacionamento por tanto tempo, mas imagino que  assim mesmo que as coisas acontecem. Vo simplesmente 
continuando e continuando at que um dia a gente acorda e descobre que j se passaram dez anos. Ou onze ou doze anos. Continuamos a encontrar motivos para no nos 
casarmos, para que ela no se divorciasse... por causa do marido dela, minha carreira, sua famlia. Havia sempre motivos. Talvez preferssemos da maneira como era. 
No sei direito.
       Peter jamais admitira aquilo antes e Nancy ficou a observ-lo atentamente enquanto ele falava. Peter olhava para o horizonte e parecia estar a mil quilmetros 
de distncia dali, mesmo enquanto falava com ela.
       - Por que no pararam de se ver? Ou...
       Talvez tivessem. Nancy corou quando o pensamento lhe ocorreu. Talvez estivesse se intrometendo. Era possvel que houvesse muita coisa na vida de Peter que 
ela no conhecia e no tinha o direito de inquirir. Nunca pensara nisso antes.
       - Desculpe. Eu no deveria ter perguntado.  
       - No diga bobagem. - Os olhos e pensamentos de Peter voltaram a se concentrar nela, com a gentileza habitual. - No h nada que no possa me perguntar. No, 
ela morreu. H quatro anos, de cncer. Passei a maior parte do tempo a seu lado, exceto no ltimo dia. Acho... acho que Richard j sabia de tudo, no final. Mas no 
tinha mais qualquer importncia. Ambos a tnhamos perdido. Tenho a impresso de que ele estava grato pelo fato de ela no t-lo deixado anos antes. Ns a choramos 
juntos. Era uma mulher extraordinria... muito parecida com voc.
       Havia lgrimas nos olhos dele quando olhou para Nancy. Ela sentiu que as lgrimas tambm afloravam a seus prprios olhos. Sem pensar, Nancy levantou a mo 
e gentilmente removeu as lgrimas do rosto dele. Depois, sem retirar a mo de seu rosto, inclinou-se e beijou-o suavemente, nos lbios. Ficaram parados ali por longo 
momento, em silncio, os olhos fechados. E depois ela sentiu que os braos de Peter a enlaavam. Foi invadida por uma sensao de paz como h mais de um ano no 
sentia. Peter beijou-a com a paixo acumulada de quatro anos. Ele tivera outras mulheres depois que Lvia morrera, mas no amara nenhuma. At conhecer Nancy.
       - Sabe que eu a amo?
       Peter deu um passo para trs e fitou-a com um sorriso que ela nunca vira antes. F-la sentir-se ao mesmo tempo feliz e triste, porque no tinha certeza se 
j estava preparada para lhe dar tudo o que estava recebendo. Ela o amava, mas no... no da maneira como os olhos de Peter diziam que ele a amava.
       - Eu tambm o amo, Peter.  minha maneira peculiar.
       - O que  suficiente, por enquanto.
       Livia tambm lhe dissera a mesma coisa, no incio. Havia ocasies em que era assustador como as duas se pareciam.
       - Faye ajudou-me muito quando ela morreu. Foi por isso que pensei que Faye poderia tambm ajud-la.
       Faye o ajudara tambm por outros meios, mas isso no importava, no agora.
       - E tinha toda razo, Peter. Ela tem sido maravilhosa. Os dois tm sido. - Nancy pegou a mo dele e comearam a subir pela praia. - Peter... eu... eu no 
sei como dizer isso, mas... no quero mago-lo. Eu o amo, mas ainda estou presa ao meu passado. Tenho de me libertar, pouco a pouco, passo a passo. Pode demorar 
ainda algum tempo..
       - No estou com pressa. Sou um homem de extrema pacincia.
       - O que  timo, pois quero que esteja a meu lado quando eu estiver preparada.
       - Pode estar certa de que ir me ver a seu lado. No se preocupe com isso.
       E a maneira como ele falou fez com que Nancy se sentisse feliz e satisfeita. Perguntou se no seria possvel que o amasse mais do que imaginava. E enquanto 
caminhavam pela praia ocorreu-lhe um pensamento sbito. Assustou-a e ao mesmo tempo excitou-a. Mas ela sabia que queria faz-lo. Peter percebeu o brilho nos olhos 
dela quando o fitou, ao voltarem para o carro.
       - E o que exatamente tem escondido na manga?
       - No importa.
       - Oh, o que vai ser agora? - Algumas semanas antes, ela lhe telefonara ao amanhecer, para dizer que ele tinha de se levantar para contemplar o maravilhoso 
nascer do sol. - Nancy... no, Marie. Daqui por diante,  Marie e apenas Marie. Mas diga-me uma coisa: Marie  to extravagante quanto Nancy?
       - Mais ainda. Ela tem todos os tipos de novas idias.
       - Oh, no! Por favor, me poupe! - Mas Peter no dava a impresso de que queria mesmo ser poupado. Jamais. - No quer dar alguma pista do que est pensando? 
S uma pequena indicao?
       Mas ela se limitou a sacudir a cabea e rir, enquanto Fred pulava em seu colo e Peter ligava o motor.
       - Pois eu tambm tenho uma idia para voc. O trabalho em seu rosto ser feito no fim do ano. O que me diz de comear o novo ano com uma exposio de arte 
fotogrfica de Marie Adamson? Concordaria com essa idia?
       - Pode ser.
       Ela estava na verdade comeando a gostar da idia. Algo acontecera naquela tarde que a fazia sentir-se brava novamente. Talvez fosse por ter contado a Peter 
como se sentia em relao a Michael, por ter ouvido falar da mulher que ele amara... por  estar nos braos dele, sendo de novo beijada por um homem.
       - Vou pensar nessa exposio.
       - Pensar, no, tem de prometer. Na verdade... - Peter tirou a chave da ignio, meteu-a debaixo do seu corpo no assento e virou-se para ela, sorrindo. - No 
vou lev-la para casa at concordar com a exposio. E espero que seja uma dama para no lutar comigo a fim de pegar a chave.
       - Est bem. Voc venceu. - Ela afagou o plo de Fred e soltou uma risada. - Eu desisto. Farei a exposio.
       - To fcil assim?
       Peter estava surpreso.
       - To fcil assim. Mas como vou poder aparecer pessoalmente na exposio?
       - Deixe isso comigo. Negcio fechado?
       - Fechadssimo!
       Ela confiava nele com seu trabalho, assim como confiara com seu rosto e sua vida.
       - Garanto que no vai-se arrepender, querida. - Gentilmente, Peter pegou o rosto dela entre as mos, beijou-a e depois tornou a ligar o carro. Fora um dia 
maravilhoso.
       Voltaram para casa lentamente, pela costa. Foi com pesar que Peter parou o carro diante do prdio dela, s seis horas. Detestava ver aquele dia terminar, 
mas queria que ela descansasse.
        - Muito bem, minha jovem, tenha um sono tranqilo esta noite. Quero v-la amanh bem cedo no consultrio, alegre e viosa.
       Ele iria remover mais ataduras no dia seguinte e mais duas operaes estavam marcadas para os prximos dois meses. Em dezembro a cirurgia j estaria encerrada 
e ela seria "descoberta" em janeiro.
       - No quer subir?
       Ela no tinha realmente certeza se queria que ele subisse e ficou aliviada quando Peter disse que no.
       - Vamos jantar em algum dia desta semana. At l, j terei notcias para lhe dar a respeito da exposio.
       - No ficarei desapontada se no tiver.
       Peter sorriu e ela e Fred saltaram do carro. Nancy acenou ao se encaminhar para o prdio. Mas j estava pensando em outra coisa. Pensara a respeito na praia, 
ao se encaminharem para o carro, sabia agora que era algo que tinha de fazer. Algo que queria fazer. Foi diretamente para o armrio, sem tirar o casaco, remexeu 
atrs das roupas at encontrar. Tirou e ficou olhando por longo momento, antes de abrir. Estava coberto de poeira e ela sentia medo de abrir, mas tinha de faz-lo. 
Lentamente, puxou o zper e o portflio preto abriu-se a seus ps, revelando esboos, alguns quadros pequenos, trabalhos por terminar. O que estava procurando encontrava-se 
no alto da pilha. Sentou-se no cho e ficou contemplando o trabalho, pensativa. Tencionara d-lo a Michael como presente de casamento, um ano e meio antes. A paisagem 
com o menino escondido na rvore. Ficou sentada no cho, olhando para o quadro, as lgrimas escorrendo lentamente por suas faces. Levara dezoito meses para enfrentar 
novamente aquele trabalho. Mas tinha conseguido faz-lo agora e ia terminar o quadro. Para Peter.


Captulo 17

       Era um dia frio, mas agradvel. Marie baixou a aba do chapu, levantou a gola do casaco vermelho de l e percorreu rapidamente os ltimos quarteires at 
o consultrio de Faye Allison. Fred estava a seu lado, como sempre, a coleira e a correia exatamente do mesmo tom de vermelho do casaco. Nancy sorriu para o cachorro, 
ao virarem a ltima esquina. Ela estava bastante animada, com uma disposio que nem mesmo o nevoeiro conseguia arrefecer. Subiu correndo os degraus do consultrio 
de Faye e entrou.
       - Ei, cheguei!
       A voz ressoou pela casa simptica e aconchegante e um momento depois houve uma pronta resposta l de cima. Marie tirou o casaco. Estava usando um vestido 
branco simples, de l, com o broche de ouro que Peter lhe dera alguns meses antes. Quase distraidamente, ela se contemplou no espelho e ajeitou o chapu em um ngulo 
mais gracioso, sorrindo pelo que via. Os culos haviam finalmente desaparecido e podia contemplar olhos ao se ver no espelho. Somente uns poucos esparadrapos estreitos 
ainda permaneciam em seu rosto, no alto da testa. E esses tambm desapareceriam, dentro de poucas semanas. Estaria tudo acabado. O trabalho chegaria ao fim.
       - Est satisfeita com o que v, Nancy?
       Ela percebeu subitamente que Faye estava parada logo atrs, com um sorriso afetuoso no rosto. Assentiu.
       - Acho que estou. Agora, j estou at acostumada comigo mesma. Mas voc no est!
       Havia malcia em seus olhos quando se virou e olhou brejeiramente, para a amiga.
       - Como assim?
       - Continua a me chamar de "Nancy".  Marie agora, est lembrada? Oficialmente.
       - Desculpe. - Faye sacudiu a cabea e levou-a para a sala aconchegante onde sempre conversavam. - Estou sempre me esquecendo.
       - Exatamente. - Mas Marie no parecia aborrecida ao acomodar-se em sua poltrona predileta. - Acho que  muito difcil romper com os velhos hbitos.
       O rosto dela se tornou sombrio ao pronunciar tais palavras e Faye esperou pelo resto dos pensamentos.
        - Estive pensando muito nisso ultimamente. Mas acho que finalmente consegui super-lo.
       Ela falou baixo, olhando para o fogo, com expresso pensativa. 
       - A Michael? - Marie limitou-se a assentir e depois finalmente virou a cabea, com expresso de intensa seriedade. - O que a leva a pensar que conseguiu super-lo, 
Marie?
       - Acho que tomei essa deciso. No tenho muita opo. A verdade, Faye,  que j se passaram quase dois anos desde o acidente. Para ser mais exata, dezenove 
meses. E Michael ainda no me encontrou. No disse  me que fosse para o inferno, que ele tinha de ficar a meu lado e nada mais importava. Em vez disso, ele simplesmente 
me deixou de lado. - Os olhos dela procuraram os de Faye e se fixaram neles. - Ele me largou. E agora tenho de larg-lo tambm.
       - No  fcil. Esperou muito dele e por muito tempo. 
       - Por tempo demais. E ele me abandonou.
       - E como isso a faz sentir-se em relao a si mesma? 
       - Acho que bem. Estou furiosa com ele e no comigo. 
       - No est mais zangada consigo mesma pelo acordo que fez com a me dele?
       Faye estava pressionando numa rea delicada e sabia disso, mas era um problema que no podia ser ignorado.
       - No tive alternativa.
       A voz de Marie era dura e fria.
       - Mas no censura a si mesma? 
       - Por que deveria faz-lo? Acha que Michael censura a si mesmo por ter me abandonado? Por nunca ter-se dado ao trabalho de me procurar depois do acidente? 
Pensa que isso por acaso o faz passar as noites sem dormir?
       - Ainda faz voc passar as noites sem dormir, Nancy?  isso o que me interessa.
        - Marie, de uma vez por todas! E no, no faz. Decidi esquecer os sonhos. Tenho vivido com esse absurdo em mim por tempo demais.
       Ela parecia convincente, mas Faye ainda no tinha certeza absoluta de como a moa realmente se sentia.
       - E o que vai fazer agora?
       O que tomaria o lugar de Michael? Ou quem? Peter?
       - Agora vou trabalhar. Primeiro, vou tirar umas frias no sudoeste, durante os feriados de Natal. H algumas paisagens deslumbrantes por l e quero fotograf-las. 
J fiz meus planos. Arizona, Novo Mxico. Posso at pegar um avio e passar uns dois dias no Mxico.
       Marie parecia satisfeita ao falar, mas ainda havia alguma dureza em seu rosto, mascarando uma tristeza. Acabara de sofrer outra perda, ao renunciar finalmente 
de modo completo a Michael. Levara muito tempo para chegar a esse ponto.
       - Vou passar cerca de trs semanas viajando. Com isso, terei resolvido o problema dos feriados de fim de ano.
       - E depois? 
       - Trabalho, trabalho e mais trabalho. Isso  tudo o que me preocupa no momento. Peter j providenciou a exposio para mim. Vai ser em janeiro. E  melhor 
voc comparecer! 
       Faye sorriu.
       - Acha mesmo que eu perderia sua exposio por alguma coisa deste mundo?
       
       - Espero que no. J escolhi para a exposio alguns trabalhos que amo de verdade. Ainda no viu a maior parte. Nem Peter. Espero que ele tambm goste.
       - Peter vai gostar. Ele adora tudo o que voc faz. O que me leva a uma indagao, Nan... desculpe, Marie. E Peter? Como se sente em relao a ele?
       Marie suspirou, tornou a olhar para o fogo..
       - Sinto uma poro de coisas diferentes em relao a Peter.
       - Voc o ama?
       - De certa forma.
       - Ele pode algum dia substituir Michael em sua vida?
       - Talvez. Estou sempre tentando deix-lo ocupar o lugar de Michael, mas algo sempre me impede. No estou ainda preparada. No sei, Faye... eu me sinto culpada 
por no ter dado mais a Peter. Ele faz tanto por mim... E... sei o quanto se preocupa comigo.
       - Ele  um homem muito paciente.
       - Talvez paciente demais. Tenho medo de mago-lo. - Ela fitou novamente Faye nos olhos. Seus prprios olhos estavam conturbados. - Eu gosto muito dele. 
       - Ento simplesmente ter de conferir o que acontece. Talvez se sinta mais livre agora que decidiu deixar Michael sair de sua vida. - Faye percebeu que os 
msculos em torno da boca de Marie se contraram, quando ela ouviu tais palavras. - Marie? No vai renunciar s pessoas, no  mesmo? No vai renunciar ao amor?
       - Claro que no. Porque iria faz-lo?
       Mas a resposta foi apressada demais e excessivamente volvel.
       - No deve jamais fazer uma coisa dessas. Michael lhe falhou quando mais precisava dele,  verdade. Mas no se esquea de que ele  apenas um homem, no todos 
os homens.  algo que precisa sempre ter em mente. H algum neste mundo para voc. Talvez seja Peter, talvez seja algum outro homem.  unia moa muito bonita e 
est com 23 anos. Tem uma vida inteira pela frente.
       -  o que Peter tambm diz. - Mas Marie no dava a impresso de que acreditava nisso. E quando olhou novamente para Faye, foi com um sorriso nervoso, que 
procurava disfarar ao mesmo tempo o medo e o pesar. - Tomei tambm outra deciso.
        - Qual foi?
       - Em relao a ns. Acho que j consegui fazer o que precisava, Faye. Falei tudo o que queria por longo tempo. Agora, estou pronta para sair daqui, empenhar-me 
a fundo e vencer o mundo. 
       - Por que no simplesmente desfrut-lo?
       Havia alguma coisa na jovem que ainda preocupava Faye. Ela renunciara a alguma coisa. Havia algo em que ela no mais acreditava. Fora trada e, em certo sentido, 
estava desistindo. Estava disposta a lutar por seu trabalho, mas no por si mesma.
       - Voc recebeu um presente maravilhoso, Marie. O presente da beleza. No queira escond-lo por trs de uma cmara.
       Mas Marie a estava fitando com expresso dura e implacvel.
       - No foi um presente, Faye. Paguei por isso com tudo o que eu tinha.
       As duas trocaram votos de Feliz Natal quando Marie foi embora. Mas ainda havia um eco falso nas palavras, um vazio que ainda perturbava Faye, quando Marie 
Adamson ajeitou o chapu branco e deixou a casa com um aceno jovial para a sua amiga de dois anos, caminhando para a nova vida, deixando para trs tudo o que outrora 
amara.


Captulo 18

       Ao deixar o consultrio de Faye, Marie pegou um txi e seguiu direto para a Union Square. J fizera a reserva e tudo que precisava agora era passar na loja 
e pagar a passagem. Seria a primeira viagem que faria em anos, a primeira desde o fim de semana que passara com Michael nas Bermudas. Fora na Pscoa e... Ela forou 
o pensamento a deixar sua mente, enquanto o txi descia pela Post Street, no trfego intenso do centro da cidade. Fred estava sentado em seu colo, olhando para os 
carros que passavam e virando a cabea de vez em quando para fitar a dona. Podia sentir algo diferente. Havia uma vivacidade em Marie que at mesmo o cachorrinho 
podia perceber. Ela tirou um cigarro da bolsa e acendeu-o.
       - Est bom aqui, moa?
       O motorista havia parado na esquina da Post com a Powell, perto do Saint Francis Hotel. Marie apressou-se em assentir.  
       - Est, sim.
       Ela pagou a corrida, abriu a porta do txi e deixou Fred pular para a calada. Seguiu-o rapidamente, deixou o cigarro cair no cho e apagou-o com o p. A 
loja ficava a poucos passos de distncia e um momento depois ela estava l dentro. Para variar, no havia fila. Mas tambm ainda era cedo. Afinal, seus encontros 
com Faye eram sempre s 8h45min. Eram... tinham sido... Ela compreendeu mais uma vez que tudo acabara agora. Estava livre. No mais iria consultar uma psiquiatra. 
O pensamento deixou-a um pouco assustada. Sentia-se tanto liberta como solitria, assim como comemorar e chorar ao mesmo tempo.
       - Em que posso servi-la? - A moa por trs do balco fitou-a com um sorriso, que Marie retribuiu. - Veio pegar passagens?
       - Exatamente. Fiz reserva na semana passada. Adamson... isto , McAllister.
       Era estranho usar novamente seu nome antigo. H dois meses que no o fazia. Mas at mesmo a viagem era simblica. Legalmente, seu nome s mudaria em 1 de 
janeiro. Ao voltar, no seria mais Nancy McAIlister, mas sim Marie Adamson. Para sempre. Mas quando partisse, ainda seria Nancy. Era quase como uma viagem de npcias, 
em que ela iria sozinha. Era o passo final no processo interminvel que se prolongara por quase dois anos. Marie Adamson ia finalmente nascer. Oficialmente. E Nancy 
McAllister poderia ser esquecida para sempre. Michael a esquecera; agora, ela poderia tambm esquecer-se a si mesma. No restava ningum para lembrar. Peter providenciara 
tudo.
       Ningum que a conhecera antes poderia reconhec-la agora. O rosto delicado e perfeitamente delineado era o de algum que outras mulheres sonhavam ser, mas 
no o de uma pessoa que ela tivesse conhecido ao longo dos ltimos 24 anos. No era mais uma estranha, mas tambm no era Nancy McAllister. E a voz tambm era diferente, 
mais suave, mais profunda, mais controlada. Era uma voz sutil, com tons sensuais. Ela gostava da maneira como as pessoas a escutavam agora, como se tivesse mais 
a dizer depois que passara a ter uma maneira diferente de falar. As mos eram graciosas e delicadas, os movimentos mais suaves e geis, depois das aulas de bal 
que Peter finalmente lhe permitira tomar, depois que o trabalho dele ficara bastante adiantado. O ioga acrescentara algo mais ao todo. E tudo contribua para rematar 
a imagem de Marie Adamson.
       - O preo  cento e noventa e seis dlares.
       A moa atrs do balco olhou para o computador e depois para a cliente de p a sua frente. No conseguia tirar os olhos dela. Tinha as feies perfeitas, 
um sorriso cativante, uma graciosidade que prendia a ateno de todos quando se movia. Tudo naquela mulher dava vontade de perguntar: "quem  ela?" Marie preencheu 
o cheque, recebeu a passagem e saiu para o sol de dezembro na Union Square. Levava Fred nos braos, para que ele no se metesse entre suas pernas enquanto andava. 
Sorriu para si mesma ao atravessar a praa. Era um dia maravilhoso e ela tinha uma vida maravilhosa. Ia viajar durante os feriados de fim de ano, chegara ao fim 
daquelas operaes interminveis, estava comeando uma vida nova, uma carreira nova. Tinha um apartamento que amava, um homem a quem amava. No podia pedir muito 
mais.
       Entrou numa loja com um sorriso no rosto e passos vigorosos, decidida a comprar algo bonito para si mesma. Um presente de Natal para si. Ou talvez algo para 
a viagem. Vagueou de andar para andar da loja de departamentos, experimentando chapus, pulseiras, charpes, casacos, bolsas, um par de botas e um par de sapatos 
dourados. Finalmente se decidiu por uma suter branca de casimira, que a fez ficar parecendo com Branca de Neve, por sua pele sedosa e os cabelos pretos. A idia 
divertiu-a. E sabia que Peter iria gostar. A suter moldava seu corpo de forma bastante atraente. At mesmo seu corpo mudara ao longo do ltimo ano, com o bal e 
o ioga. Parecia ter-se tornado mais rijo e flexvel, fazendo-a parecer comprida e esguia, maravilhosamente esbelta.
       Marie desceu novamente para o andar principal, vendo os artigos em exposio, observando as pessoas. Parou novamente para comprar uma caixa de bombons para 
Faye. Era um presente festivo apropriado para o ltimo dia de tratamento. Escreveu apenas no carto: "'Obrigada. Com amor, Marie." O que mais poderia dizer? Obrigada 
por ajudar-me a esquecer Michael? Obrigada por me ajudar a sobreviver? Obrigada... Enquanto se entregava a tais pensamentos, parou abruptamente. Parecia ter visto 
um fantasma. Quando a vendedora lhe devolveu o carto de crdito, ela continuou a olhar fixamente. Ben Avery estava parado a poucos passos de distncia, olhando 
algumas malas de mulher bastante caras. Marie permaneceu no mesmo lugar pelo que lhe pareceu uma eternidade. Depois, chegou mais perto. Tinha de v-lo, toc-lo, 
ouvir o que ele estava dizendo. Por um momento angustioso, perguntou-se se ele a reconheceria. Rezou para que isso acontecesse, mas no instante seguinte compreendeu 
que era impossvel e forou-se a ficar contente por isso. Assim, poderia observ-lo, ficar perto dele, por tanto tempo quanto desejasse. Perguntou-se se Ben teria 
visto Michael recentemente, se acabara aceitando o emprego na firma. Aproximou-se do lugar em que Ben estava e fingiu examinar algumas pastas de camura. Os olhos 
dela no se afastavam do rosto de Ben. De repente, ele se virou para fit-la, exibindo seu sorriso jovial de sempre. Mas no houve qualquer brilho de reconhecimento. 
Em vez disso, ele a contemplou com admirao e depois estendeu a mo para Fred.
       - Oi, companheiro.
       A voz era to familiar que Marie sentiu-se quase desfalecer.
       Continuou parada onde estava sentindo o calor da mo de Ben a afagar o cachorro. Nunca teria imaginado que o simples fato de ver um amigo de Michael a deixaria 
assim. Mas era o primeiro vnculo que tinha com ele desde... Ela piscou os olhos rapidamente, para conter as lgrimas, depois olhou para as malas que Ben estivera 
examinando. Sem pensar, Marie levou a mo  corrente que Ben lhe dera no dia em que deveria casar-se e que ainda usava no pescoo.
       - Comprando presentes de Natal?
       Ela se sentiu meio tola ao puxar conversa daquela maneira, mas queria falar um pouco com Ben. Perguntou-se novamente se ele no iria reconhec-la, desta vez 
pela voz. Mas at mesmo ela sabia como sua voz soava diferente agora. E ele a presenteou novamente com o mesmo sorriso impassvel que dois estranhos costumam trocar.
       - Isso mesmo.  para uma jovem, mas no consigo decidir o que comprar.
       - Como  ela?
       - Sensacional.
       Marie no pde deixar de rir. Era o mesmo Ben de sempre.
       Ela sentiu vontade de perguntar-lhe se desta vez era a srio, mas sabia que no podia.
       - Ela tem os cabelos vermelhos e ... mais ou menos de sua altura.
       Ele estava novamente contemplando Marie, os olhos percorrendo o corpo dela quase sofregamente. Marie no sabia se devia rir ou ficar perturbada. Aquela era 
uma atitude tpica de Ben.
       - Tem certeza de que ela est querendo uma mala?
       Parecia um presente inteiramente inspido para Marie. Ela estava esperando ganhar algum presente mais cativante de Peter. Talvez uma nova lente.
       - Vamos fazer uma viagem juntos e por isso eu pensei... E a viagem  uma espcie de surpresa. Por isso, pensei em esconder as passagens na mala.
       Cerca de 500 dlares numa mala importada para esconder algumas passagens? Mas que extravagncia, Benjamin Avery! Os ltimos dois anos deviam ter sido muito 
bons para ele.
       - Ela  uma moa de sorte.
       - No. Eu  que sou um cara de sorte.
       - Por acaso  uma lua-de-mel?
       Marie ficou embaraada por sua bisbilhotice, mas era maravilhoso receber todas aquelas notcias dele. E talvez... talvez Ben pudesse... Ela manteve o sorriso 
frio, simptico e impessoal, enquanto ele sacudia a cabea.
       - No.  apenas uma viagem de negcios. Mas ela ainda no sabe disso. E ento, qual  sua opinio? Levo a mala de camura marrom ou aquela verde escura?
       - A de camura marrom, com a listra vermelha. Acho que  maravilhosa.
       - Tambm acho.
       Ben concordou alegremente com a escolha de Marie e fez sinal para a vendedora. Comprou trs malas da mesma coleo e pediu que fossem enviadas de avio para 
Nova York. O que significa que era l que ele estava morando. O que deu o que pensar a Marie.
       - Obrigado pela ajuda, Srta....
       - Adamson. Gostei muito de nossa conversa e peo desculpas se fiz perguntas demais.  que os feriados de fim de ano sempre produzem um efeito estranho em 
mim.
       - Em mim tambm. Mas isso  compreensvel, por que  uma das pocas mais agradveis do ano. At mesmo em Nova York, o que j  dizer muito.
       - Mora em Nova York?
       - Quando estou em casa. Viajo constantemente, em funo de meu trabalho.
       O que ainda no dizia a Marie se ele estava trabalhando para Michael. Mas ela sabia que no podia perguntar. E, subitamente, isso a deixou angustiada, estar 
parada ali, to perto de Ben, querendo saber de algum que no mais existia para ela... ou no deveria existir. Ben contemplou-a novamente, como se houvesse alguma 
coisa nela que o perturbava. Por um momento, Marie sentiu o corao parar. Mas o sorriso dele mostrava que no tinha a menor idia de quem ela era. Marie puxou um 
pouco o chapu para certificar-se de que ele no poderia ver o ltimo esparadrapo que ainda tinha no rosto. Apertou Fred um pouco mais nos braos, enquanto Ben continuava 
a fit-la.
       - Sei que  uma loucura perguntar isso, mas... posso convid-la para tomar um drinque em algum lugar? Meu avio vai partir dentro de algumas horas, mas podemos 
dar um pulo at o St. Francis, se...
       Marie retribuiu o sorriso, mas j estava sacudindo a cabea.
        - Infelizmente, tambm tenho de pegar um avio. De qual quer forma, obrigada pelo convite, Sr. Avery.
       E nesse momento o sorriso de Ben dissipou-se lentamente. 
       - Como soube o meu nome?
       - Ouvi a vendedora dz-lo.
       Ela deu a resposta prontamente e Ben deu de ombros, passando a fit-la com pesar. Era uma jovem extraordinariamente bonita. E no importava o quanto ele passara 
a amar Wendy nos trs meses em que mantinham um romance, ainda podia tomar um drinque com uma moa bonita. Era uma pena que ela tambm estivesse deixando a cidade. 
E depois um pensamento ocorreu-lhe.
       - Para onde est indo, Srta. Adamson?
       - Santa F, Novo Mxico.
       Ben pareceu ficar desapontado como um colegial, e ela riu da expresso dele.
       -  uma pena. Eu estava torcendo para que fosse tambm para Nova York. Poderamos pelo menos desfrutar o vo juntos.
       - Tenho certeza de que a jovem que vai ganhar as malas h de apreciar uma viagem em sua companhia.
       Os olhos dela eram de censura, mas sem exagero. Os dois riram desta vez.
       - Touch. Talvez na prxima vez possamos voar juntos.
       - Vem a So Francisco com freqncia?
       Marie estava intrigada.
       - No, mas passarei a vir. - E depois, olhando para as malas e sorrindo, Ben acrescentou: - Ns passaremos a vir. Minha firma est iniciando um grande projeto 
aqui. Provavelmente passarei mais tempo em So Francisco do que em Nova York.
       - Ento  possvel que voltemos a nos encontrar.
       Mas a voz dela soava quase triste. No final das contas, era apenas Ben. No importava com que freqncia o visse, ele jamais poderia ser Michael. A vendedora 
interrompeu seus devaneios e Marie compreendeu que j estava na hora de ir embora. Ficou olhando para Ben, enquanto ele preenchia o cheque no valor indicado pela 
vendedora. Depois, silenciosamente, apertou o brao dele. Ben virou a cabea, surpreso, e Marie sussurou, a voz quase inaudvel.
       - Feliz Natal.
       E no instante seguinte afastou-se do lugar em que tinha ficado a conversar por quase meia hora. Ben olhou ao redor depois que acabou de preencher o cheque 
e ficou surpreso ao constatar que a jovem havia desaparecido. Ela se afastara abruptamente. Ben ainda procurou pela loja repleta dos fregueses de Natal, mas no 
a viu em parte alguma. Marie sara por uma porta lateral e naquele momento fazia sinal para um txi. Sentia-se cansada e deprimida. Fora uma longa manh.
       Ela deu ao motorista o endereo do veterinrio, deixou Fred l e voltou no mesmo txi para seu prdio de apartamentos. J tinha arrumado a mala. Tudo o que 
precisava fazer era peg-la e seguir para o aeroporto. Sentia-se um pouco cruel ao deixar Fred para trs, mas desta vez no o queria realmente em sua companhia. 
Ia parar em muitos lugares nas trs semanas. Era uma viagem que precisava fazer sozinha. Seus ltimos momentos como Nancy McAllister, o fim de uma vida antiga, o 
incio de uma vida nova. Ela deu uma ltima olhada pelo apartamento antes de partir, como se esperasse nunca mais tornar a v-lo da mesma maneira. Ao fechar a porta, 
lentamente, sussurrou uma nica palavra. Disse-a para si mesma, para Ben e Michael, para todas as pessoas que tinha outrora amado e conhecido... adeus. Havia lgrimas 
em seus olhos quando desceu rapidamente a escada, com a sacola da cmara pendurada no ombro e apertando com fora a ala da mala.


Captulo 19

       Ela no permitiu que Peter fosse receb-la no aeroporto. Assim como partira sozinha, queria agora voltar sozinha. Houve algo mgico na viagem. Havia sido 
um perodo de paz e de trabalho rduo. No conversava com quase ningum, limitando-se a observar, a mergulhar nos prprios pensamentos. Mas  medida que os dias 
passavam, os pensamentos iam-se tornando menos tensos do que no dia em que deixara So Francisco. Ver Ben Avery novamente fora um golpe. Revivera recordaes demais. 
Mas agora estava tudo acabado. E ela sabia disso. Podia conviver com as recordaes. Sua nova vida comeara.
       O dia de Natal perdeu-se entre muitos outros, enquanto ela tirava fotografias na neve, em torno de Taos. Sentiu-se tentada a esquiar, mas no o fez. Prometera 
a Peter evitar o risco de um acidente ou sol em demasia. E cumprira a promessa. Assim como Peter tambm o fizera. Marie o avisara da data em que voltaria, mas pedira-lhe 
que no fosse esper-la no aeroporto. E Peter no fora. Ela correu os olhos pelo aeroporto, aliviada. Estava sozinha entre um exrcito de estranhos. Era confortador 
estar perdida na multido. Fazia-a sentir-se invisvel e segura. Passara muito tempo aprendendo a ser invisvel no ltimo ano e meio. Coberta por ataduras na maior 
parte do tempo, pensava que era muito importante no ser vista. Agora, atraa mais ateno do que na poca em que estava envolta por ataduras. A maneira como se 
movia, o chapu preto de aba larga que comprara na viagem para ocultar as ltimas ataduras na testa, a cala Levis preta e o casaco de pele de carneiro, tudo contribua 
para aumentar sua visibilidade, simplesmente porque era difcil ocultar o tipo de aparncia que ela possua. Mas Marie ainda no estava consciente de como era atraente.
       Pegou um txi ao sair do terminal, deu o endereo ao motorista e recostou-se no assento, com um suspiro. Estava cansada. Eram quase 11 horas e levantara-se 
s cinco horas daquela manh para tirar fotografias. Olhou para o relgio e prometeu que estaria na cama por volta de meio-dia. Tinha de estar. Amanh seria outro 
grande dia. Ficara fora at o ltimo momento. s nove horas da manh seguinte, Peter removeria a ltima atadura. Ningum mais percebia que ela ainda estava usando 
uma atadura. Mas Marie sabia. E agora at mesmo isso iria desaparecer. Iria passar a manh sozinha, depois de sair do consultrio de Peter, em seguida voltariam 
a encontrar-se para um almoo de comemorao. No haveria mais operaes, pontos, ataduras e esparadrapos. Era agora como qualquer outra pessoa. At mesmo seu novo 
nome tornara-se legal. Marie Adamson nascera.
       O motorista deixou-a na frente do prdio e ela subiu lentamente a escada, como se estivesse esperando encontrar um apartamento diferente do que deixara. Mas 
era o mesmo e Marie ficou um tanto surpresa por experimentar uma sensao de anticlmax. E depois riu de si mesma. O que estava querendo? Dissera a Peter que no 
devia ficar a sua espera. Por acaso esperava uma banda toda uniformizada escondida no quarto? Peter debaixo da cama? Esperava alguma coisa, no sabia direito o qu. 
Tirou as roupas e deitou-se na cama, pensando no que viera encontrar. Tinha muita coisa na mente. Como seria a sua vida agora que o trabalho de Peter em seu rosto 
terminava? E se ela nunca mais tornasse a v-lo? Mas isso era absurdo e Marie o sabia. Ele  que providenciara a exposio dos trabalhos dela, que seria inaugurada 
no dia seguinte  "revelao" final do rosto de Marie. Ele gostava dela como pessoa, no apenas como um trabalho de reconstruo. E Marie sabia disso. Mas sentia-se 
estranhamente insegura, deitada em seu quarto, no escuro, querendo a presena de algum que lhe dissesse que estava tudo bem, que no estava sozinha, que conseguiria 
seguir em frente como Marie Adamson.
       - Oh, diabo! Que importncia tem se estou sozinha?
       Ela se levantou bruscamente e foi contemplar-se no espelho, ao dizer as palavras. Irritada, pegou a cmara e quase a acariciou. Era tudo o que precisava. 
Estava simplesmente cansada da viagem. Era uma estupidez preocupar-se com a possibilidade de se sentir solitria, com o futuro com Peter... Com um suspiro, Marie 
voltou para a cama. Tinha coisas melhores em que pensar como o seu trabalho.
       Marie acordou por volta de seis horas da manh seguinte. Vestiu-se e saiu de casa s sete e meia. Ao chegar ao consultrio de Peter, s nove horas, j estivera 
no mercado de legumes e frutas e no mercado de flores, para tirar fotografias. E acrescentara mais algumas fotos  sua coleo de Chinatown. E finalmente fora buscar 
Fred no veterinrio.
       - Ei, mas como voc parece animada esta manh... e linda tambm! Adorei o casaco!
       Peter contemplou com admirao o casaco feito de pele de coiote que Marie comprara a um preo nfimo numa reserva do Novo Mxico. Ela estava ainda de jeans, 
com uma suter preta de gola rol e botas. E usara o chapu preto de aba larga at chegar ao consultrio. Agora, Marie segurou o chapu nas mos por um momento e 
sorriu, de um jeito que Peter nunca vira antes. Depois ela equilibrou o chapu sobre a cesta de papel por uma frao de segundo, antes de empurr-lo at o fundo, 
amassando-o completamente.
       - Esta, Dr. Gregson, foi a ltima vez e nunca mais usarei um chapu.
       Ele assentiu. Podia compreender como aquele gesto era importante.
       - Nunca mais ter de usar.
       - Graas a voc.
       Marie sentia vontade de beij-lo, mas seus olhos diziam tudo o que Peter precisava saber. E enquanto o fitava, ela descobriu que sentira saudade dele durante 
a viagem. Peter era agora uma pessoa diferente para ela. No mais continuaria a ser seu mdico, depois daquela manh. Seria um amigo e qualquer coisa a mais que 
Marie lhe permitisse. Ainda no haviam resolvido isso, apesar das muitas vezes com que Peter lhe dissera que a amava. Marie ainda no dera o ltimo passo e Peter 
nunca a pressionara.
       - Senti muita saudade de voc, Peter.
       Ela tocou no brao dele gentilmente, ao sentar-se na cadeira que tanto conhecia. Fechou os olhos e ficou esperando.
       Peter contemplou-a por um momento, parado na frente dela. Depois, sentou-se na cadeira giratria que sempre ocupava.
       - Est com pressa esta manh.
       - Depois de 20 meses, tambm no estaria?
       - Eu compreendo, querida, eu compreendo...
       Marie ouviu o barulho dos instrumentos delicados na pequena bandeja de metal e sentiu o esparadrapo sendo lentamente arrancado de sua testa e linha dos cabelos. 
A cada milmetro de pele que era libertada, ela se sentia muito mais livre, at que finalmente percebeu que tudo se desprendia.
       - Pode abrir os olhos agora, Marie. E d uma olhada no espelho. Ela fizera a mesma coisa mil vezes. A princpio, apenas para ter um pequeno vislumbre, uma 
mera promessa, para que em seguida pedaos cada vez maiores do quebra-cabea fossem se enquadrando em seus lugares. Porm jamais vira o rosto de Marie Adamson livre 
de esparadrapo, ataduras, pontos ou qualquer outro lembrete do que estava sendo feito. No via o seu rosto inteiramente desobstrudo desde que havia sido o rosto 
de Nancy McAllister, quase dois anos antes.
       - Vamos, d uma olhada.
       Era absurdo. Ela estava quase com medo de olhar. Mas, silenciosamente, levantou-se e caminhou lentamente at o espelho. Parou ali, com um sorriso amplo, dois 
filetes de lgrimas brilhando nas faces. Peter estava de p atrs dela, a alguma distncia. Queria deix-la sozinha. Aquele momento era dela.
       - Oh, Peter, est lindo!
       Ele riu suavemente.
       - No  "est lindo" e sim voc est linda, sua tolinha.  agora voc.
       Marie s podia assentir. Depois, virou-se para fit-lo. No era tanto o fato dos ltimos esparadrapos terem sido removidos de sua testa, pois no representara 
uma mudana to grande em seu rosto, mas sim porque estava tudo acabado. Ela era agora inteiramente Marie...
       - Oh, Peter...
       Sem dizer mais nada, Marie foi aconchegar-se nos braos dele e apertou-o com fora. Ficaram assim, no consultrio dele, por longo tempo. Depois, Peter desvencilhou-se 
do abrao e gentilmente enxugou as lgrimas dela.
       - Est vendo, Peter? Posso at ficar molhada e no me derreto.
       - E pode tambm tomar sol, embora no excessivamente. E pode fazer tudo o que quiser pelo resto da vida. Qual  a primeira coisa da agenda?
       - Trabalho.
       Marie soltou uma risada e sentou-se na pequena cadeira giratria que ele abandonara. Erguendo as pernas at o queixo, deu impulso para ficar rodando.
       - Oh, Deus, isso  tudo o que estou precisando agora! Ela vai quebrar a perna no meu consultrio!
       - Mesmo que eu quebre, querido, de qualquer maneira sairei andando daqui. Tenho uma vida nova para comemorar esta manh.
       - Fico contente em saber disso.
       E aparentemente Fred tambm estava contente. Comeou a pular, abanando o rabo, como se tivesse compreendido o que sua dona dissera. Ambos riram e Peter abaixou-se 
para afagar a cabea do cachorro.
       - Nosso almoo ainda est de p?
       Havia uma expresso de ansiedade nos olhos dele e Marie ficou comovida. Compreendia o que ele estava sentindo tambm. Abandono. Ansiedade. Ser que ela ainda 
iria quer-lo em sua vida, quando no mais precisasse dele? Peter parecia-lhe extremamente vulnervel, parado ali. Marie estendeu-lhe a mo.
       - Claro que vamos almoar juntos, seu tolo. Peter... Os olhos de Marie estavam fixados nos dele. - Sempre haver tempo na minha vida para voc. Sempre. Espero 
que saiba disso. Voc  a nica razo pela qual tenho uma vida.
       - No. Algum mais  responsvel por isso.
       Marion Hillyard. Mas Peter sabia quanto ela detestava ouvir o nome daquela mulher e por isso absteve-se de pronunci-lo. Jamais havia compreendido por que 
Marie reagia daquela maneira, mas fazia-lhe a vontade na questo.
       - Estou contente por me encontrar em condies de ajudar. E sempre estarei pronto para ajudar, se precisar de mim...para... para outras coisas.
       - timo. Ento no se esquea de que vai ter de me alimentar ao meio-dia e meia. - A conversa j tinha sido sria por tempo suficiente. Marie levantou-se 
e vestiu o casaco de pele de coiote. - Onde vamos nos encontrar?
       Peter sugeriu um novo restaurante na zona do porto, de onde poderiam contemplar rebocadores, barcas e petroleiros cruzando  a baa, alm das colinas de Berkeley 
ao longe.
       - Est bom assim?
       - Est timo. Sou capaz de passar toda a manh por l, tirando fotografias.
       - Eu ficaria desapontado se decidisse fazer qualquer outra coisa.
       Peter abriu a porta da sala de exame com uma mesura e Marie piscou-lhe um olho ao sair. Mas ela no foi diretamente para a rea do porto, como dissera que 
faria. Em vez disso, foi para o centro, a fim de fazer compras. Subitamente, sentira o desejo de comprar algo fabuloso para usar no almoo com Peter. Era o dia mais 
especial de sua vida e queria desfrut-lo plenamente. No txi, verificou o talo de cheques e sentiu-se feliz por ter conseguido ganhar algum dinheiro antes do Natal, 
com seu trabalho. Isso lhe permitiria ser extravagante para si mesma e ainda comprar alguma coisa para Peter.
       Encontrou um vestido bege de casimira que se moldava em seu corpo de maneira espetacular, sob o casaco de pele. Parou em um cabeleireiro e ajeitou os cabelos. 
Era a primeira vez em anos que usava os cabelos penteados para trs, revelando todo o seu rosto. Comprou brincos de ouro grandes e um cordo bege de cetim com uma 
concha de ouro pendurada. Com mais os sapatos e uma bolsa beges de camura, alm do perfume que mais gostava, estava pronta para o almoo com o Dr. Peter Gregson. 
Ou com qualquer outra pessoa. Era uma mulher que teria paralisado o corao de qualquer homem.
       Sua ltima parada foi na Shreve's, onde encontrou, como se fosse algum plano pr-estabelecido, exatamente o que estava procurando, mas no imaginava que poderia 
descobrir. Era uma pequena medalha de ouro, feita para berloque de corrente de relgio. Marie sabia que Peter possua um relgio de bolso de que gostava muito e 
usava ocasionalmente. Ela mandaria gravar a data mais tarde, mas por enquanto isso seria suficiente. Mandou embrulhar para presente, pegou um txi e chegou ao restaurante 
no instante mesmo em que Peter estava sentando. Ela teve a sensao de que poderia explodir de alegria ao observar o rosto dele contemplando-a enquanto se aproximava. 
Havia diversos outros homens no restaurante que tambm a contemplavam com admirao, mas nenhum com a ternura de Peter Gregson.
       -  mesmo voc?
       - Cinderela ao seu dispor. Aprova?
       - Se aprovo? Estou atordoado. O que fez esta manh? Andou fazendo compras?
       - Exatamente. Este  um dia muito especial.
       Marie fazia coisas com os sentimentos dele que Peter pensara que fossem impossveis. Ele sentiu vontade de beij-la ali mesmo, no restaurante. Em vez disso, 
apertou-lhe a mo com fora e sorriu, um sorriso prolongado e feliz.
       - Estou imensamente contente por v-la feliz, querida.
       - E pode estar certo de que me sinto mesmo muito feliz. Mas no  apenas por causa do rosto. H tambm a exposio amanh e... e meu trabalho, minha vida... 
e... voc.
       Ela pronunciou a ltima palavra suavemente.
       Aquele momento significava tanto para Peter que ele tinha ele atenuar a solenidade.
       - Eu s entro depois de todas essas coisas, hem? E onde Fred se inclui?
       Ambos riram e Peter pediu Bloody Marys. Depois, pensou melhor e mudou o pedido para champanhe.
       - Champanhe? Santo Deus!
       - Por que no? E fechei o consultrio pelo resto da tarde. Estou to livre quanto  possvel... a menos,  claro... - Peter nem mesmo pensara antes em tal 
possibilidade. - ... que voc tenha outros planos.
       - Para fazer o que, pelo amor de Deus?
       - Trabalhar?
       Peter sentiu-se acanhado s de fazer a pergunta.
       - No seja bobo. Vamos divertir-nos bastante hoje.
       Ele riu ao ouvir a resposta.
       - O que, por exemplo? Diga o que mais gostaria de fazer.
       Marie pensou um pouco, mas no conseguiu encontrar qualquer boa idia. Depois, porm, fitou-o com um sorriso brejeiro  e disse:
       - Vamos  praia.
       - Em janeiro?
       - Claro. Afinal de contas, estamos na Califrnia e no em Vermont. Podemos ir de carro at Stinson e darmos um passeio pela praia.
       - Est certo. No resta a menor dvida de que voc  uma pessoa fcil de satisfazer...
       Mas os passeios pela praia com Peter haviam-se tornado algo muito especial para Marie e ela queria um lugar bastante especial para entregar-lhe o presente. 
S que no tinha certeza se conseguiria resistir at l. Mas o fez. Esperou at o final da tarde, quando estavam passeando de mos dadas pela praia varrida pelo 
vento. O casaco de pele protegia Marie da brisa constante que passara a soprar com a chegada do nevoeiro.
       - Tenho uma coisa para voc, Peter.
       Ele a fitou com uma expresso de surpresa quando ela parou de andar. Parecia no estar entendendo direito, at que ela lhe estendeu a caixa pequena.
       - Mandarei gravar depois, se no se incomodar...
       - Marie, isso  demais. No deveria... eu no queria... Peter estava comovido e constrangido ao abrir a caixinha. Ficou deliciado ao ver o lindo berloque. 
Passou o brao pelos ombros dela, apertando firmemente.
       - Por que fez uma coisa dessas? - murmurou ele, em tom suave de censura.
       - Porque voc  um imprestvel que nunca fez nada por mim.
       Peter sorriu da expresso maliciosa nos olhos dela e desta vez abraou-a, para um beijo longo e terno, que dizia tudo o que sentia. E desta vez tambm Marie 
beijou-o como nunca o fizera antes, com todo o seu corpo, assim como com o corao. O que o fez desej-la com intensidade que mal podia controlar.
       -  melhor tomar cuidado, minha jovem, ou vou violent-la aqui na praia.
       Marie abriu o casaco com um sorriso provocante e riu.
       - E da?
       Peter apenas riu e tornou a abra-la. Marie era uma mulher extraordinria e valera a pena esperar por ela. Ele podia agora deixar que seus sentimentos aflorassem, 
pois Marie no era mais sua paciente.
       - Marie... querida...
       Ela o silenciou com um beijo demorado e faminto. Peter desvencilhou-se por um momento, perguntando-se se no estaria vendo na reao dela simplesmente o que 
estava querendo. Mas havia uma corrente de desejo intenso entre os dois, a tal ponto que ele sabia que no estava imaginando.
       - Vamos... talvez seja melhor voltarmos.
       Marie assentiu e seguiu-o de volta ao carro. Mas a expresso dela no era to sombria quanto a de Peter. E quando chegaram ao apartamento dela, Marie virou-se 
para Peter com um sorriso.
       - Tenho mais uma coisa para voc, Peter. Gostaria que subisse, se tiver tempo.
       - Tem certeza de que  isso o que quer?
       - Absoluta.
       Ela subiu a escada na frente dele, em silncio. Ao abrir aporta do apartamento, no acendeu a luz. Atravessou a sala de estar, virou o cavalete junto  janela 
e depois acendeu a luz. O que Peter viu foi a paisagem com o menino sentado na rvore, parcialmente oculto pela folhagem. Marie acabara o quadro para ele antes de 
partir de frias, mas o estava reservando para aquele dia, se no mesmo para aquele momento. Peter fitou-o como se no estivesse compreendendo.
       -  para voc, Peter. Comecei-o h muito tempo. E... acabei-o para voc.
       - Oh, querida...
       Peter aproximou-se do quadro com os olhos brilhando e uma expresso gentil no rosto, como se no pudesse acreditar no que Marie fizera por ele. Fora um dia 
repleto de emoes e surpresas. Para os dois.
       - No posso aceitar. J tenho uma boa parte do seu trabalho. Se ficar dando tudo para mim, no ter coisa alguma para a exposio.
       - Voc tem fotografias, Peter. Isso  diferente.  um sinal do meu renascimento.  a primeira vez que voltei a pintar. E esse quadro... representava muito 
para mim. Quero que fique com ele. Por favor.
       Havia lgrimas nos olhos dela agora. Peter foi abra-la. 
       -  um quadro maravilhoso. Muito obrigado. No sei direito o que dizer. Voc tem sido maravilhosa para mim.
       - No precisa dizer nada.
       Marie beijou-o de uma maneira que dizia tudo e desta vez Peter teve certeza. No precisava perguntar. Simplesmente levou-a para o quarto e, trmulo de desejo, 
tirou-lhe as roupas.  luz suave do crepsculo, com a msica das buzinas de nevoeiro soando  distncia, eles se amaram.


Captulo 20

       - Pode levantar o zper, querido?
       Ela lhe virou as costas graciosas e Peter beijou-a no ombro. 
       - Eu preferia baixar o zper ao invs de levantar.
       - Ora, Peter, no temos tempo para isso agora.
       Marie fitou-o afetuosamente e ambos riram. Peter estava vestindo smoking e Marie usava um lindo vestido preto decotado, com mangas largas e justo na cintura, 
de um tecido que permitia divisar sua silhueta, embora nada mais alm. Era um vestido espetacular e Peter estava devidamente impressionado.
       - Detesto dizer-lhe isso, meu amor, mas ningum vai olhar para o seu trabalho. Todos a estaro contemplando.
       -  mesmo?
       Peter riu diante da incredulidade bvia dela e ajeitou a gravata que usava sobre a camisa azul-clara. Juntos, formavam um casal extremamente atraente.
       - Penduraram tudo da maneira como voc queria? Ainda no tive tempo de perguntar.
       Quando Peter acordara, s oito horas daquela manh, Marie j tinha sado. Mas ao final da tarde ele chegara ao apartamento dela e uma hora na cama mostrara 
a ambos que mal tinham comeado a saciar a fome de um pelo outro. Depois, haviam partilhado meia hora no banho, comentando um para o outro o que tinham feito durante 
o dia. Era quase como se vivessem daquela maneira h anos.
       Marie sorriu enquanto o observava terminar de se arrumar.
       - Penduraram, sim. Tudo foi ajeitado exatamente como eu queria. Graas a voc. Tenho a impresso de que voc lhes disse que tomassem todo cuidado, "ou ento". 
Voc ou Jacques. - O dono da galeria era um dos mais antigos e ntimos amigos de Peter. - Eu me sinto totalmente mimada. A prpria artiste.
       -  assim mesmo que deve sentir-se. Seu trabalho vai ser muito importante, querida. Vai ver s.
       E Marie realmente viu. As crticas nos jornais do dia seguintes foram espetaculares. Estavam sentados no apartamento dela, tomando o caf da manh, sorrindo 
enquanto liam.
       - Eu no disse? - Peter parecia ainda mais satisfeito consigo mesmo do que com Marie. - Voc  uma estrela.
       - Ficou doido, Peter?
       Marie sentou-se no colo dele, amarrotando o jornal. Tinha no rosto um sorriso de felicidade.
       - Espere mais um pouco. Todo agente de fotgrafo do pas estar telefonando para voc na prxima semana.
       - Acho que perdeu o juzo, querido.
       Mas Peter no se enganara. J na segunda-feira Marie estava recebendo telefonemas de Los Angeles e Chicago. Ela no podia aceitar as ofertas, mas estava se 
divertindo intensamente com tudo. E cada telefonema que recebia a deixava ainda mais satisfeita. At o telefonema de Ben Avery. Foi na tarde de quinta-feira, quando 
ela estava revelando alguns filmes. Ouviu o telefone tocar, enxugou as mos e foi atender na cozinha. Pensava que fosse Peter. Ele dissera que telefonaria para informar 
a que horas poderiam encontrar-se naquela noite. Peter tinha alguma reunio marcada para o final da tarde. Mas Marie tinha trabalho suficiente em seu laboratrio 
para mant-la ocupada at o encontro com Peter. Recebera uma verdadeira avalanche de encomendas como conseqncia da exposio.
       - Al?
       - Srta. Adamson? 
       - Ela mesma. 
       Marie no reconheceu a voz e o sorriso que estava exibindo para Peter rapidamente se desvaneceu.
       - No sei se j nos conhecemos ou no, mas encontrei uma certa Srta. Adamson na ltima vez em que estive aqui. Na loja de departamentos I.Magnin's. Eu estava 
fazendo algumas compras de Natal... comprei umas malas e...
       Ben sentia-se um idiota rematado e Marie no disse nada pelo que pareceu uma eternidade..
       Ento era Ben. Oh, diabo! Como ele a descobrira? E por que se dera ao trabalho de procur-la?
       - Eu... era a mesma pessoa?
       Marie sentiu-se tentada a dizer que no. Mas por que mentir? 
       - Creio que pode ter sido.
       - timo. Assim, pelo menos j nos conhecemos. Estou telefonando porque acabei de ver o seu trabalho na Galeria Montpelier, na Post Street. Fiquei bastante 
impressionado, assim como minha colega, a Srta. Townsend.
       Marie ficou subitamente curiosa. Seria a moa para quem ele comprara as malas? Mas ela sentia que no podia perguntar. Em vez disso, soltou um suspiro e sentou-se.
       - Fico satisfeita que tenha gostado, Sr. Avery. 
       - Est lembrada do meu nome!
       Oh, Deus!
       - Tenho excelente memria para nomes.
       - O que  muita sorte minha. Minha memria  como uma peneira e pode estar certa de que no meu negcio isso  uma tremenda desvantagem. De qualquer forma, 
eu gostaria muito de nos encontrarmos, para discutirmos o seu trabalho.
       - Em que sentido?
       Que diabo havia para discutir?
       - Estamos fazendo um centro mdico aqui em So Francisco, Srta. Adamson.  um projeto de grandes propores e gostaramos de aproveitar o seu trabalho em 
todos os prdios com o tema bsico da decorao. No sabemos ainda direito como, mas temos certeza de que queremos as suas fotos. E gostaramos de discutir o assunto 
consigo. Pode ser a grande tarefa de sua carreira.
       Ben falava com um tremendo orgulho e estava obviamente esperando por uma exclamao de espanto no outro lado da linha, um grito de entusiasmo, qualquer coisa 
enfim... menos o que ouviu.
       - Entendo. E qual a firma que est representando? .
       Ela esperou, prendendo a respirao. Mas j sabia a resposta, antes mesmo que Ben falasse:
       - Cotter-Hillyard, de Nova York.
       - No, obrigada, Sr. Avery. No  minha seara.
       - Por que no? - Ben parecia desconsertado. - No estou compreendendo.
       - No quero entrar em detalhes, Sr. Avery, mas posso assegurar-lhe de que no estou interessada.
       - Podemos encontrar-nos para discutir o assunto? .
       - No.
       - Mas j falei com... eu...
       - A resposta  no. Obrigada por seu telefonema.
       E depois, sem dizer mais nada, Marie reps o fone no gancho e voltou at a porta de seu laboratrio improvisado. No ia trabalhar para eles. Era tudo o que 
precisaria agora. No podia mais ouvir falar de Michael Hillyard. Ele no a quisera como sua esposa, ela no o queria como seu patro. Ou como qualquer outra coisa.
       O telefone voltou a tocar antes que ela fechasse a porta do laboratrio. Sabia que s podia ser Ben novamente, mas queria resolver o problema de uma vez por 
todas. Voltou  cozinha, pegou o fone e quase gritou:
       - A resposta  no! J lhe disse isso!
       Mos a voz do outro lado da linha era a de Peter e no a de Ben.
        - Mas o que eu fiz?
       Peter estava meio rindo, meio aturdido. Marie sentiu que relaxava ao ouvir a voz dele.
       - Oh, querido, desculpe!  que acabei de receber um telefonema que me deixou irritada.
       - Uma decorrncia da exposio?
       - Mais ou menos.
       - A galeria no deveria estar fornecendo o seu telefone para malucos. Por que eles no se limitam a anotar os recados?
       Peter parecia contrariado.
       - Acho que vou sugerir isso a Jacques.
       Peter ficou transtornado ao pensar em algum maluco procurando Marie. 
       - Voc est bem?
       - Estou, sim.
       Mas ela parecia abalada e Peter podia perceb-lo perfeitamente.
       - Estarei a dentro de uma hora. No atenda ao telefone at eu chegar. Cuidarei de tudo, se algum telefonar depois disso. 
        - Obrigada, meu amor.
       Os dois trocaram mais algumas palavras e depois desligaram. Marie descobriu-se dominada por um sentimento de culpa por no ter contado a verdade a Peter. 
Ben Avery no era nenhum maluco, apenas trabalhava para Michael Hillyard. Mas ela no queria revelar a Peter que fora justamente isso que a deixara transtornada. 
Ele no precisava saber como ela ainda ficava abalada com qualquer coisa que tivesse relao com Michael. De qualquer forma, estava melhorando a cada dia. Felizmente, 
Ben no voltou a telefonar naquela noite. Mas voltou a surpreend-la no dia seguinte, quando ela se aprontava para comear a trabalhar.
       - Oi, Srta. Adamson. Sou eu, Ben Avery, novamente.
       - Pensei que j tivesse deixado tudo isso acertado ontem  noite. No estou interessada.
       - Mas nem mesmo sabe qual  o trabalho em que no est interessada! Por que no almoa com minha colega e comigo, para podermos discutir o assunto? Isso no 
pode prejudic-la em nada, no  mesmo?
       Claro que pode, Ben! E como pode!
       - Lamento muito, mas estou ocupada e no posso aceitar o trabalho.
       Marie no estava cedendo um palmo sequer. Sentado em seu quarto no hotel, Ben virou os olhos para Wendy. No havia qualquer esperana. E ele no podia compreender 
por qu. Que diabo ela tinha contra a Cotter-Hillyard? No fazia o menor sentido.
       - E no podemos nos encontrar amanh?
       - Escute, Ben... Sr. Avery... eu no quero aceitar a misso. No estou interessada. E no quero discutir o assunto com voc nem com sua colega nem com qualquer 
outra pessoa. Estou sendo bem clara?
       - Infelizmente, sim. Mas acho que est cometendo um tremendo erro profissional. Se tivesse um agente, tenho certeza de que ele lhe diria justamente isso.
       - Mas acontece que no tenho um agente. Portanto, no tenho de ouvir qualquer pessoa que no a mim mesma.
       -  exatamente esse o seu engano, Srta. Adamson. Mas continuaremos em contato.
       -  muita gentileza sua interessar-se por meu trabalho, mas pode estar certo de que a insistncia de nada adiantar.
       - Est bem, est bem. Mas vou-lhe deixar um carto. Se mudar de idia, pode me telefonar. Aqui ou em Nova York. Ficarei no Saint Francis at o final do ms 
e depois voltarei ao meu escritrio em Nova York. H bastante tempo para discutirmos o assunto.
       Talvez para voc, mas no para mim, pensou Marie. So dois anos tarde demais.
       - Infelizmente, no concordo com a sua opinio.
       E, novamente, Marie desligou. Desta vez, ao voltar para o laboratrio, ela deixou o fone fora do gancho. 


Captulo 21

       Era uma manh gelada de fevereiro quando Ben Avery, aconchegado em seu casaco como uma tartaruga, correu da sada do metr at seu escritrio na Park Avenue. 
Estaria nevando antes do final do dia, algo que Ben podia sentir no ar. Estava to escuro que parecia que a luz do dia mal conseguira emergir. Ainda no eram oito 
horas da manh. Mas ele tinha muito trabalho a fazer. Era o seu primeiro dia no escritrio desde que voltara da Califrnia e a grande reunio com Marion estava marcada 
para as 10h30min daquela manh. De modo geral, ele praticamente s tinha boas notcias para Marion. 
       J havia vrias pessoas no saguo do prdio e o elevador estava quase cheio quando ele subiu. Mesmo quela hora, o mundo dos negcios j estava em atividade. 
Depois do ritmo mais lento de So Francisco e at mesmo de Los Angeles, era um choque estar de volta ao prprio centro das atividades incessantes. Em Meca, as pessoas 
comeavam cedo. Mas pelo menos parecia no haver ningum mais trabalhando no andar de Ben, pois no notou atividade alguma enquanto percorria o corredor comprido 
e atapetado, revestido de madeira, at a sala que Marion lhe dera quando ingressara na firma. Era menor e no to bonita quanto a sala de Michael, mas era muito 
bem decorada. Marion no poupava despesas nas salas da Cotter-Hillyard.
       Ben olhou para o relgio enquanto tirava o casaco. Depois, esfregou as mos, para esquent-las um pouco. No havia a menor possibilidade de acostumar-se aos 
ventos gelados e ao frio mido de Nova York. Havia invernos em que se perguntava se algum dia voltaria a se sentir quente e por que suportava tudo aquilo se havia 
cidades como So Francisco, em que as pessoas viviam num mundo de sonho temperado, durante o ano inteiro. At mesmo a sua sala parecia gelada. Mas ele no tinha 
tempo a perder. Esvaziou o contedo da pasta em cima da mesa e comeou a separar os documentos e relatrios. Tudo transcorrera esplendidamente. Com uma nica exceo, 
de importncia menor. E talvez ainda se pudesse fazer algo para remedi-la. Ele olhou novamente para o relgio depois de algum tempo e ficou pensativo. Depois, resolveu 
tentar. Seria um grande golpe se pudesse entrar na reunio com aquela ltima boa notcia.
       Ben trouxera algumas amostras do trabalho de Marie Adamson. Tivera de compr-las na galeria. Mas no tivera a menor dvida de que o investimento valera a 
pena. Assim que Marion e Michael dessem uma olhada no trabalho dela, verificassem a qualidade extraordinria, a prpria Marion provavelmente entraria em cena e persuadiria 
a jovem a aceitar o contrato. Ele sorriu ao pensar nisso, sem saber que a possibilidade provocaria um calafrio na espinha de Marie.
       Ele discou o nmero e ficou esperando. Era uma loucura o que estava fazendo. Eram 5h15min da manh em So Francisco, mas talvez, se a pegasse meio adormecida...
       - Al?
       Ela parecia meio tonta de sono ao atender o telefone.
       - Ahn... Srta... Srta. Adamson, lamento profundamente telefonar a esta hora. Aqui  Ben Avery, de Nova York. Vou ter uma reunio esta manh com a diretora 
da nossa firma e desejo, mais que qualquer outra coisa, comunicar que vai trabalhar conosco no centro mdico. E pensei que...
       Mas Ben j sabia, a esta altura, que cometera um tremendo erro. Podia senti-lo no silncio que o subjugou no outro lado da linha. Um momento depois, Marie 
Adamson comeou a falar:
       - s cinco horas da manh? Telefonou para falar-me de sua reunio com... pelo amor de Deus, mas que loucura  essa? J no lhe disse que no? Que diabo terei 
de fazer agora? Arrumar um telefone que no conste do catlogo?
       Enquanto a escutava, Ben fechou os olhos, em parte por constrangimento, em parte por algo mais. A voz. Era estranha. No sabia por que, mas parecia-lhe familiar. 
E no soava como a voz de Marie Adamson. Era uma voz mais alta, mais jovem, diferente o bastante para despertar-lhe uma recordao que o perturbou. Com quem ela 
parecia? Mas Ben no conseguiu se lembrar.
       - Ser que no entendeu meu recado?
       As palavras furiosas trouxeram-no de volta ao presente e  realidade de que estava de fato falando com Marie Adamson, a qual estava longe de se mostrar satisfeita 
com o seu telefonema.
       - Lamento muito. Sei que foi um absurdo telefonar a esta hora, mas tinha a esperana de que...
       - J lhe dei a resposta: no. No quero escutar, discutir, pensar ou voltar a falar consigo a respeito de seu centro mdico. E agora me deixe em paz!
       E com isso Marie desligou. Ben ficou imvel, com o telefone mudo na mo, sorrindo envergonhado.
       - Muito bem, pessoal, estraguei tudo.
       Ele pronunciou tais palavras para si mesmo. Ou pelo menos foi o que pensou. No tinha visto Michael encostado tranqilamente na porta aberta.
       - Seja bem-vindo de volta ao lar, Ben. O que voc estragou?
       Michael no parecia particularmente preocupado. Ao contrrio, parecia bastante satisfeito por ver o amigo. Entrou na sala e foi acomodar-se numa das confortveis 
poltronas de couro.
       -  um prazer v-lo de volta, Ben.
       - E eu sinto o maior prazer em voltar. Mas faz um frio tremendo nesta cidade. Depois de So Francisco,  capaz de eu nunca mais me ajustar.
       - Pois daqui por diante vamos tomar cuidado de mant-lo na rota sulista,  delicado. - Michael sorriu para o amigo, antes de acrescentar: - E o que era o 
telefonema que acabou de dar?
       - O nico cabelo em minha sopa nesta viagem. - Bem passou a mo pelos cabelos, num gesto de irritao, e recostou-se na cadeira - Tudo transcorreu absolutamente 
como queramos. Sua me vai ficar extasiada com os relatrios. S houve uma exceo. Admito que se trata de um problema menor, mas eu queria que tudo fosse perfeito.
       - Devo comear a me preocupar?
       - No. Estou apenas contrariado. Encontrei uma artista, uma jovem que  uma fotgrafa maravilhosa. Ela possui de fato um talento espetacular, no  apenas 
uma garota com uma Brownie.  sensacional. Vi a exposio que ela est realizando neste momento em So Francisco e pensei em contrat-la para a decorao do saguo 
de todos os prdios. Era a base fotogrfica com que todos concordamos na ltima reunio, antes de eu partir.
       - E o que aconteceu?
       - E ela me disse que no estava interessada, nem mesmo queria discutir o trabalho.
       Ben estava desolado ao dar a informao.
       - Por qu?  comercial demais para ela?
       Michael parecia no estar impressionado..
       - Nem mesmo sei por qu. Ela simplesmente ficou furiosa logo na primeira vez em que telefonei. Simplesmente no faz o menor sentido.
       Mas Michael estava sorrindo, com expresso divertida.
       - Claro que faz sentido, meu ingnuo amigo. Ela est se resguardando para conseguir mais dinheiro. Sabe quem somos e por isso calcula que, se bancar a difcil, 
pode arrancar-nos um contrato vultoso. Ela  mesmo to boa assim?
       - A melhor que existe. Trouxe algumas amostras de seu trabalho. Tenho certeza de que voc vai adorar.
       - Neste caso,  possvel que ela consiga o que est querendo. Mostre-me as amostras depois. Primeiro, h algo que preciso perguntar-lhe.
       Michael parecia momentaneamente srio. Era um assunto que h semanas estava pensando em levantar.
       - Algum problema?
       Ben havia percebido imediatamente o nimo do amigo.
       - No. Para dizer a verdade, eu me sinto um idiota s de perguntar. Mostra como tenho estado por fora das coisas. Mas... h alguma coisa entre voc e Wendy?
       Ben esquadrinhou o rosto dele por um momento, antes de responder. Michael parecia curioso, mas no magoado.  claro que Ben soubera do caso de Wendy com Michael. 
Mas no era segredo que Michael jamais gostara realmente dela. Mesmo assim, Ben achara um tanto estranho ficar com o refugo do amigo. Era a primeira vez que isso 
acontecia e desde o incio no tinha a menor idia de como Michael reagiria, ao descobrir. E a verdade era que ele e Wendy estavam apaixonados. Haviam passado um 
ms sensacional juntos, na viagem de negcios  Califrnia. Zombeteiramente, Wendy classificara a viagem de lua-de-mel.
       - E ento, Avery, o que est havendo? Ainda no respondeu a minha pergunta.
       Mas agora havia um pequeno sorriso contraindo os lbios de Michael. Ele j sabia qual era a resposta.
       - Eu me sinto um idiota por no ter lhe contado antes. Mas a resposta  sim. Isso o incomoda, Michael?
       - Por que deveria? Sinto-me um tanto constrangido por admitir... ora, que no me tenho mantido muito a par das coisas. Tenho certeza de que Wendy lhe contou 
como fui maravilhosamente atencioso e gentil.
       Ele parecia amargurado ao pronunciar as ltimas palavras, mas o tom com que Ben lhe respondeu foi extremamente gentil.
       - Wendy nunca disse nada, exceto que pensava que voc no era um homem muito feliz. Isso no chega a ser exatamente um choque para ns dois, no  mesmo, 
companheiro? - Michael assentiu, em silncio. - No me intrometi em seu caso com ela, Michael. Quero que tenha certeza disso. Vocs dois j tinham deixado de se 
encontrar h algum tempo. E se quer saber a verdade, sempre tive uma queda por Wendy.
       - Desconfiei disso quando a contratou. Wendy  uma moa sensacional. Melhor do que eu merecia. - Michael sorriu novamente. - E provavelmente melhor tambm 
do que voc merece. Ei, espere um instante! - Havia agora um brilho de pura malcia em seus olhos. - Por acaso a coisa  sria?
       Ben sorriu tambm para o amigo e depois assentiu.
       - Acho que sim.
       -  mesmo? Est pensando em casar-se?
       Michael estava aturdido. Onde estivera? Por que no havia notado coisa alguma?  claro que Ben passara um ms fora, mas mesmo assim... A verdade  que ele 
no prestava a menor ateno a coisas assim h dois anos.
       - Essa no! Vai mesmo casar-se, Avery? Tem certeza?
       - No falei que j est acertado. Mas estamos pensando a respeito. E eu diria que todas as probabilidades so a favor. Tem alguma objeo?
       Mas ambos sabiam que ele estava apenas brincando. O momento de constrangimento j havia passado.
       - No tenho absolutamente qualquer objeo. - Michael continuou sentado, sacudindo a cabea e sorrindo. - Tenho a impresso de que perdi uma pgina aqui e 
ali. Ou ser que vocs foram excepcionalmente discretos?
       - De jeito nenhum.  que voc tem andado excepcionalmente ocupado. S pensa em trabalhar, jamais em se divertir. Isso o deixar rico e famoso, mas totalmente 
fora de contato com as fofocas do escritrio.
       Ben estava agora zombando apenas parcialmente de Michael e sabia disso.
       - Poderia ter-me contado tudo, Ben.
       - Tem razo e sinto muito. Mas quando chegar o momento da grande notcia, eu lhe direi. Por falar nisso, no quer ser meu...
       Ben parou de falar abruptamente. Teve vontade de morder a lngua pelo que comeara a perguntar. Ia ser o padrinho de casamento de Michael na noite do acidente 
e agora quase pedira ao amigo que fosse o seu padrinho.
       - No tem importncia. H bastante tempo para se pensar nessas coisas.
       Michael levantou-se, assentiu e foi apertar a mo do amigo. Mas havia novamente algo sombrio oculto em seus olhos. Ele sabia perfeitamente o que Ben estivera 
prestes a perguntar.
       - Parabns, meu caro. - O sorriso era genuno, assim como a angstia. - E no se preocupe com a fotgrafa de So Francisco. Se ela  realmente to boa quanto 
voc diz, vamos oferecer-lhe um contrato vultoso e um bom negcio de tal forma que ela no poder deixar de ceder. Ela est simplesmente bancando a difcil para 
arrancar-nos mais dinheiro...
       - Espero que voc esteja certo.
       - Confie em mim, pois estou mesmo certo.
       Michael retirou-se, enquanto Ben ficou pensando no que haviam conversado. Sentia-se melhor agora que Michael sabia. Lamentava apenas sua falta de tato. Mesmo 
depois de todo aquele tempo, qualquer referncia a Nancy causava exploses de agonia nos olhos do amigo. Odiava a si mesmo por ter provocado tal situao, mas parecera 
uma pergunta bastante natural para fazer e no pensara duas vezes. Sacudiu a cabea, pesaroso, depois voltou a se concentrar no trabalho em sua sala. Tinha apenas 
uma hora antes da grande reunio com Marion. Teve a impresso de que haviam passado apenas alguns momentos quando Wendy bateu na porta aberta e chamou-o com um sorriso.
       - Vamos embora, Ben. Temos de estar na sala de Marion dentro de cinco minutos.
       - J? - Ele levantou os olhos nervosamente do trabalho e sorriu ao contempl-la. Wendy era tudo o que sempre desejara. - Antes que eu me esquea, contei a 
Michael esta manh.
       Ele parecia bastante satisfeito consigo mesmo.
       - Contou o qu?
       A mente de Wendy estava totalmente concentrada no centro mdico de So Francisco e na reunio com Marion. As reunies com a grande deusa branca da arquitetura 
sempre a deixavam apavorada.
       - Contei a nosso respeito, sua tola. E tenho a impresso de que ele at ficou satisfeito.
       - Fico contente por isso.
       Wendy na verdade no se importava, mas sabia que isso significava muito para Ben. Ela no mais se importava absolutamente com Michael, de um jeito ou de outro. 
Ele fora cruel e insensvel, totalmente ausente de todos os momentos que haviam passado juntos. Era quase como se nada jamais tivesse acontecido entre os dois.
       - Est pronto para a reunio?
       - Mais ou menos. Tentei conversar novamente com a tal  Adamson esta manh. Ela me mandou para o inferno.
       - O que  uma pena.
       Conversaram a respeito enquanto seguiam pelo corredor at o elevador particular que dava acesso  torre de marfim de Marion, na cobertura do prdio. Tudo 
ali era da cor de areia, at mesmo o elevador, totalmente atapetado, cho, teto e paredes. Era como viajar para cima em um tero silencioso, luxuoso. Chegaram finalmente 
ao andar que alojava o gabinete de Marion, com uma vista espetacular. Wendy podia sentir as palmas das mos ficarem midas de suor na pasta que estava levando. Marion 
Hillyard sempre a fazia sentir-se assim, no importava o quo simptica se mostrasse.  que Wendy j vira o que havia por baixo de todo o controle e charme de Marion.
       - Est nervosa?
       Ben fez a pergunta num sussurro, enquanto dobravam o corredor e se aproximavam da porta de vidro e cromo que dava para a sala de reunies de Marion.
       - Pode apostar que sim.
       Ambos riram um do outro e depois ocuparam seus lugares na sala comprida, repleta de plantas. Havia um Mary Cassatt numa parede, um Picasso no perodo inicial 
em outra e  frente dele estendia-se toda Nova York, uma vista espetacular, que sempre deixava Wendy estonteada, toda vez que sentava ali, no 65 andar. Era como 
decolar num avio, exceto pelo silncio. Marion parecia estar sempre cercada pelo silncio.
       Havia vinte e duas pessoas sentadas ao longo da mesa de reunies com tampo de vidro fum, quando Marion finalmente entrou na sala, flanqueada por George, 
Michael e sua secretria Ruth. Ruth carregava diversas pastas e George e Michael estavam conversando. Pouco a pouco, George vinha entregando o comando da firma a 
Michael e estava surpreso ao descobrir como isso o aliviava. Somente Marion parecia interessada no grupo e correu os olhos pelos rostos, para certificar-se de que 
estavam todos presentes. Parecia ter naquele dia a mesma cor de areia da decorao, mas Wendy presumiu que fosse simplesmente a palidez tpica de Nova York. Ficara 
to acostumada a ver rostos bronzeados na Califrnia que era um pequeno choque retornar a Nova York e compreender como todos estavam plidos em pleno inverno da 
costa do Atlntico.
       Mas Marion parecia to elegante quanto sempre, num vestido que devia ser Givenchy ou Dior, bem simples, de l preta, contrastando com as quatro fieiras de 
prolas grandes e perfeitamente iguais. O verniz das unhas era escuro e ela parecia estar usando pouca maquilagem. At mesmo Michael estava achando Marion extremamente 
plida, provavelmente por estar trabalhando demais naquele projeto e em dez outros ao mesmo tempo. A me fazia questo de envolver-se em todos os trabalhos da firma. 
Ela era assim e estava acabado. E Michael parecia estar seguindo em suas pegadas. Marion admirava a dedicao total do filho ao trabalho, nos ltimos dois anos. 
Era assim que os imprios bemsucedidos se mantinham saudveis, recebendo o sangue daqueles que o acalentavam. Os guardies sagrados. Os que cuidavam do Santo Graal.
        Marion foi a primeira a falar. Pegou a primeira pasta na frente de Ruth e comeou a interrogar os participantes da reunio, departamento por departamento, 
discutindo os vrios problemas que haviam surgido desde a ltima reunio, verificando as solues. Tudo transcorreu sem problemas, at que ela chegou a Ben. Marion 
ficou imensamente satisfeita com o que ele e Wendy haviam alcanado em So Francisco, os resultados de suas reunies, todos os novos desenvolvimentos. Marion foi 
conferindo as informaes com uma lista que tinha a sua frente, olhando de vez em quando para Michael, com extrema satisfao. O trabalho de So Francisco ia aos 
poucos adquirindo uma forma esplendida.
       - S tivemos um problema.
       Ben falou um pouco baixo demais e todos os olhos prontamente se fixaram nele.
       -  mesmo? E qual foi?
       - Uma jovem fotgrafa. Vimos o trabalho dela e gostamos muito. Queramos discutir a possibilidade de contrat-la para o trabalho de arte do saguo de todos 
os prdios do centro. Mas ela no quis nem mesmo conversar conosco.
       - O que isso significa?
       Marion estava visivelmente contrariada.
       - Apenas isso. Quando soube por que eu estava telefonando, ela quase bateu o telefone na minha cara.
       Marion alteou as sobrancelhas, inquisitivamente.
       - Ela sabia quem voc representava?
       Como se isso pudesse mudar tudo... Michael disfarou um sorriso, assim como Ben. Marion tinha um orgulho to grande da firma que estava convencida de que 
todos desejavam trabalhar com eles.
       - Sabia. Mas receio que isso no a fez mudar de idia. Se houve alguma mudana, foi aparentemente a de deix-la ainda mais irritada.
       - Irritada?
       Pela primeira vez naquela manh havia um pouco de cor no rosto de Marion, embora sua expresso fosse sombria. Quem essa tola jovem pensava que era, recusando-se 
a trabalhar para a Cotter-Hillyard?
       - Talvez irritada seja a palavra errada. Talvez fosse mais apropriado dizer que isso a apavorou.
       No era bem isso, mas atendia  necessidade do momento. Para apaziguar Marion. As duas manchas vermelhas nas faces dela comearam a se desvanecer, para alvio 
de todos, especialmente de Ben.
       - Vale a pena insistir nela?
       - Acho que sim. E trouxemos algumas amostras de seu trabalho para apresentar. Creio que todos vo concordar comigo.
       - Como conseguiu as amostras do trabalho dela, se a jovem nem mesmo quis discutir com voc a possibilidade de trabalhar para ns?
       - Compramos as fotos na galeria que est expondo os trabalhos dela. Foi uma extravagncia, mas se houver algum problema, terei a maior satisfao em comprar 
pessoalmente da firma. Ela trabalha excepcionalmente.
       Wendy foi at uma mesa perto da parede dos fundos e voltou com um portflio de tamanho considervel, do qual tirou trs fotografias em cores excepcionais, 
que Marie tirara em So Francisco. Uma delas era uma cena no parque, uma composio bastante simples. Mostrava um velho sentado num banco, contemplando algumas crianas 
a brincarem. A foto poderia ter sido sentimental, mas no o era. Transmitia uma imensa compaixo. A segunda era uma cena a beira do cais, a vitalidade da multido 
no conseguindo ofuscar o sorridente vendedor de camares que aparecia em primeiro plano. E finalmente havia uma vista tremeluzindo ao crepsculo, a cidade como 
turistas e habitantes adoravam ver. Ben no disse nada. Simplesmente arrumou as fotografias de p e depois recuou. Estavam ampliadas e assim todos podiam ver como 
o trabalho era excepcional. At mesmo Marion ficou em silncio por longo tempo, antes de finalmente assentir.
       - Voc tem razo. Vale a pena insistir para que ela trabalhe conosco.
       - Fico contente que tenha concordado.
       - Michael?
       Marion virou-se para o filho, mas ele parecia inteiramente absorvido em seus pensamentos, enquanto contemplava as fotografias. Havia algo de obcecante e familiar 
na qualidade daquela arte, na natureza dos temas. Michael no sabia direito o que era, mas imediatamente deixou-o pensativo e ele se empenhou em livrar-se de tal 
nimo. No sabia explicar por que as fotografias o perturbavam daquela maneira, mas no podia deixar de concordar tambm que se tratava de um trabalho extraordinrio 
e iria contribuir favoravelmente para qualquer prdio que levasse a assinatura da Cotter-Hillyard.
       - Gosta das fotografias tanto quanto eu, Michael? - insistiu Marion. Ele olhou para me e assentiu, silenciosamente, com uma expresso sombria. Marion no 
perdeu tempo. - Ben, o que temos de fazer para contrat-la?
       - Eu gostaria de saber.
       - Dinheiro,  claro. Que tipo de mulher  ela? Chegou a encontr-la pessoalmente?
       - Por mais estranho que possa parecer, conheci-a na vez anterior em que estive em So Francisco.  uma jovem de beleza impressionante. De uma maneira quase 
irreal. Eu diria que  quase perfeita demais. Tudo o que se pode fazer  ficar a contempl-la.  equilibrada, simptica... quando quer ser... e obviamente talentosa. 
Era pintora antes de comear a dedicar-se  fotografia. As roupas pareciam dispendiosas e por isso imagino que no est exatamente passando fome. Na verdade, o dono 
da galeria comentou que ela tem uma espcie de patrocinador. Um homem mais velho. Se no me engano, ele falou que era mdico, um cirurgio plstico famoso. De qualquer 
forma, ela no precisa do dinheiro. E isso  realmente tudo o que sei.
       - Ento talvez a resposta no seja o dinheiro. - Mas subitamente Marion parecia to pensativa quanto o filho. Ocorrera-lhe um pensamento absurdo, irracional. 
Seria uma coincidncia horrivel, mas se fosse mesmo... - Qual  a idade dessa moa?
       -  difcil dizer. Ela estava usando um chapu grande na primeira vez que a encontrei, ocultando parcialmente o rosto. Mas eu diria que tem... no sei direito, 
talvez seus 24 ou 25 anos. No mximo 26. Por qu?
       Ben no conseguia absolutamente entender o motivo daquela pergunta.
       - Estava apenas curiosa. Tenho certeza de que voc e Wendy fizeram o melhor que era possvel, Ben.  bem possvel que seja inteiramente intil qualquer esforo 
de contratar essa jovem. Mas eu gostaria de tentar. Deixe-me todas as informaes e entrarei em contato com ela pessoalmente. Tenho mesmo de ir a So Francisco, 
no decorrer das prximas semanas. Talvez ela se sinta mais constrangida por repelir uma velha do que um rapaz.
       Ben sorriu ao ouvir a referncia a "velha". Marion Hillyard podia parecer qualquer coisa menos uma velha. Talvez uma mulher vigorosa de meia-idade, um verdadeiro 
dnamo, mas jamais seria uma vov encarquilhada. Mas o sorriso dele tornou-se sombrio ao observar o rosto de Marion. Ela estava se tornando mais plida a cada momento 
e ele subitamente se perguntou se Marion no estaria doente. Mas Marion no lhe deu tempo nem a qualquer outra pessoa de indagar qualquer coisa. Levantou-se, manifestou 
sua satisfao pela reunio, pegou as informaes de que precisava com Ben e agradeceu o comparecimento de todos. Quando ela se retirou, a reunio estava encerrada. 
A porta margeada de lato da sala de Marion fechou-se silenciosamente atrs de Ruth um momento depois, enquanto os outros encaminhavam-se lentamente para o elevador, 
comentando os progressos do trabalho em So Francisco. Todos pareciam satisfeitos e aliviados pelo fato de Marion tambm estar satisfeita. Geralmente, sempre havia 
algum que lhe provocava a fria. Mas naquele dia ela se mostrara excepcionalmente suave e Ben descobriu-se novamente a imaginar que talvez Marion estivesse doente. 
Ele foi um dos ltimos a deixar a sala de reunies, depois que Wendy j descera. Abruptamente, Ruth saiu correndo da sala de Marion e fez sinal para Michael. Ela 
parecia terrivelmente assustada.
       - Sr. Hillyard! Sua me... est...
       Mas foi George quem reagiu primeiro, correndo literalmente para a sala de Marion, com um Michael aterrado e Ben em seus calcanhares. E assim que entraram 
na sala, foi George novamente quem sabia o que fazer. Sabia onde estavam as plulas, que deu prontamente a Marion, com um copo com gua, amparando-a, com a ajuda 
de Michael, da cadeira na mesa at o sof. Marion tinha uma palidez entre cinza e esverdeada e parecia encontrar a maior dificuldade para respirar. Por um momento 
de terror, Michael descobriu-se pensando que a me estava morrendo. As lgrimas afloraram a seus olhos. Ele correu para a telefone a fim de chamar o Dr. Wickfield, 
mas Marion acenou debilmente do sof e falou num sussurro quase inaudvel:
       - No, Michael, no chame Wick. Acontece... a todo instante.
       Michael olhou imediatamente para George. Aquilo era novidade para ele, mas no devia ser para George. Se fosse, George no saberia onde encontrar as plulas, 
o que fazer. Oh, Deus! At que ponto se tornara totalmente alheio ao mundo ao seu redor nos ltimos meses? Olhando para a me, plida e trmula no sof, Michael 
se perguntou qual seria a gravidade da doena dela. Sabia que Marion procurava freqentemente o Dr. Wickfield, mas sempre imaginara que fosse para certificar-se 
de que estava em boas condies fsicas, no porque tivesse algum problema mais grave. E o problema dela certamente parecia ser grave. Um olhar para o pequeno vidro 
de plulas que George deixara em cima da mesa confirmou os temores de Michael. As plulas eram de nitroglicerina, o tratamento habitual de problemas cardacos.
       - Mame... - Michael sentou-se numa cadeira ao lado dela e segurou-lhe a mo... - Isso acontece com freqncia?
       Ele estava quase to plido quanto Marion, mas ela abriu os olhos e sorriu-lhe, depois para George. Era evidente que George sabia de tudo.
       - No se preocupe com isso - A voz ainda era suave, mas um pouco mais forte agora. - Estou bem.
       - Sei que no est bem. E quero saber mais sobre o que voc tem.
       Parado ali perto, Ben ficou achando que estava se intrometendo onde no devia, mas tambm no queria retirar-se. Estava aturdido demais pelo que presenciara. 
A grande Marion Hillyard, no final das contas, era humana. E parecia terrivelmente vulnervel e frgil, deitada ali, no vestido preto elegante e carssimo, que contribua 
para faz-la parecer ainda mais plida. Ela estava que nem papel enquanto conversava com o filho, mas os olhos estavam mais vivos que um momento antes.
       - Mame... - Michael pretendia obviamente insistir no assunto, mas Marion no o deixou continuar.
       - Est tudo bem, querido, est tudo bem...
       Ela procurou respirar um pouco mais fundo e lentamente sentou-se no sof, voltando a pr os ps no cho e fitando diretamente os olhos do filho nico.
       -  o meu corao. Sabe que h anos tenho problemas. 
       - Mas nunca foi srio.
       - Pois agora . - Marion falou como se isso no tivesse qualquer importncia. - Posso viver para me tornar uma velha implicante. Como posso tambm no chegar 
at l. Somente o tempo poder dizer. Enquanto isso, as plulas ajudam-me a continuar e vou seguindo em frente. Isso  tudo o que h para se dizer.
       - H quanto tempo isso vem acontecendo?
       - H algum tempo. Wick comeou a se preocupar h cerca de dois anos, mas o problema agravou-se bastante este ano.
       - Pois ento eu quero que voc pare de trabalhar. - Michael parecia um garoto obstinado, olhando para a me com uma expresso preocupada. - Imediatamente.
       Ela se limitou a rir para o filho e depois sorriu para George. Mas desta vez o rosto do seu aliado indicava que ele tambm estava extremamente preocupado.
       - No h a menor possibilidade, querido. Continuarei aqui, at no agentar mais. H muito o que fazer. Alm do mais, eu acabaria enlouquecendo se ficasse 
em casa. O que iria fazer durante o dia inteiro? Assistir a filmes horrveis na televiso e ler revistas de cinema?
       - Parece perfeito para voc. - Todos riram. - Ou ento... - Michael olhou atentamente para a me e depois para George, antes de acrescentar: - Vocs podiam 
aposentar-se e casar-se, comeando a se divertirem um pouco, para variar.
       Era a primeira vez que Michael reconhecia abertamente as atenes que George dispensara a Marion ao longo dos ltimos vinte anos. George ficou vermelho, mas 
no parecia contrariado.
       - Michael! - A me parecia quase ser novamente a mesma Marion de sempre. - Voc est constrangendo George.
       Mas, estranhamente, ela tambm no parecia chocada ou assustada com a idia.
       - Seja como for, a minha aposentadoria est fora de questo. Sou jovem demais para isso, quer esteja ou no doente. Acho que ainda vai ter de me aturar por 
muito tempo.
       Michael j sabia que perdera a batalha. Mas s ia ceder depois de opor o mximo de resistncia.
       - Neste caso, pelo menos seja um pouco sensata e pare de viajar. No precisa ir a So Francisco. Posso cuidar de tudo pessoalmente. No queira fazer tudo 
por si mesma. Fique em casa e cuide um pouco mais de si mesma.
       Marion limitou-se a rir e levantou-se, caminhando at sua mesa. Parecia abalada, cansada e plida ao sentar-se na cadeira, enquanto todos a observavam com 
profunda preocupao.
       - Eu gostaria que vocs se retirassem e parassem de parecer to sentimentais. Todos vocs. Tenho muito trabalho a fazer. O que, aparentemente, no acontece 
tambm com vocs.
       - Vou lev-la para casa, mame. Pelo menos por hoje. - Michael parecia beligerante enquanto a fitava, mas Marion sacudiu a cabea firmemente.
       - No vou, Michael. E agora trate de sair daqui ou mandarei George expuls-lo. - George achou graa da idia. - Posso ir embora mais cedo, mas no vou sair 
agora. Assim sendo, agradeo a sua preocupao e tudo o mais. Ruth!
       Ela apontou para a porta, que a secretria obedientemente abriu. Um por um, impotentes, todos sairam. Marion era mais forte que todos eles e sabia disso..
       - Marion...
       George parou na porta, com uma expresso preocupada nos olhos.
       - Pois no?
       O rosto de Marion suavizou-se ao fit-lo e ele sorriu.
       - No quer ir para casa agora?
       - Daqui a pouco.
       Ele assentiu.
       - Voltarei dentro de meia hora.
       Marion sorriu, mas mal pde esperar que a porta se fechasse atrs dele. No havia em sua mente a menor dvida sobre o motivo que causara o ataque. No podia 
mais ficar excitada com coisa alguma. Estava realmente se tornando um transtorno terrvel. Ela olhou para o relgio, enquanto discava o nmero que Ben lhe fornecera. 
Escutou o telefone tocar trs ou quatro vezes. No sabia por que tinha tanta certeza. Desde o momento em que Ben comeara a descrever Marie Adamson.. Tentaria encontrar-se 
com a moa quando fosse a So Francisco. Talvez ento pudesse ter certeza absoluta. Ou talvez no. Talvez as mudanas tivessem sido grandes demais. Perguntou-se 
se realmente saberia. E nesse momento a moa atendeu o telefone. Marion respirou fundo, fechou os olhos e falou suavemente. Ningum poderia imaginar, ao ouvi-la, 
que sofrera um ataque apenas meia hora antes. Como sempre, Marion Hillyard estava no controle total de si mesma.
       - Srta. Adamson? Aqui  Marion Hillyard, de Nova York.
       A conversa foi breve, fria e constrangida. Ao desligar, Marion no sabia nada mais que antes. Mas iria saber. Dentro de trs semanas exatamente. Haviam marcado 
um encontro para as quatro horas da tarde de tera-feira, dentro de trs semanas. Marion anotou em sua agenda, depois recostou-se na cadeira e fechou os olhos. O 
encontro poderia nada revelar-lhe, mas por outro lado... havia algumas coisas que ela tinha de dizer. S esperava viver por mais trs semanas.


Captulo 22

       O relgio parecia bater interminavelmente, na sala de estar da sute do Fairmont. A vista da baa e do Condado de Marin do outro lado era espetacular, mas 
Marion Hillyard no estava interessada em paisagens. Estava pensando na moa. O que teria acontecido com ela? Como seria a sua aparncia agora? Ser que Gregson 
realmente operara as maravilhas que prometera dois anos antes? Ben Avery vira uma estranha ao se encontrar com Marie Adamson. Mas ser que Michael poderia ainda 
reconhec-la? E ser que ela estava agora apaixonada por outro homem ou ento, como Michael, tornara-se amargurada e afastada do mundo? Marion pensou novamente no 
filho, enquanto esperava pela estranha que poderia ser na realidade a moa que Michael amara outrora. E se no fosse? Podia ser qualquer pessoa, uma fotgrafa de 
So Francisco que atrara a ateno de Ben Avery. Talvez a teoria dela estivesse errada. Talvez...
       Marion cruzou e descruzou as pernas, depois pegou novamente a bolsa para tirar outro cigarro. A cigarreira era nova. George lhe dera de presente de Natal. 
Uma cigarreira de ouro, com as suas iniciais gravadas com safiras maravilhosas. Marion acendeu o cigarro com o isqueiro que combinava com a cigarreira, deu uma tragada 
profunda e depois recostou-se na poltrona por um momento, os olhos fechados. Estava exausta. Fora um longo vo naquela manh e deveria ter se proporcionado um dia 
de descanso, antes de encontrar-se com a jovem. Mas estava ansiosa demais para adiar o encontro por mais um dia. Tinha de saber de qualquer maneira.
       Ela olhou novamente para o relgio em cima da cornija da lareira. Eram 16h15min. Ou seja, 19h15min em Nova York. Michael ainda devia estar trabalhando. Avery 
j teria sado para namorar aquela jovem do departamento de design de interiores. Marion contraiu os lbios ao pensar neles. Avery no era um rapaz compenetrado, 
como Michael. Mas tambm... Ela suspirou. Mas tambm Avery no era infeliz como Michael. Ser que ela cometera um erro? Teria feito uma loucura dois anos antes? 
Teria exigido demais da moa? No. Provavelmente no. Era a moa errada para Michael... E com o tempo, talvez ele encontrasse outra. No havia razo para que isso 
no acontecesse. Michael certamente possua tudo o que era necessrio: aparncia, dinheiro, posio. Ia ser o presidente de uma das principais firmas da Amrica. 
Era um homem de poder e talento, simpatia e charme.
       O rosto de Marion abrandou-se novamente, enquanto pensava no filho. Como Michael era bom e forte... e como era solitrio. Ela tambm podia perceb-lo. Ele 
chegava at mesmo a manter certa distncia da prpria me. Era como se uma parte dele jamais houvesse voltado ao convvio das outras pessoas. Pelo menos as bebedeiras 
e os perodos de isolamento haviam cessado, mas apenas para serem substitudos por uma determinao sombria e angustiada, que transparecia visivelmente nos olhos 
de Michael. Como um homem que se empenhara por tempo demais a vencer o deserto, determinado a consegui-lo, mas no mais sabendo por qu.
       E, no entanto, Michael tinha tudo para ser feliz, todos os motivos para desfrutar a vida. Mas jamais tirava tempo para desfrutar qualquer coisa. Marion nem 
mesmo tinha certeza se o filho gostava do trabalho, pelo menos da maneira como ela gostava. Ou da maneira como o pai e o av de Michael haviam gostado. Ela voltou 
a pensar no marido, com profunda ternura. Depois, lentamente, seus pensamentos se deslocaram para George. Como George fora maravilhoso para ela nos ltimos anos. 
Teria sido impossvel continuar em seu trabalho sem a ajuda de George. Ele removia os fardos dos ombros dela to freqentemente quanto era possivel, deixando-lhe 
apenas as decises importantes, o trabalho criativo. E a glria. Marion sabia quantas vezes George fizera isso por ela. Era um homem de grande fora e, ao mesmo 
tempo, de profunda humildade. Ela se perguntou por que no prestara maior ateno a todas as virtudes de George uma dzia de anos antes. Mas nunca houvera tempo. 
Para George ou para qualquer outro. No desde a morte do pai de Michael. Talvez, no final das contas o filho no fosse to diferente dela.
       Marion estava sorrindo para si mesma quando a campainha da porta da sute interrompeu-lhe os pensamentos. Ela teve um sobressalto, como se houvesse esquecido 
por um momento onde estava. Eram 16h25min. A moa estava 25 minutos atrasada. Mas, secretamente, Marion sentia-se satisfeita por ter podido passar esse tempo sozinha.
       Ela ajeitou o rosto numa mscara distinta e caminhou calmamente at a porta. O vestido de seda azul-marinho e as quatro fieiras de prolas caam nela  perfeio, 
assim como as unhas impecveis, a maquilagem discreta que a fazia parecer mais com 45 anos do que beirando os 60 anos. Ainda seria uma bela mulher dentro de 20 anos, 
se vivesse at l. Nada podia vencer Marion Hillyard, nem mesmo o tempo. Ela deu os parabns a si mesma por isso, enquanto abria a porta para a jovem elegante com 
o portflio de artista nas mos.
       - Srta. Adamson?
       - Exatamente. - Marie assentiu com um pequeno sorriso tenso. - Sra. Hil1yard?
       Mas ela sabia. No vira Marion naquela noite de maio porque seus olhos estavam vendados, mas a conhecia bastante das fotografias no apartamento de Michael. 
Teria reconhecido a me dele at num beco escuro em Tquio. Aquela era a mulher que atormentara seus sonhos por dois anos. Aquela era a mulher que quisera outrora 
como sua me e amiga. Mas isso no mais acontecia.
       - Como tem passado? - Marion estendeu a mo fria e firme. Apertaram-se as mos cerimoniosamente, ainda na porta, antes que Marion fizesse um gesto na direo 
do interior da sute. - No quer entrar?
       - Obrigada.
       As duas mulheres se fitaram com interesse e cautela. Marion sentou-se numa cadeira perto da mesa. Mandara providenciar ch e refrescos para a sua convidada. 
Parecia muito trabalho para uma jovem que j lhe custara quase meio milho de dlares. Se  que se tratava da mesma moa. Ela a fitou atentamente, mas nada conseguiu 
descobrir. No havia qualquer semelhana com nenhuma das fotografias que vira ao longo dos anos. Aquela no era a mesma moa. Ou pelo menos no parecia ser. Mas 
Marion recostou-se para observ-la e escutar. Jamais esqueceria aquela voz entrecortada e abalada da ocasio em que tinham. feito o acordo.  
       - O que posso oferecer-lhe pra beber? Ch? Soda! Ou podemos pedir um drinque, se preferir.
       - No, obrigada, Sra. Hillyard. Prefiro apenas...
       Mas a voz de Marie se desvaneceu, enquanto as duas se fitavam, o pretexto do encontro quase esquecido, a mulher mais velha avaliando a mais moa, observando-lhe 
os movimentos, a textura e jeito dos cabelos, tomando a contemplar novamente a impresso global. Era uma jovem extremamente bonita, em roupas visivelmente dispendiosas. 
Marion se descobriu perguntando-se se o dinheiro que fornecia para a moa sobreviver no estaria sendo gasto em trajes assim. O vestido de l era obviamente de Paris, 
a bolsa de camura e os sapatos eram de Gucci, a capa bege era simples, revestida com uma pele escura que Marion julgou ser de gamb americano.
       - Est usando um casaco muito bonito, que deve ser mais do que suficiente para esta cidade. Invejo imensamente o clima ameno de So Francisco. Quando parti, 
Nova York estava sob meio metro de neve. - Marion exibiu um sorriso cativante para a jovem, antes de acrescentar: - Conhece Nova York?
       Era uma pergunta com segundas intenes e Marie sabia disso. Mas podia responder com toda sinceridade. Vivera na Nova Inglaterra, mas passara muito pouco 
tempo em Nova York. Se tivesse casado com Michael, teria ido viver em Nova York. Mas isso no acontecera. O rosto impassvel e a voz um pouco mais dura, ela respondeu:
       - No conheo muito bem. No sou realmente uma pessoa que aprecie a cidade grande. No tenho o traquejo de cidade grande.
       Ela era agora pura Marie, no havia o menor vestgio de Nancy
       -  difcil de acreditar, pois me parece to elegante quanto a melhor mulher de cidade grande.
       Marion tornou a sorrir, mas era o sorriso de uma barracuda contemplando um tenro barrigudinho.
       - Obrigada.
       Sem dizer mais nada, Marie pegou o portflio, ps em seu colo, enquanto Marion observava, e puxou o zper. Sorridente, entregou Marion um grosso livro preto, 
com cpias de seus trabalhos. O livro era grande e difcil de manejar, a mulher mais velha pareceu titubear ao peg-lo. Foi s nesse momento que Marie notou como 
as mos dela tremiam. O tempo no fora generoso com Marion Hillyard, no final das contas. Seria possvel que algumas de suas preces mais horrendas houvessem sido 
atendidas? Ela ficou observando a mulher atentamente, mas Marion pareceu recuperar o controle, enquanto virava as pginas, em silncio. S depois de um tempo  que 
ela comentou:
       - Posso entender por que Ben Avery ficou to ansioso em contrat-la para o nosso centro. Seu trabalho  extraordinrio. Deve ter uma experincia de muitos 
anos.
       Para variar, era uma pergunta inocente. Marie sacudiu a cabea.
       - No. A fotografia  uma atividade nova para mim. Eu era pintora antes.
       -  isso mesmo. Ben tinha-me falado.
       Contudo, Marion parecia surpresa. Esquecera-se na verdade de que podia estar falando com Nancy McAllister, de to absorvida que ficara ao contemplar os trabalhos.
       -  to boa assim em pintura?
       - Eu pensava que era.
       Marie sorriu para a mulher. Uma transformao quase fantstica estava se processando. Ela sentia que estava observando Marion Hillyard atravs de um espelho 
de truque: podia ver Marion claramente, mas a pessoa que Marion via era na verdade uma outra. Marie pensou que era a nica a conhecer o segredo.
       - E agora gosto da fotografia tanto quanto gostava antes da pintura.
       - Por que mudou? - indagou Marion, levantando a cabea, intrigada.
       - Porque tudo na minha vida mudou abruptamente, a tal ponto que me tornei uma pessoa nova. A pintura era parte da vida antiga, do meu outro eu. Doa demais 
lev-la para a nova vida.
       Marion quase estremeceu ao ouvir essas palavras.
       - Entendo. Seja como for, pelo que estou vendo, o mundo no sofreu uma perda.  uma fotgrafa maravilhosa. Quem a iniciou na carreira? Indubitavelmente, s 
pode ter sido um dos grandes fotgrafos locais. H muitos por aqui.
       Mas Marie limitou-se a sacudir a cabea, sorrindo. Era muito estranho. Fora at ali para odiar aquela mulher, mas agora descobriu que no podia. No de todo. 
 verdade que no gostava dela, mas tambm no podia odi-la. Marion parecia extremamente cansada e frgil por trs da atitude arrogante e das prolas. Usava uma 
mscara morturia cuidadosamente oculta sob a maquilagem. Mas por baixo do verniz podia-se perfeitamente perceber que as tristezas do outono estavam  espreita, 
com o inverno j se avizinhando. Marie forou a mente a se concentrar na pergunta da mulher, tentando recordar qual era. Ah, sim...
       - No foi, no. Para dizer a verdade, foi um amigo quem me iniciou. Meu mdico, para ser mais exata. Ele foi o responsvel pela minha carreira de fotgrafa. 
 um homem que conhece todo mundo nesta cidade.
       - Peter Gregson.
       As palavras saram suavemente dos lbios de Marion, como num sonho, dando a impresso de que ela no tivera a menor inteno de pronunci-las. As duas ficaram 
to chocadas que passaram algum tempo em silncio, finalmente rompido por Marie:
       - Conhece-o?
       Por que a mulher dissera aquilo? Ser que ela sabia? Mas no era possvel. Ser que Peter... No, ele jamais faria uma coisa dessas.
       - Eu... conheo... - Marion hesitou por um longo momento e depois fitou a moa nos olhos. - Conheo-o, sim, Nancy. Ele fez um excelente trabalho em voc.
       Era um tiro no escuro. Mas Marion no podia deixar de diz-lo, mesmo que assim bancasse a tola. Precisava saber de qualquer maneira.
       - Deve haver algum mal-entendido. Meu nome  Marie...
       E no instante seguinte, como uma boneca de trapos, ela desmoronou. Havia lgrimas em seus olhos quando se levantou e foi at a janela, ficando de costas para 
a sala.
       - Como soube?
       A voz estava abalada e zangada. A mesma voz de dois anos atrs. Marion recostou-se na cadeira, cansada mas aliviada. De certa forma, confortava-a saber que 
acertara. No fizera aquela viagem difcil a troco de nada. Marie insistiu:
       - Algum lhe contou?
       - No. Simplesmente adivinhei. Nem mesmo sei por qu. Mas tive o pressentimento logo na primeira vez em que Ben mencionou seu nome. Os detalhes se ajustavam.
       Oh, diabo! Marie tinha vontade de perguntar  mulher como estava Michael. Queria... Ser que aquilo nunca sairia de sua vida? Ser que eles nunca iriam embora?
       - Por que veio at aqui? Para reafirmar o nosso acordo? - Marie virou-se bruscamente para encarar a mulher que tanto a atormentara - Para certificar-se de 
que cumprirei minha promessa? 
       - J provou isso. - A voz de Marion era cansada e gentil, estranhamente velha. - No, no foi por isso. Nem mesmo sei por que, mas tinha de v-la. Falar com 
voc. Descobrir como , se era realmente voc.
       - Por que agora? Por que eu deveria ser to interessante depois de dois anos? - Subitamente, havia veneno na voz de Marie e dio em seus olhos. O dio que 
ela sonhara despejar tantos meses. - Por que agora, Sra. Hillyard? Ou estava apenas curiosa em dar uma olhada no trabalho de Gregson? Foi isso? Pois o que est achando 
de sua obra de quatrocentos mil dlares? Valeu a pena?
       - Por que voc mesma no responde a essa pergunta? Valeu a pena? Est satisfeita?
       Era o que Marion esperava. Subitamente, desesperadamente, era o que ela esperava. Todos haviam pago um preo muito alto pelo novo rosto dela. Fora um erro. 
De repente, Marion tinha certeza disso. Mas era tarde demais. No eram as mesmas pessoas. Ela podia ver isso na moa, tanto quanto podia ver em Michael. Era tarde 
demais, muito tarde mesmo, para qualquer dos dois. Teriam de ir procurar seus sonhos em algum outro lugar.
       -  uma linda moa agora, Marie.
       - Obrigada. Tem razo, sei que Peter fez um bom trabalho. Mas foi como fazer um acordo com o demnio. Um rosto por uma vida.
       Com um suspiro entrecortado, Marie afundou numa poltrona.
       - E eu sou o demnio. - A voz de Marion tremia, enquanto ela olhava para a moa. - Imagino que  algo repulsivo dizer isso agora, mas na ocasio pensei que 
estivesse fazendo o que era mais certo.
       - E agora? - Marie fitou-a nos olhos. - Michael est feliz? Valeu a pena livrar-se de mim, Sra. Hillyard? A misso foi um sucesso?
       Oh, Deus, ela queria ferir fundo aquela mulher. Queria massacr-la, destru-la, com todo aquele vestido de grande dama, todas as prolas.
       - No, Marie, Michael no est feliz, assim como voc tambm no est. Sempre pensei que ele fosse recomear a vida. E que o mesmo aconteceria com voc. Mas 
algo me diz que isso no lhe aconteceu. No que eu tenha o direito de perguntar. 
       - No, no tem. E Michael? Ele no est casado?
       Marie detestou-se por isso, mas rezou para que a resposta fosse no.
       - Est, sim. - Marie soltou uma exclamao de desespero, mas conseguiu se controlar a tempo. - Michael est casado com o seu trabalho. Vive, come, dorme e 
respira o trabalho. Como se esperasse perder-se no trabalho para sempre. Quase no o vejo.
       Isso  muito bom, sua miservel! Muito bom mesmo!
       - Diria ento que estava errada? Eu o amava, sabe disso. Mais que a qualquer coisa na vida.
       Exceto o meu rosto... oh, Deus... exceto...
       - Claro que sei. Mas pensei que passaria.
       - E passou?
       - Talvez. Ele nunca a menciona.
        - E alguma vez tentou me encontrar?
       Marion sacudiu lentamente a cabea.
       - No.
       Mas ela no explicou o motivo para isso. No contou que Michael pensava que ela estava morta. A mentira lhe pesou no momento mesmo em que dizia a palavra, 
observando o rosto da moa contrair-se numa mscara de dio.
       - Mas por que estou aqui? Apenas para satisfazer a sua curiosidade? Mostrar-lhe o meu trabalho? Por qu?
       - No tenho certeza, Nancy. Desculpe... Marie. Simplesmente tinha de v-la. Saber como fora para voc. Imagino que seja um tanto sentimental dizer isso, mas 
a verdade  que estou morrendo.
       Marion parecia estar sentindo um pouco de pena de si mesma, mas no instante seguinte ficou aborrecida por ter falado. Marie no pareceu ficar comovida. Ficou 
olhando fixamente para a mulher por longo tempo, antes de voltar a falar, a voz suave, hesitante:
       - Lamento saber disso, Sra. Hillyard. Mas eu morri h dois anos. E tenho a impresso de que a mesma coisa aconteceu com seu filho. Assim, somos dois. Nas 
suas mos, Sra. Hillyard. Para ser sincera,  muito difcil para mim sentir alguma simpatia por si. Creio que deveria pelo menos ser grata.. Talvez devesse agradecer-lhe 
porque os homens viram a cabea para me olhar todos os dias, ao invs de sarem correndo horrorizados. Talvez devesse sentir uma poro de coisas. Mas no sinto. 
No sinto nada por si agora, a no ser pena, porque arruinou a vida de Michael e sabe disso. Para no falar do que fez com a minha vida.
       Marion assentiu em silncio, sentindo todo o impacto da censura da jovem. Ela prpria j sabia de tudo aquilo. Secretamente, j o sabia h dois anos. Pelo 
menos em relao a Michael. No o sabia em relao  moa. Talvez tivesse ido procur-la justamente por isso.
       - No sei o que dizer.
       - Adeus seria timo.
       Marie pegou o casaco e o portflio e encaminhou-se para a porta da sute. Parou ali por um momento, a mo na maaneta, a cabea baixa, as lgrimas comeando 
a escorrer pelas faces. Virou-se lentamente e viu que tambm havia lgrimas no rosto de Marion. A mulher mais velha estava oprimida e silenciosa por sua agonia particular, 
mas a jovem conseguiu respirar fundo e murmurar:
       - Adeus, Sra. Hillyard. E transmita... transmita a Michael... o meu amor.
       Marie fechou a porta silenciosamente ao sair. Mas Marion Hillyard no se mexeu. Sentia o corao bater forte contra os pulmes, em pontadas de dor prolongadas, 
que pareciam dilacerar-lhe o peito. Ofegando para respirar, cambaleou at a campainha que chamaria uma criada. Conseguiu apert-la uma vez antes de desmaiar.


Captulo 23

       Os passos de George ecoavam pelo corredor do hospital enquanto ele quase corria para o quarto dela. Por que Marion insistira em ir sozinha? Por que sempre 
tinha de ser to terrivelmente independente, mesmo depois de todos aqueles anos? Ele bateu de leve na porta e uma enfermeira abriu-a com expresso inquisitiva.
       -  o quarto da Sra. Hillyard? Sou George Calloway.
       Ele parecia nervoso, cansado e velho. E era tambm assim que se sentia. J no agentava mais todo aquele absurdo. E era o que ia dizer a Marion assim que 
a visse. J o dissera a Michael antes de deixar Nova York.
       A enfermeira sorriu ao ouvir o nome dele.
       - , sim, Sr. Calloway. Estvamos a sua espera.
       Marion estava no hospital desde as seis horas da tarde. George conseguira chegar a So Francisco por volta das onze horas da noite, horrio local. Agora, 
passavam alguns minutos de meia-noite. Era praticamente impossvel fazer a viagem mais depressa. O sorriso de Marion reconhecia esse fato quando a enfermeira abriu 
a porta para deixar George entrar, ao mesmo tempo em que saa para o corredor.
       - Ol, George.
       - Ol, Marion. Como se sente?
       - Cansada, mas viverei. Pelo menos foi o que me disseram. O ataque no foi dos maiores.
       - Desta vez. Mas como ser na prxima?
       George parecia invencvel ao avanar pelo quarto, fitando-a com uma expresso furiosa. No se deteve nem mesmo para beij-la. Tinha muito o que dizer.
       - Vamos deixar para nos preocupar com a prxima vez quando acontecer. E agora sente-se e relaxe, George. Est me deixando nervosa. O que o est incomodando? 
Pedi  enfermeira que lhe guardasse um sanduche.
       - No posso comer.
       - Pare com isso! Nunca o vi desse jeito, George. No foi nada srio. No precisa ficar assim.
       - No me diga como devo estar, Marion Hillyard. Venho observando-a destruir  a si mesma h tempo demais e agora no vou mais admitir.
       - Vai me deixar? - Marion sorriu-lhe da cama. - Por que no se aposenta?
       Ela estava achando graa da cena, at o momento em que George virou-se para fit-la com expresso decidida..
       -  exatamente o que vou fazer, Marion. Aposentar-me.
       Ela percebeu que era srio. E era tudo o que lhe faltava naquele momento.
       - No seja ridculo.
       Mas Marion no tinha certeza se conseguiria demov-lo. Ela se sentou na cama, com um sorriso nervoso.
       - No estou sendo, Marion.  a primeira deciso inteligente que tomo nos ltimos vinte anos. E quer saber quem mais vai se aposentar tambm? Voc, Marion. 
Ns dois vamos nos aposentar. Imediatamente. J conversei a respeito com Michael, a caminho do aeroporto. Ele teve a gentileza de me levar ao aeroporto e pediu para 
dizer-lhe que lamenta no poder vir tambm, mas est preso em Nova York neste momento. Michael acha que nossa aposentadoria  uma excelente idia. E  o que eu tambm 
penso. Para ser franco, ningum est interessado no que voc pensa, Marion. A deciso j foi tomada.
       - Ficou doido. George? E o que pensa exatamente que vou fazer com o meu tempo se me aposentar? Ficar tricotando?
       - No seria uma idia das piores. Mas a primeira coisa que vai fazer  casar-se comigo. Depois disso, pode fazer qualquer coisa que lhe aprouver. Menos... 
- A voz de George se alteou ameaadoramente. - ... trabalhar. Est bem claro, Sra. Hillyard?
       - No vai ao menos me pedir para casar-me com voc? Ou simplesmente est me dizendo e pronto? Ser que isso  tambm uma ordem de Michael?
       Mas Marion no estava zangada. Ao contrrio, estava comovida. E aliviada. J no agentava mais. J fizera o bastante, em todos os sentidos, os piores e os 
melhores. E tambm sabia disso. O encontro com Marie naquela tarde a levara a compreender tudo.
       - Temos a aprovao de Michael, se  que isso faz alguma diferena. - E um momento depois a voz de George se abrandou, enquanto se aproximava da cama e pegava 
a mo de Marion, apertando-a gentilmente. - Quer casar-se comigo, Marion?
       Ele estava quase que com medo de perguntar, depois de todos aqueles anos. Mas finalmente conversara com Michael a respeito, nos momentos ansiosos antes do 
vo. Michael dissera-lhe algo estranho a respeito de "celebrar o amor de vocs". George no compreendera, mas ficara grato pelo estmulo.
       - E ento, quer casar-se comigo?
       Ele apertou a mo de Marion um pouco mais firmemente, enquanto aguardava a resposta. Ela assentiu lentamente, com um sorriso cansado, mas afetuoso, uma expresso 
quase de pesar.
       - Deveramos ter pensado h muitos anos, George.
       Marion queria dizer algo mais... que no estava certa se tinha o direito... no depois...
       - Pensei nisso h muitos anos, mas nunca me passou pela cabea que voc pudesse aceitar.
       - Provavelmente eu no teria aceitado. Porque sou uma idiota. Oh, George... - Marion suspirou e tornou a recostar-se nos travesseiros. - Tenho feito tantas 
coisas estpidas na vida...
       O rosto dela deixou subitamente transparecer toda a agonia da tarde. George ficou a observ-la atentamente, aturdido pelo tormento que via no rosto de Marion, 
misturado com a fadiga.
       - No diga tamanha bobagem. No consigo lembrar-me de uma nica besteira que voc tenha feito em todos esses anos em que nos conhecemos. - Ele continuava 
a segurar a mo de Marion, afagando-a afetuosamente. H anos que queria fazer isso, exatamente daquela maneira. - No se atormente com as bobagens do passado.
       Mas Marion havia-se novamente sentado na cama e fitava-o nos olhos, a mo fria e tensa.
       - E se uma bobagem dessas, como voc chama, tiver destrudo as vidas de outras pessoas? Tenho o direito de esquecer isso tambm, George?
       - Ora, Marion, o que voc poderia ter feito para destruir a vida de outra pessoa?
       George comeou subitamente a pensar que o mdico talvez tivesse aplicado uma droga bem forte a Marion. Ou talvez o ltimo ataque a tivesse afetado mentalmente. 
O que ela dizia no fazia o menor sentido.
       Marion voltou a se acomodar entre os travesseiros e fechou os olhos.
       - No compreende, George.
       - E deveria?
       A voz dela era extremamente gentil, no quarto quase s escuras.
        - Talvez. Se soubesse, tenho certeza de que no estaria to ansioso em casar-se comigo.
       - No diga bobagem. Mas se  assim que se sente, ento acho que tenho o direito de saber o que a est perturbando. Qual  o problema?
       George ainda no tinha largado a mo dela. Marion finalmente voltou a abrir os olhos. Fitou-o em silncio por longo tempo, antes de falar:
       - No sei se posso contar-lhe.
       - Por que no? No posso imaginar qualquer coisa que seja capaz de me chocar. E no posso tambm imaginar qualquer coisa a seu respeito que eu ainda no conhea. 
- H anos que no tinham segredos um para o outro. - Estou comeando a pensar que o ataque desta tarde deixou-a profundamente abalada.
       - A verdade que tive de enfrentar  que causou o ataque.
       O tom de Marion era diferente de tudo o que George conhecera antes. Havia lgrimas nos olhos dela. George sentiu vontade de abra-la, faz-la sentir-se melhor. 
Mas compreendia agora que Marion tinha realmente algo muito importante para contar-lhe. Seria possvel que ela tivesse mantido um romance com outro homem durante 
todos aqueles anos? A idia deixou-o abalado. Mas poderia aceitar at mesmo isso. Ele a amava. Sempre a amara. Esperara tempo demais por aquele romance para permitir 
agora alguma coisa o estragasse.
       - Alguma coisa especial aconteceu esta tarde?
       George ficou a observ-la atentamente, esperando pela resposta. Marion voltou a fechar os olhos, as lgrimas escorrendo silenciosamente por suas faces. Ao 
final, ela assentiu e murmurou:
       - Aconteceu.
       - Entendo. Pois trate de relaxar agora. No vamos ficar excitados s por causa disso.
       George estava comeando a ficar preocupado com o estado dela. Temia que tivesse outro ataque.
       - Vi a moa.
       - Que moa?
       Mas, afinal, de que moa Marion estava falando?
       - A moa pela qual Michael estava apaixonado. - As lgrimas cessaram por um momento. Marion sentou-se outra vez na cama e fitou-o. - Lembra-se da noite do 
acidente de Michael, em que ele foi a Nova York para conversar comigo? Voc apareceu no meu apartamento e ele foi embora. Estava furioso. Michael tinha ido dizer-me 
que pretendia casar-se com aquela moa. E eu lhe mostrei... o relatrio que tinha mandado preparar a respeito dela...
       A voz dela se desvaneceu por um momento, enquanto recordava a cena. George franziu a testa ainda mais. Era evidente que Marion estava confusa em decorrncia 
de alguma droga. Era a nica explicao. A moa a que ela estava-se referindo havia morrido no acidente.
       - Marion, querida, no pode ter visto a moa. Pelo que me recordo, ela... ela... ahn... faleceu no...
       Mas Marion sacudiu a cabea firmemente, os olhos jamais se afastando dos olhos de George. 
       - No, George, ela no morreu. Falei que ela morreu e Wick ficou de boca fechada. Mas a moa sobreviveu. Com o rosto inteiramente destrudo.  exceo dos 
olhos.
       George no disse nada, embora estivesse escutando atentamente. Era uma Marion perturbada, uma Marion angustiada, mas no era uma Marion desvairada. George 
sabia que ela estava dizendo a verdade.
       - Fui at o quarto dela naquela noite e propus um acordo.
       Ele continuou esperando, em silncio. Marion fechou os olhos, como se estivesse sentindo uma dor intensa. George apertou-lhe a mo ainda mais firmemente.
       - Voc est bem, Marion?
       Ela assentiu, tornando a abrir os olhos.
       - Estou, sim. Talvez eu me sinta melhor depois que lhe contar tudo. Ofereci um acordo  moa. O rosto dela em troca de Michael. H diversas maneiras mais 
bonitas de diz-lo, mas no final tudo se resume a isso. Wick disse que conhecia um homem no pas que podia restaurar o rosto dela. Custaria uma fortuna, mas o tal 
mdico poderia faz-lo. Propus  moa pagar o tratamento e tudo o mais que ela precisasse, at que todas as operaes acabassem. Ofereci-lhe uma vida inteiramente 
nova, uma vida que ela nunca tivera antes, desde que concordasse em nunca mais procurar Michael.
       - E ela concordou? 
       - Concordou.
       - Neste caso, ela no devia am-lo tanto assim. E voc tomou uma atitude elogivel ao se oferecer para pagar a cirurgia. No podemos nos esquecer de que se 
os dois se amassem tanto jamais teriam aceitado um acordo assim.
       - No est compreendendo, George.- O tom de Marion agora estava gelado. Mas sua raiva estava dirigida contra si mesma e no contra George. - No fui honesta 
com nenhum dos dois. Disse a Michael que ela havia morrido. E sabia perfeitamente que a moa tinha certeza de que Michael jamais respeitaria o acordo. Foi provavelmente 
por isso que ela concordou. Por isso e pelo fato de que no tinha alternativa. Nada mais lhe restava. Exceto eu... oferecendo-lhe um acordo com o demnio, como ela 
prpria classificou esta tarde. George, voc sabe muito bem que Michael jamais teria aceitado um acordo desses, se soubesse da verdade. Teria voltado para a moa 
sem a menor hesitao.
        - Ele no sofreu tanto assim. E j se recuperou.  possvel tambm que os dois nem mesmo continuassem a se amar agora.
       George estava procurando desesperadamente por um blsamo para as feridas de Marion. Mas no podia deixar de admitir que era uma ferida profunda e devia ter 
sido muito difcil suport-la. Sabia que Marion pensara que estava defendendo os interesses de Michael, mas ela jogara com a vida do filho.
       -  verdade, Marion. Provavelmente os dois se tornaram bastante diferentes. Podem nem mesmo querer saber um do outro agora
       - Sei disso. - Marion recostou-se nos travesseiros, com um suspiro - Michael est obcecado por seu trabalho. No tem amor, no tem ternura, no tem tempo, 
no tem nada. Nada lhe restou e sei disso melhor que qualquer outra pessoa. E ela... - Marion recordou dolorosamente os acontecimentos daquela tarde. - Ela  bonita, 
elegante. E amargurada e furiosa, dominada pelo dio. Formam um casal encantador.
       - E voc se julga a responsvel por tudo isso?
       - Sabendo o que sabe agora, no concorda? - Contra a sua vontade, os olhos de Marion voltaram a se encher-se de lgrimas. Cometi um erro terrvel ao me intrometer 
entre os dois, George.
       - Talvez os danos possam ser reparados. E nesse intervalo, voc devolveu a vida  moa. E uma vida melhor, sob certos aspectos.
       - E ela me odeia por isso.
       - Ento  uma tola.
       Marion sacudiu a cabea.
       - No, George. Ela est certa. Eu no tinha o direito fazer o que fiz. E se tivesse alguma coragem, por menor que fosse, contava tudo a Michael.
       Mas apesar de seus princpios, George esperava que ela jamais chegasse a isso. A ira de Michael destruiria Marion. O filho nunca mais voltaria a respeit-la 
como antes.
       - No conte nada a Michael, querida. Agora, no iria adiantar coisa alguma.
       Marion percebeu o medo nos olhos dele e sorriu.
       - No se preocupe. No sou to corajosa assim. Mas Michael vai acabar descobrindo. Com o tempo. Darei um jeito para que isso acontea. Ele tem o direito de 
saber. Mas espero que ele ouo tudo por intermdio da moa, no momento em que ela o aceitar de volta. Talvez assim ele possa perdoar-me.
       - Acha que h alguma possibilidade da moa aceitar Michael de volta?
       - Creio que no. De qualquer forma, devo fazer o que puder.
       - Oh, Deus...
       - Fui eu que comecei tudo isso. Agora, devo aos dois alguma coisa. Talvez nada resulte disso tudo, mas tenho a obrigao de tentar.
       - Por acaso manteve-se em contato com a moa durante todo esse tempo?
       - No. Tornei a v-la e falar-lhe pela primeira vez hoje. 
       - Estou entendendo agora. E como foi que isso aconteceu?
       - Marquei um encontro. No tinha certeza se era ela mesma, mas desconfiava. E estava certa.
       Marion parecia satisfeita consigo mesma e George sorriu pela primeira vez na ltima meia hora.
       - Deve ter sido um encontro e tanto.
       George compreendia agora por que Marion tivera um novo ataque. Era de admirar que no a tivesse matado.
       - Poderia ter sido pior. - A voz dela era outra vez gentil, os olhos voltaram a se encher de lgrimas. - Poderia ter sido muito pior. Tudo o que realmente 
fez foi mostrar-me como eu estava errada, que destrura a vida dela, assim como a de Michael.
       - Pare com isso, Marion. No destruiu nenhum dos dois. Deu a Michael uma carreira pela qual qualquer homem sacrificaria a prpria vida e deu  moa algo que 
ningum mais podia ter.
       - O qu? Desespero? Angstia?
       - Se  assim que ela se sente, ento  uma ingrata. O que me diz de um rosto novo? Uma vida nova? Um mundo novo?
       - Desconfio que  um mundo extremamente vazio, exceto pelo trabalho dela. Nesse sentido, ela  muito parecida com Michael.
       - Nesse caso, talvez eles possam novamente construr algo juntos. Mas, at l, o que est feito, est feito. No pode continuar a se punir para sempre por 
causa disso. Fez o que pensou que era certo na ocasio. E eles so jovens, querida. Ambos possuem uma vida inteira pela frente. Se a desperdiarem, a culpa ser 
deles. O que no devemos fazer  desperdiar a nossa.
       George queria dizer que "resta-nos pouco tempo", mas no o fez. Inclinou-se em direo a Marion, enquanto ela se estendia na cama e levantava os braos para 
ele. George apertou-a firmemente, sentindo todo o calor do corpo dela em seus braos.
       - Eu a amo, querida. Lamento que tenha passado por tudo isso sozinha, sem me contar. Deveria ter-me falado tudo h muitos anos.
       - Voc ter-me-ia odiado.
       A voz de Marion estava abafada por seus prprios soluos e pelo ombro de George.
       - Nunca. Nem naquela ocasio nem agora. Jamais seria capaz de qualquer outro sentimento que no o de am-la. E a respeito profundamente por me contar tudo 
agora. Eu jamais teria sabido.
       - Mas eu saberia, George. E tinha de descobrir o que voc pensava.
       - Acho que tudo isso foi uma agonia para todos. Agora faa o que puder para remediar a situao e depois no pense mais assunto. Afaste-o de sua mente, do 
corao, da conscincia. Est acabado. E ns dois temos uma vida nova para comear. Temos o direito a essa vida. Voc pagou caro por tudo o que fez. No tem de punir-se 
a si mesma por coisa alguma. Vamos casar-nos e ir embora, viver a nossa vida. Deixemos que eles cuidem de suas prprias vidas.  
       - Ser que tenho realmente o direito a isso?
       Marion parecia mais jovem outra vez quando George contemplou-lhe o rosto.
       - Tem, meu amor, claro que tem. - E no instante seguinte ele a beijou, gentilmente a princpio, depois sofregamente. Ao diabo com Michael, a moa e tudo o 
mais. Ele queria Marion com tudo o que ela tinha de bom e de ruim, com seu gnio e seu excessos. - E agora voc vai se esquecer de tudo e tratar de dormir. Amanh, 
vamos sentar-nos e planejar o casamento. Comece a pensar em coisas mais sensatas, como o tipo de vestido que vai encomendar e quem vai providenciar as flores. Entendido?
       Marion fitou-o nos olhos e riu.
       - George Callaway, eu o amo.
       - O que  timo. Mesmo que no me amasse, eu me casaria com voc de qualquer maneira. Nada me deteria agora. Entendido?  
       - Sim, senhor. 
       Estavam se olhando radiantes, quando a enfermeira meteu a cabea pela porta. Era uma hora da madrugada. E com instrues especiais do mdico ou no, ele tinha 
de se retirar. George assentiu para indicar que compreendia, deu um beijo de leve em Marion, apertou-lhe a mo e presenteou-a com um sorriso que nada poderia ofuscar, 
deixando o quarto relutantemente. Deitada na cama, Marion sentiu-se enormemente aliviada. Ele a amava de qualquer maneira. E lhe devolvera um pouco de sua prpria 
f em si mesma.
       Olhando para o relgio, Marion decidiu telefonar para Michael. Talvez pudesse fazer imediatamente alguma coisa para remediar a situao. Ao inferno com a 
diferena de horrio. No tinha um momento a desperdiar. Nenhum deles tinha. Ela pegou o telefone no quarto s escuras e discou para o apartamento de Michael em 
Nova York. O telefone tocou quatro vezes antes que Michael atendesse e balbuciasse, sonolento:
       - Al?
       - Sou eu, querido
       - Mame? Voc est bem?
       Michael acendeu rapidamente a luz e fez um esforo para ficar inteiramente desperto.
       - Estou tima. E tenho uma coisa para lhe dizer.
       - J sei. George me falou.
       Michael bocejou e sorriu ao telefone, depois olhou para o relgio. Puxa! Eram cinco horas da manh em Nova York. Duas horas da madrugada em So Francisco. 
Que diabo Marion estava fazendo acordada e onde se metera a enfermeira dela?
       - Voc aceitou?
       - Claro. As duas propostas. Vou at me aposentar. Isto , mais ou menos.
       Michael no pde deixar de rir ao ouvir as ltimas palavras. Era tpico de Marion. George ia ter o maior trabalho para cont-la. Mas ele se sentia satisfeito 
pelos dois.
       - Mas estou telefonando por outro motivo.
       Marion parecia novamente firme e profissional. Michael soltou um resmungo. J conhecia aquele tom.
       - No me venha tratar de negcios a essa hora! Por favor!
       - No diga bobagem. Isso no  hora para tratar de negcios. Queria dizer-lhe que me encontrei com a jovem.
       - Que jovem? 
       A mente de Michael estava em branco. Fora um dia extremamente difcil. Trs reunies, cinco encontros e a notcia de que a me sofrera outro ataque, sozinha 
em So Francisco.
       - A fotgrafa, Michael. Acorde.
       - Ah, sim... E da?
       - Ns a queremos.
       - Queremos?
       - Absolutamente. No posso insistir agora, porque George ficaria uma fera comigo. Mas voc pode.
       - Deve estar brincando. Tenho muito o que fazer aqui em Nova York. Ben pode cuidar do problema.
       - Ela j o repeliu, Michael. E  uma jovem de classe, inteligncia e carter. No vai querer tratar com subalternos.
       - Pois ela est me parecendo insuportvel.
       - Era a mesma impresso que eu tinha. Preste ateno, Michael, no importa o que tenha de fazer, quero que a contrate de qualquer maneira. Lisonjeie-a, conquiste-a, 
pegue um avio e venha at aqui, convide-a para jantar. Seja o mais encantador que puder. Ela vale a pena. Quero o seu trabalho no centro. Faa isso por mim.
       Marion estava engabelando o filho suavemente, o que era uma novidade. Ela sorriu para si mesma.
       - Ficou doida, mame, e no tenho tempo a perder com essas coisas. - Michael estava deitado na cama, sorrindo. No havia a menor dvida de que a me tinha 
perdido o juizo. - Por que no o faz pessoalmente, mame?
       - No posso. E se voc no fizer, vou voltar ao escritrio em tempo integral e vai ver s o que acontece.
       Ela parecia estar falando srio e Michael teve de rir.
       - Est bem, mame. Farei o que est me pedindo.
       - Vou exigir o cumprimento da promessa.
       - Juro que farei. Est satisfeita agora? Posso voltar a dormir?
       - Pode. Mas quero que comece a trabalhar nisso imediatamente.
       - Como  mesmo o nome dela?
       - Marie Adamson.
       - Est certo. Cuidarei disso amanh.
       - timo, querido. E... obrigada.
       - Boa noite, sua coruja tonta. E por falar nisso, parabns. Posso levar a noiva ao altar?
       - Claro que pode. Eu jamais aceitaria outro qualquer. Boa noite, querido.
       Ambos desligaram. Em So Francisco, Marion Hillyard finalmente estava em paz. Talvez no funcionasse. Talvez fosse tarde demais. Os dois anos haviam cobrado 
um pesado tributo a ambos.
Mas era tudo o que ela podia fazer agora. No, isso no era verdade. Ela poderia ter contado a verdade a Michael. Mas com um pequeno suspiro, antes de cair no sono, 
Marion admitiu para si mesma que ainda no estava preparada para assumir a santidade. Iria ajud-los um pouco. Mas no iria alm disso. No contaria a Michael o 
que fizera. Ele provavelmente acabaria descobrindo, mas talvez, a esta altura, j houvesse felicidade suficiente para amortecer o golpe.


Captulo 24

       George beijou-a ternamente na boca e a msica suave recomeou. Marion contratara trs msicos para tocarem no casamento, em seu apartamento. Havia cerca de 
70 convidados e a sala de jantar fora transformada em pista de dana. O buf estava arrumado na biblioteca. E era um dia perfeito. O ltimo do ms de fevereiro, 
um dia claro, frio e magnfico em Nova York. Marion estava inteiramente recuperada do pequeno contratempo em So Francisco e George parecia exultante. Michael beijou 
a me nas duas faces e ela posou entre o marido e o filho para o fotgrafo do Times. Marion usava um vestido de renda que caa at o cho e tanto Michael como George 
estavam vestidos formalmente de cala listrada e fraque. George usava um cravo branco na lapela enquanto o de Michael era vermelho. A noiva tinha um ramo de orqudeas 
beges, que tinham vindo de avio da Califrnia especialmente para a ocasio, juntamente com as flores viosas espalhadas pelo apartamento. O decorador de Marion 
cuidara disso pessoalmente.
       - Sra. Calloway?
       Era Michael, oferecendo o brao  me para conduzi-la ao buf. Marion riu como uma menina ao ouvir o seu novo nome e depois sorriu para George. Estavam comemorando, 
como Michael dissera que deviam fazer. Michael estava satisfeito por ambos. Mereciam aquilo. E iam agora passar dois meses na Europa, para descansarem. Ele no podia 
deixar de pensar como a me se mostrara sensata ao se retirar da firma. Talvez, no final das contas, Marion estivesse mesmo preparada para se aposentar. Ou talvez 
o corao finalmente a tivesse apavorado, depois de todo aquele tempo. Mas tanto ela como George haviam se mostrado duas pessoas maravilhosas com quem trabalhar, 
enquanto transferiam todo o poder para as mos dele, Michael. Agora ele era o presidente da Cotter-Hillyard e no podia deixar de reconhecer que no se aborrecia 
com a sensao que isso proporcionava. Presidente... aos 27 anos. Fizera a capa do Time. O que tambm fora extremamente agradvel. Ele imaginava que a me e George 
dariam a capa de People, com o casamento.
       - Est muito elegante, querido.
       A me fitou-o com uma expresso radiante, enquanto seguiam para a biblioteca. Estava repleta de flores e mesas com comida. E junto s paredes enfileiravam-se 
criados adicionais.
       - Voc tambm est muito atraente. E o apartamento no faz por menos.
       - No est mesmo lindo?
       Marion parecia surpreendentemente jovem ao se afastar dele para falar com alguns convidados e dar as ltimas instrues aos criados. Estava inteiramente em 
seu elemento, to excitada como uma garota. Sua me, a noiva. Michael sorriu para si mesmo, ao pensar nisso.
       - Est parecendo muito satisfeito consigo mesmo, Sr. Hillyard
       A voz era suave e familiar. Michael virou-se e deparou com Wendy a sua direita. No mais se sentia constrangido ao v-la. Ela estava com o diamante solitrio 
que Ben lhe dera no Dia dos Namorados, ao ficarem noivos. Iam casar-se no vero seguinte. E ele seria o padrinho.
       - Ela no est maravilhosa?
       Wendy assentiu e sorriu-lhe novamente. Por uma vez, Michael parecia feliz tambm. Wendy jamais conseguira entend-lo direito, mas pelo menos isso no mais 
a perturbava, agora que tinha Ben. Ben a fazia mais feliz que qualquer outro jamais conseguira.
       - Mas tenho certeza de que voc estar igualmente maravilhosa no prximo vero. Tenho um fraco por noivas.
       Parecia algo improvvel nele e Wendy voltou a sorrir. Gostava muito mais dele agora que partilhava a sua amizade com Ben
       - Tentando conquistar minha noiva, companheiro? - Era Ben ao lado deles, segurando trs taas de champanhe. - Aqui est, para vocs dois. E tem uma coisa 
que lhe quero dizer, Michael, estou apaixonado por sua me.
       -  tarde demais. Eu a entreguei a outro homem esta manh. - Ben estalou os dedos, como se tivesse acabado de sofrer uma grande perda. Todos trs riram, enquanto 
a msica comeava a tocar na sala de jantar. - Ei, acho que isso  um aviso para mim. O filho tem direito  primeira dana e depois George me substitui. Emily Post 
diz...
       Ben soltou uma risada e deu-lhe um empurro na direo da porta e de suas obrigaes.
       - Ele parece feliz hoje - murmurou Wendy, depois que Michael se afastou.
       - E acho que est mesmo, para variar. - Pensativo, Ben tomou um gole de champanhe e um momento depois sorriu novamente para Wendy. - Voc tambm parece feliz 
hoje.
       - Estou sempre feliz, graas a voc. Por falar nisso, voltou a procurar aquela fotgrafa de So Francisco? H algum tempo estou querendo perguntar-lhe, mas 
nunca tenho tempo.
       Mas Ben estava sacudindo a cabea.
       - No. Michael disse que iria encarregar-se pessoalmente do problema.
       - E ele tem tempo para isso?
       Wendy parecia surpresa.
       - No. Mas provavelmente dar um jeito de arrumar. Conhece Michael. Ele vai a So Francisco na prxima semana, por isso e quatro mil outras razes.
       No, pensou Wendy consigo mesma, no conheo Michael. Ningum conhece. Exceto talvez Ben. Mas s vezes ela se perguntava se Ben realmente o conhecia to bem 
quanto ele gostava de pensar. Talvez antigamente. Mas ser que Ben continuava a conhec-lo ?
       - Gostaria de danar, minha cara?
       Ben largou a taa e passou o brao pela cintura dela, a fim conduzi-la  outra sala.
       - Adoraria.
       Mas estavam danando h apenas um momento quando Michael bateu no ombro de Ben:
       -  a minha vez.
       -  uma ova. Mal comeamos. Pensei que estivesse danando com sua me.
       - Ela me trocou por George.
       - Muita sensatez da parte dela.
       Os trs estavam se deslocando juntos pela pista de dana e Wendy estava comeando a rir. Ver os dois juntos daquela maneira era como vislumbrar Michael e 
Ben de anos atrs. Era o tipo de situao em que ambos se mostravam exultantes. Uma dose generosa de champanhe, uma ocasio para comemorar e l estavam eles. - Escute, 
Avery, vai sumir daqui ou no? Quero danar com sua noiva.
       - E se eu no quiser que voc dance?
       - Ento danarei com os dois... e minha me nos expulsar.
       Wendy estava sorrindo novamente. Eram como dois garotos, dispostos a qualquer coisa para provocar confuso numa festa de aniversrio. Os dois estavam comeando 
a entoar uma cano sobre uma "garota de Rhode lsland", o que a deixou preocupada.
       - Escutem vocs dois! Eu estava esperando que fosse duas vezes mais divertido. Em vez disso, estou tendo os dois ps pisados ao mesmo tempo. Por que no vamos 
todos comer o bolo de casamento?
       - Vamos?
       Ben e Michael se fitaram, assentiram ao mesmo tempo e obsequiosamente se apossaram dos braos de Wendy, um de cada lado, conduzindo-a para fora da sala. Michael 
olhou para Ben por cima da cabea dela e piscou um olho.
       - Ela  bastante elegante, mas acho que  meio cambaia. Reparou na maneira como danava? Meus sapatos esto praticamente estragados.
       - Devia ver os meus.
       Ben falou num sussurro, por cima do ombro esquerdo dela.
       Bruscamente, Wendy meteu os cotovelos em ambos.
       - Escutem, seus palhaos, algum por acaso reparou nos meus sapatos? Sem falar nos meus ps doloridos, por ter danado com dois caipiras de porre.
       - Caipiras?
       Ben fitou-a com uma expresso horrorizada e Michael comeou a rir, enquanto pegava os trs pratos com bolo de casamento que uma empregada uniformizada oferecia. 
Ps-se a brincar com os pratos e quase deixou cair dois.
       - No d importncia a ela. O bolo parece sensacional. Tomem aqui.
       Michael entregou os pratos a Wendy e Ben. Os trs se encostaram numa coluna e ficaram observando o movimento, enquanto comiam, vendo as velhas matronas em 
vestidos rendados cinzas, as moas de chiffon rosa, cascatas de prolas, as mais variadas pedras preciosas.
       - Puxa, j pensaram no que poderamos conseguir se os assaltssemos?
       Michael parecia fascinado pela idia.
       - Nunca tinha pensado nisso. Era o que deveramos ter feito anos atrs. Na escola, quando estvamos duros.
       Ambos assentiram um para o outro, enquanto Wendy os observava com um sorriso desconfiado.
       - No tenho certeza se poderei deixar vocs dois sozinhos quando for empoar o nariz.
       - No se preocupe. Ficarei de olho nele, Wendy.
       Michael piscou para ela sorridente e pegou outra taa de champanhe. Wendy nunca o vira daquele jeito, mas estava gostando. Ben tinha razo. No final das contas, 
Michael era humano. V-lo daquela maneira, meio tonto e bancando o tolo, era conhec-lo como cinco anos antes. Ou mesmo dois anos.
       - No creio que os dois consigam desvirar os olhos o suficiente para verem qualquer coisa, muito menos um ao outro.
        - Ora... no enche, Wendy. Estamos em grande forma.
       Ben pegou mais duas taas de champanhe, entregando uma a Michael e acenando para que sua noiva seguisse na direo do banheiro.
       - Ela  uma garota e tanto, Michael. Fico contente que no tenha ficado furioso quando lhe contei a nosso respeito.
       - Como poderia ficar furioso? Ela  a garota certa para voc. Alm do mais, ando muito ocupado para essas coisas.
       - Um dia desses no vai mais estar 
       -  possvel. Enquanto isso, vocs podem se mandar e casar-se. Mas eu tenho de ficar, para dirigir a firma.
       Mas, por uma vez, Michael no parecia sombrio ao dizer isso. Olhou por cima da taa de champanhe com um sorriso e depois fez um brinde ao amigo: 
       - A ns.


Captulo  

       O avio pousou suavemente em So Francisco, enquanto Michael fechava sua pasta. Tinha mil e uma coisas a fazer no decorrer da prxima semana. Encontros com 
mdicos, reunies a que comparecer, locais de obras a visitar, arquitetos a organizar, pessoas, projetos, conferncias, tudo exigindo a sua ateno e... oh, diabo... 
e tambm a tal fotgrafa. Perguntou-se como conseguiria arrumar tempo para tudo. Mas daria um jeito. Sempre dava. Deixaria de comer, dormir ou qualquer outra coisa 
assim. Ele pegou a capa na prateleira por cima de sua cabea, onde a deixara dobrada, pendurando-a no brao e seguindo os outros passageiros de primeira classe para 
fora do avio. Sentia os olhos das aeromoas fixados nele. Era o que sempre acontecia. Ignorou-as. Elas no o interessavam. Alm do mais, ele no tinha tempo. Olhou 
para o relgio. Sabia que haveria um carro a sua espera no terminal. Passavam vinte minutos das duas horas da tarde. Conseguira realizar um dia inteiro de trabalho 
em apenas meio expediente no escritrio em Nova York e agora tinha tempo para pelo menos quatro ou cinco reunies em So Francisco. Na manh seguinte, j havia marcado 
um encontro para tratar de negcios durante o caf da manh, s sete horas. Era assim que sua vida transcorria. Era assim que ele gostava. Tudo o que se importava 
era com seu trabalho. Do trabalho e de um punhado de pessoas. Duas das quais estavam naquele momento desfrutando uma imensa felicidade em Majorca, na casa de amigos, 
enquanto a outra estava nas boas mos de Wendy, em Nova York. Todas estavam sob bons cuidados. Assim como ele. Tinha o centro mdico para absorv-lo. E tudo estava 
correndo s mil maravilhas. Michael sorriu para si mesmo, enquanto se encaminhava para o terminal. Aquela era uma obra sua.
       - Sr. Hillyard? - O motorista reconheceu-o imediatamente e Michael assentiu. - O carro est ali.
       Michael recostou-se no assento, enquanto o motorista ia buscar sua bagagem no caos do terminal. Era bastante agradvel estar novamente em So Francisco. Era 
um dia de maro de frio intenso em Nova York quando ele partira. Agora, eram 6h15min da tarde em So Francisco e tudo ao seu redor estava verde, vioso e maravilhoso. 
Em Nova York, as rvores ainda estavam desfolhadas, cinzentas, o verde continuaria a ser uma cor esquecida por mais um ms. Era muito difcil esperar a primavera 
em Nova York. Sempre se tinha a impresso de que jamais chegaria. E no momento mesmo em que se estava desistindo, chegando-se  concluso de que nada voltaria a 
ficar verde, os primeiros botes apareciam, traziam de volta a esperana. Michael havia-se esquecido de como a primavera era agradvel. Nunca notara. No tinha tempo.
       O motorista levou-o diretamente para o hotel, onde algum funcionrio subalterno da firma j o registrara e providenciara para que a sute estivesse devidamente 
preparada para a primeira reunio. Ele reservara duas sutes, uma para poder ficar em paz, a outra para as reunies. E se houvesse necessidade, as reunies poderiam 
ser realizadas simultaneamente nas duas sutes. Eram nove horas da noite quando ele terminou todo o trabalho do dia. Cansado, ligou para o servio e pediu um fil. 
Era meia-noite em Nova York e ele estava exausto. Mas haviam sido umas poucas horas bastante proveitosas e Michael estava satisfeito. Recostou-se no sof, tirou 
a gravata, ps os ps em cima da mesinha e fechou os olhos. E depois teve a impresso de ouvir a voz da me na sala: "J ligou para a moa?" Oh, Deus! As palavras 
pareciam ecoar pela sala, que ainda recendia a fumaa de cigarro e  rodada de scotches que pedira ao final. Mas a moa... por que no? Tinha tempo, enquanto esperava 
o fil. Podia impedi-lo de cair no sono. Ele pegou a pasta, encontrou o nmero do telefone numa ficha e discou do sof mesmo. O telefone tocou trs ou quatro vezes, 
antes que ela atendesse.
       - Al?
       - Boa noite, Srta. Adamson. Aqui  Michael Hillyard.
       Marie quase soltou um grito de espanto e teve de fazer um tremendo esforo para controlar a respirao.
       - Entendo. Est em So Francisco, Sr. Hillyard?
       A voz dela era brusca, parecia quase furiosa. Talvez ele tivesse ligado num momento errado. Ou ento ela no gostava de receber telefonemas de negcios em 
casa. Mas Michael no se importava.
       - Estou, sim, Srta. Adamson. E estava imaginando que poderamos encontrar-nos. Temos algumas coisas a discutir.
       - No, no temos absolutamente nada a discutir. Pensei que tivesse deixado isso bem claro para sua me.
       Marie estava tremendo toda e apertando o fone com fora.
       - Se falou,  possvel que ela tenha esquecido o recado. - Michael estava comeando a parecer to tenso quanto ela. - Ela sofreu um pequeno ataque cardaco 
logo depois do encontro que tiveram. Tenho certeza de que nada teve a ver com o encontro, mas a verdade  que ela no me disse muita coisa a respeito do que conversaram. 
O que  compreensvel, em vista das circunstncias.
       - , sim. - Marie fez uma breve pausa. - Lamento saber disso. Ela est bem agora?
       - Est, sim. - Michael sorriu. - Casou-se na semana passada e neste momento est em Majorca.
       Essa  tima! A desgraada arruna minha vida e depois parte em lua-de-mel! Marie sentiu vontade de ranger os dentes ou bater com o telefone.
       - Mas isso no tem importncia para ns. Quando podemos nos encontrar?
       - J dei a resposta: no podemos!
       Marie quase cuspiu as palavras pelo telefone, voltando a fechar os olhos. Mas Michel estava cansado demais para se incomodar com qualquer coisa.
       - Est certo. Aceito a sua recusa, pelo menos por enquanto. Estou no Fairmont. Se mudar de idia, pode telefonar-me. 
       - No vou telefonar.
       - Como quiser.
       - Boa noite, Sr. Hillyard.
       - Boa noite, Srta. Adamson.
       Marie estava surpresa ao descobrir como Michael encerrara rapidamente a conversa. E no parecia absolutamente com Michael. Parecia cansado, como se realmente 
no se importasse com coisa alguma. O que teria acontecido com ele nos ltimos dois anos? Depois que desligou, ela ficou sentada em silncio por longo tempo, pensando.



Captulo 26
        
       - Querida, voc est com uma aparncia terrivelmente solene. Algum problema?
       Peter fitou-a atravs da mesa do almoo. Marie sacudiu a cabea, mexendo distraidamente com o copo de vinho.
       - No. Estou apenas pensando num novo trabalho. Quero iniciar um novo projeto amanh. E isso sempre me deixa preocupada.
       Mas ela estava mentindo e ambos sabiam disso. Desde que Michael telefonara, na noite anterior, Marie fora lanada de volta ao passado. Tudo o que podia pensar 
era naquele ltimo dia. O passeio de bicicleta, a feira, as vistosas contas azuis enterradas na praia, depois o vestido branco comprido e a touca azul de cetim para 
fugir e casar-se com Michael... e depois a voz da me dele no hospital, quando estava com o rosto coberto por ataduras e os olhos vendados. Era como ter um filme 
exibido constantemente diante de seus olhos. Ela no podia escapar.
       - Voc est bem, querida?
       - Estou, sim. Desculpe estar sendo uma companhia to desagradvel hoje. Talvez eu esteja simplesmente cansada.
       Mas Peter percebera a expresso angustiada e o franzido perturbado entre os olhos de Marie.
       - Tem visto Faye ultimamente?
       - No. Estou sempre para telefonar e convid-la para almoar, mas parece que nunca tenho tempo. Desde a exposio... - Marie fez uma breve pausa, contemplando-o 
com um sorriso de agradecimento. - ... que passo a metade do tempo no laboratrio e a outra metade correndo pela cidade com a cmara.  
       - Eu no me estava referindo a um encontro social, mas sim profissional.
       - Claro que no. J lhe contei que encerramos o tratamento antes do Natal.
       - Nunca me disse se a deciso de suspender as sesses foi sua ou dela.
       - Minha. Mas Faye no discordou. - Marie sentiu-se ligeiramente magoada pelo fato de Peter pensar que ela estava precisando de mais sesses psiquitricas. 
- Estou apenas cansada, Peter. No h mais nada.
       - No tenha tanta certeza assim. s vezes, acho que ainda se sente atormentada pelos... pelos acontecimentos de dois anos atrs.
       Peter falou cautelosamente, observando-a atentamente. E ficou consternado quando a viu quase se encolher, visivelmente.
       - No diga bobagem.
       -  perfeitamente normal, Marie. As pessoas ficam atormentadas por coisas assim durante dez ou vinte anos.  uma experincia terrivelmente traumtica para 
se viver. Alguma parte de voc, bem l no fundo, ir sempre recordar o que aconteceu, mesmo tendo ficado inconsciente depois do acidente. Se conseguir faz-la descansar, 
estar livre.
       - J pus para descansar e estou livre.
       - Somente voc mesma pode julgar isso. Mas quero que tenha certeza. Caso contrrio, sutilmente, ir afet-la pelo resto da vida. Limitar a sua capacidade, 
prejudicar sua vida... Seja como for, no h necessidade de continuar. Pense no problema com todo cuidado. Pode querer continuar a se encontrar com Faye por mais 
algum tempo. No faria mal algum.
       Peter parecia preocupado.
       - No preciso.
       A boca de Marie estava contrada numa linha firme. Peter afagou-lhe a mo. Mas no pediu desculpas por ter abordado o assunto. No estava gostando do nimo 
de Marie.
       - Est certo. Vamos embora?
       Ele sorriu para ela mais gentilmente e Marie tentou retribuir o sorriso. Mas  claro que Peter estava certo. Marie estava obcecada por ter falado com Michael.
       Peter pagou a conta e ajudou-a a vestir o blazer de veludo azul-marinho, usado com saia Cacharel branca e a graciosa blusa de seda. Marie estava impecavelmente 
vestida, como sempre. Peter adorava a companhia dela.
       - Quer que eu a leve para casa?
        - No, obrigada. Pensei em dar um pulo at a galeria. Quero discutir alguns problemas com Jacques. Estou com vontade de mudar algumas das peas. Muitos trabalhos 
anteriores meus esto tendo agora mais destaque que os recentes. Estou querendo inverter essa situao.
       - O que faz sentido.
       Peter passou o brao pelos ombros dela, enquanto caminhavam ao sol da primavera. O nevoeiro da manh j se dissipara e estava fazendo um dia quente e maravilhoso. 
O manobrista trouxe rapidamente o Porsche preto e Peter abriu a porta para Marie entrar. Ela ajeitou a saia e sorriu-lhe, enquanto ele se sentava ao volante. Sabia 
agora o quanto Peter tinha importncia para ela. s vezes, porm, perguntava-se se ele a amava porque a criara ou talvez porque ela permanecia de certa forma inatingvel. 
Freqentemente, Marie sentia-se culpada por no ser mais franca com Peter. Mas apesar da afeio que sentia por ele, havia sempre uma sombra de reserva entre os 
dois. Marie sabia que era sua a culpa. E talvez Peter estivesse certo. Talvez ela estivesse condenada a ficar para sempre atormentada e abalada pelo acidente. Talvez 
devesse voltar a procurar Faye.
       - No parece com muita disposio para falar hoje, meu amor. Ainda pensando no novo projeto?
       Ela assentiu, com um sorriso constrangido. Depois, passou a mo gentilmente pela nuca de Peter.
       - s vezes me pergunto por que voc me atura.
       - Porque tenho muita sorte em t-la.  uma pessoa muito especial para mim. Espero que saiba disso.
       Mas por qu? Havia ocasies em que Marie ficava pensando nisso. Ser que era parecida com a outra mulher a quem ele amara? Ser que Peter a fizera assim deliberadamente? 
Era uma idia terrvel.
       Marie recostou-se no assento por um momento e fechou os olhos, tentando relaxar. Mas abriu os olhos subitamente, ao sentir Peter dar uma guinada busca no 
pequeno carro. Tudo o que viu foi um Jaguar vermelho avanando na direo do lado do carro em que ela estava, de frente, o seu motorista ultrapassando um caminho 
estacionado em fila dupla. Por algum motivo, o motorista do Jaguar fora alm do necessrio e entrara na contramo, at ficar bem perto de Marie. Ela ficou olhando, 
os olhos arregalados pelo horror, apavorada demais para emitir qualquer som. Mas o incidente foi contornado em um rpido instante. Peter conseguiu evitar o outro 
carro e o Jaguar vermelho afastou-se na direo oposta, avanando um sinal vermelho. Marie ficou paralisada no assento, aterrorizada, agarrando o painel com fora, 
os olhos fixados  frente, a boca tremendo, as lgrimas prestes a se derramarem, a mente voltando a algo que testemunhara vinte e dois meses antes. Peter compreendeu 
imediatamente o que estava acontecendo. Parou o carro e inclinou-se para abra-la. Mas Marie estava rgida demais para se mover. No instante em que ele a tocou, 
Marie comeou a gritar. Os gritos vinham do fundo de sua alma e Peter teve de sacudi-la, envolv-la em seus braos, para subjug-la.
       - Calma, querida, calma... Est tudo bem agora. Est tudo bem. Fique calma. J acabou. Nada igual jamais voltar a acontecer. Est tudo acabado.  .
       Marie desmoronou em soluos de terror, as lgrimas escorrendo pelo rosto, todo o corpo tremendo. Peter abraou-a firmemente. Quase meia hora se passou antes 
que Marie parasse de chorar, recostando-se no assento, exausta. Peter ficou a observ-la em silncio por algum tempo, afagando-lhe o rosto e os cabelos, segurando-lhe 
a mo, deixando-a sentir que estava de fato segura. Mas ele estava profundamente perturbado pelo que presenciara. Confirmava o que vinha pensando. Quando Marie finalmente 
parou de tremer e relaxou, ao lado dele, Peter ps-se a falar-lhe, suavemente, mas firmemente, enquanto Marie fechava os olhos:
       - Tem de voltar a se encontrar com Faye. Ainda no est superado para voc. E no estar enquanto no enfrentar o problema e alcanar a cura.
       Mas quanto mais ela podia enfrentar? E o que havia para curar? O amor de Marie por Michael? Como ela poderia curar isso? Como poderia contar a Peter que falara 
com Michael pelo telefone e que isso lhe despertara uma vontade intensa de abra-lo, beij-lo, sentir novamente as mos dele em seu corpo? Como poderia dizer uma 
coisa dessas a Peter? Em vez disso, Marie fitou-o com expresso cansada e assentiu em silncio.
       - Vou pensar nisso.
       - timo. Quer que eu a leve para casa?
       A voz de Peter era extremamente gentil e ela concordou. No tinha foras para ir at a galeria agora. No voltaram a falar at chegarem ao prdio em que Marie 
morava.
       - Quer que eu a leve at o apartamento, Marie?
       Mas ela se limitou a sacudir a cabea e beijou-o no rosto. E s disse uma palavra ao saltar do carro: 
       - Obrigada.
       No olhou para trs ao atravessar a calada. Subiu lentamente a escada, o fardo dos vinte e dois meses solitrios pesando terrivelmente em seus ombros. Se 
ao menos Michael jamais tivesse telefonado... Isso lhe trouxera de volta toda a angstia. E para qu? De que adiantava? Talvez ele no se importasse com coisa alguma, 
no final das contas. Queria simplesmente as fotografias dela. Pois que o desgraado comprasse o trabalho de qualquer outra pessoa. Por que diabo no podia deix-la 
em paz?
       Marie entrou no apartamento e foi direto para a cama. Fred foi pulando a seus ps e subiu na cama. Mas Marie no estava com disposio para brincar. Empurrou 
Fred para o cho e ficou deitada na cama por muito tempo, pensando se deveria ligar para Faye ou se isso tambm de nada adiantaria. Estava comeando a cochilar, 
numa exausto irrequieta, quando o telefone tocou. Ela teve um sobressalto e levantou-se. No queria atender. Mas provavelmente era Peter, querendo saber como ela 
estava e no tinha direito de deix-lo ainda mais preocupado do que j o fizera naquela tarde. Lentamente, estendeu a mo para o telefone.
       - Al?
       A palavra saiu trmula de seus lbios.
       - Srta. Adamson?
       Oh, Deus, no era Peter! Era...  Marie fechou os olhos para conter as lgrimas, enquanto um suspiro interminvel sacudia todo o seu corpo.
       - Pelo amor de Deus, Michael, deixe-me em paz!
       Ela desligou. No outro lado da linha, Michael ficou olhando para o fone, na mais total confuso. O que estaria acontecendo? E por que ela o chamara de Michael?


Captulo 27

       Marie parecia cansada e tensa na manh seguinte, ao entrar na galeria com Fred. Usava uma cala preta e uma suter verde, cores que lhe ficavam muito bem. 
Mas parecia extremamente plida depois de uma longa noite sem dormir, durante a qual revivera, pelo menos dez mil vezes, o seu ltimo dia com Michael e o acidente. 
Tinha a sensao de que jamais conseguiria escapar, nem que vivesse mil anos. E sentia-se pelo menos com cem anos de idade naquela manh.
       - Parece que andou trabalhando demais, meu amor.
       Jacques sorriu-lhe de trs da escrivaninha em seu escritrio. Ele estava usando o seu uniforme habitual: uma cala jeans francesa de corte impecvel, justa 
no corpo, blusa preta de gola rol e casaco de camura St. Laurent. Nele, a combinao parecia perfeita.
       - Ou ser que ficou acordada at tarde com o nosso mdico predileto?
       Ele era um velho amigo de Peter e j gostava imensamente de Marie. Ela sorriu em resposta e tomou um gole do caf que Jacques lhe servira. Era um caf puro, 
bem forte, o nico que ele tomava. Trazia-o da Frana, juntamente com outros artigos preciosos, sem os quais no podia sobreviver. Marie adorava caoar dele por 
seu chauvinismo e pelos gostos dispendiosos. Como presente de aniversrio, dera-lhe papel higinico com o logotipo da Gucci impresso. E tambm uma pasta da Herms, 
que era mais ao estilo de Jacques. Mas ele gostara tambm do presente de brincadeira.
       - No, no fui a lugar nenhum com Peter. Acho que passei tempo demais trancada no laboratrio.
       - Mas que garota mais doida! Uma mulher como voc deveria estar sempre danando.
       - Mais tarde. Depois que eu trabalhar mais um pouco.
       Marie comeou a descrever sua nova idia para uma srie de fotografias sobre a vida nas ruas de So Francisco. Jacques assentiu em aprovao, visivelmente 
satisfeito.
       - a me plaite, Marie.  uma excelente idia. Deve comear assim que puder.
       Ele estava prestes a entrar em detalhes quando bateram na porta da sala. Era a secretria, gesticulando discretamente.
       - Provavelmente  uma das suas namoradas, Jacques. 
       Marie adorava caoar dele por causa disso. Jacques deu de ombros, sorrindo, enquanto contornava a mesa para ir falar com a secretria, alm da porta. Escutou 
as palavras que ela lhe sussurrou e depois concordou, parecendo extremamente satisfeito. Fez um gesto afirmativo e depois voltou para a sala e sentou-se, olhando 
para Marie como se estivesse prestes a conceder-lhe um presente maravilhoso.
       - Tenho uma surpresa para voc, Marie. - Nesse momento, soou outra batida na porta - Algum muito importante est interessado em seu trabalho.
       A porta abriu-se antes que Marie tivesse tempo de compreender plenamente o significado daquelas palavras ou suas implicaes. Subitamente, ela se descobriu 
virando a cabea para deparar com Michael. Quase soltou um grito e sentiu a xcara de caf fumegante tremer em sua mo. Ele estava muito bonito, num terno azul marinho, 
camisa branca, gravata escura; parecia em tudo o magnata que na realidade era.
       Marie largou a xcara para apertar a mo estendida de Michael. Ele ficou impressionado ao constatar como ela parecia serena e controlada ali no escritrio 
de Jacques. No parecia absolutamente a mesma mulher que atendera ao telefone na noite anterior, com angstia na voz, suplicando que a deixasse em paz. Talvez ela 
tivesse outros problemas, provavelmente com homens. Talvez estivesse embriagada na ocasio. Com artistas, nunca se podia saber. Mas nenhum desses pensamentos transpareceu 
no rosto de Michael, assim como Marie no demonstrou o seu terrvel constrangimento.
       - Estou extremamente contente por finalmente encontr-la. Exigiu-me muito trabalho, Srta. Adamson. Mas talentosa como , imagino que tem esse direito.
       Ele sorriu indulgentemente e Marie olhou para Jacques, que estava de p atrs da mesa, estendendo a mo para Michael. Ele estava muito impressionado pelo 
interesse da Cotter-Hillyard no trabalho de Marie. Michael explicara claramente  secretria que seu interesse era profissional, no para a sua prpria coleo particular 
ou para seu gabinete. Queria o trabalho dela para um dos maiores projetos que sua firma j realizara e Jacques estava aturdido. Mal podia esperar pelo momento em 
que Marie saberia. Mesmo a fria reserva dela seria destruda por uma notcia to espetacular. Mas s que Marie parecia agora to impassvel quanto antes, pelo menos 
naquele instante. Ela estava imvel na cadeira, evitando o olhar de Michael e com um sorriso frio nos lbios.
       -  Posso ir direto ao ponto e explicar aos dois o que tenho em mente?
       - Claro que pode!
       Jacques acenou para que a secretria servisse caf a Michael e depois recostou-se para escutar. Michael ps-se a explicar em detalhes o que estava querendo 
fazer com o trabalho de Marie. Era um projeto pelo qual qualquer fotgrafo teria lutado arduamente. Mas no final da exposio, Marie ainda parecia indiferente. Sacudiu 
a cabea ligeiramente e virou-se a fim de olhar para Michael.
       - Sinto muito, mas minha resposta ainda  a mesma, Sr. Hillyard.
       - J conversaram sobre isso antes?
       Jacques estava confuso e Michael apressou-se em explicar:
       - Um dos meus companheiros, minha me e at mesmo eu j entramos em contato com Srta. Adamson, no apartamento dela. J lhe falamos do projeto, embora apenas 
de passagem, mas a resposta dela foi invariavelmente no. Eu tinha a esperana de faz-la mudar de idia.
       Jacques olhou para Marie, aturdido. Ela estava sacudindo a cabea.
       - Lamento muito, mas no posso aceitar o trabalho.
       - Mas por que no?
       As palavras eram de Jacques. Ele estava quase frentico.
        - Porque no quero.
       - Pode pelo menos informar-nos seus motivos?
       A voz de Michael era extremamente suave e tinha algo novo, o conhecimento de seu prprio poder. Marie ficou irritada ao descobrir que gostava desse aspecto 
da voz dele. Mas isso em nada contribuiu para faz-la mudar de idia.
       - Pode chamar-me de uma artista temperamental, se quiser. De qualquer coisa. A resposta continua a ser no. E jamais deixar de ser no.
       Marie largou a xcara em cima da mesa, olhou para os dois homens e levantou-se. Estendeu a mo para Michael e sacudiu novamente a cabea, com expresso sombria.
       - De qualquer forma, obrigada por seu interesse. Tenho certeza de que encontrar a pessoa certa para o seu projeto. Talvez Jacques possa recomendar algum. 
H muitos artistas e fotgrafos excepcionais ligados  galeria.
       - Mas, infelizmente, queremos apenas voc.
       Michael parecia agora obstinado e Jacques estava quase apopltico. Mas Marie no ia perder aquela batalha, de jeito nenhum. J perdera demais.
       -  uma atitude irracional de sua parte, Sr. Hil1yard. E infantil. Vai ter de encontrar outra pessoa. No vou trabalhar consigo. E ponto final.
       - Estaria disposta a trabalhar com outra pessoa da firma? Marie tornou a sacudir a cabea e encaminhou-se para a porta.
       - Pode pelo menos considerar um pouco a proposta?
       Ela estava de costas para Michael ao parar por um instante na porta, mas novamente sacudiu a cabea. No instante seguinte, eles ouviram a palavra no, enquanto 
ela se retirava com o cachorro. Michael no perdeu um momento sequer com o aturdido dono da galeria, que continuou sentado atrs da mesa. Ele saiu correndo para 
a rua, atrs dela, gritando:
       - Espere um instante!
       Nem mesmo sabia por que estava fazendo aquilo, mas sentia que precisava. Alcanou-a enquanto ela se afastava apressadamente.
       - Posso acompanh-la por um momento?
       - Se quiser. Mas no vai adiantar.
       Marie olhava fixamente para frente, evitando os olhos de Michael, que seguia a seu lado, obstinadamente.
       - Por que est fazendo isso? Simplesmente no faz o menor sentido.  pessoal? Alguma coisa que sabe a respeito de nossa firma? Uma experincia desagradvel 
por que passou? Algo relacionado comigo?
       - No faz a menor diferena.
       - Mas claro que faz! - Michael deteve-a, segurando-lhe firmemente o brao. - Tenho o direto de saber.
       - Tem mesmo? - Ambos pareceram ficar parados ali por uma eternidade, at que finalmente Marie atenuou sua atitude. - Est certo.  pessoal.
       - Pelo menos sei agora que no  doida.
       Marie riu e fitou-o com expresso divertida.
       - Como pode ter certeza? Talvez eu seja.
       - Infelizmente, no creio que seja. Tenho a impresso de que simplesmente odeia a Cotter-Hillyard. Ou a mim.
       O que era um absurdo. Nem ele nem a firma jamais haviam tido qualquer publicidade desfavorvel. No estavam envolvidos em projetos controvertidos ou com governos 
suspeitos. No havia motivo para que ela se comportasse daquela maneira. Mas talvez a moa tivesse tido um romance com algum empregado do escritrio local da Cotter-Hillyard 
e isso provocara todo o seu ressentimento. Tinha de ser algo assim. Nada mais fazia sentido. 
       - No o odeio, Sr. Hillyard.
       Marie esperou por longo tempo para dizer isso, enquanto continuavam a andar.
       - No  essa a impresso que d.
       Michael sorriu e pela primeira vez parecia novamente um garotinho. Como o que costumava caoar dela, quando estava em seu apartamento, junto com Ben. Aquele 
vislumbre do passado foi um impacto no corao de Marie, que tratou de desviar os olhos.  
       - Posso convid-la para tomar uma xcara de caf em algum lugar? 
       Marie ia recusar, mas mudou de idia, achando que talvez assim fosse melhor, pois poderia acabar com aquilo de uma vez por todas. Talvez ento ele a deixasse 
em paz.
       - Est certo.
       Ela sugeriu um lugar no outro lado da rua e atravessaram para l, com Fred em seus calcanhares. Ambos pediram espressos. Sem pensar, Marie entregou-lhe o 
acar. Mas ele se limitou a agradecer, serviu-se e largou o aucareiro. No lhe pareceu estranho que Marie soubesse que ele tomava caf com acar.
       - No consigo explicar direito, mas acho que h algo estranho em seu trabalho. Algo que me deixa obcecado. Como se eu j o tivesse visto antes, como se j 
o conhecesse, como se compreendesse o que estava querendo mostrar e o que viu ao tirar as fotografias. Faz algum sentido para voc?
       Faz, sim. E muito sentido. Michael sempre demonstrara uma compreenso maravilhosa dos quadros dela. Marie suspirou e assentiu.
       - Acho que faz. Sempre espero que minhas fotos despertem essa impresso nas pessoas.
       - Mas elas fazem algo mais comigo. No consigo explicar direito. Como se eu j conhecesse... o seu trabalho, digamos assim. No sei direito. Parece absurdo, 
quando falo nisso.
       Mas ser que no me reconhece? No reconhece esses olhos? Marie descobriu-se a querer formular-lhe estas perguntas, enquanto tomavam caf e conversavam sobre 
o trabalho dela.
       - Tenho o pressentimento terrvel de que no vai ceder. No vai, no  mesmo? - Tristemente, Marie sacudiu a cabea. -  por causa de dinheiro?
       - Claro que no.
       - No pensei que fosse.
       Michael nem mesmo mencionou o contrato fabuloso que tinha no bolso. Sabia que de nada serviria e talvez pudesse at agravar a situao.
       - Eu gostaria de saber qual o motivo.
       - Apenas minha excentricidade. Minha maneira de me vingar do passado.
       Marie ficou chocada com a prpria sinceridade, mas Michael parecia no ter reparado.
       Estavam ambos tranqilos agora, sentados no pequeno restaurante italiano. Havia tambm uma tristeza imensa naquele encontro, um laivo de amargura e ternura 
que Michael no conseguia compreender.
       - Minha me ficou muito impressionada com o seu trabalho. E ela no  uma mulher fcil de se satisfazer.
       Marie sorriu pela escolha das palavras dele.
       - Sei que no . Foi o que ouvi dizer. Ela sempre exige o mximo.
       - Tem razo. Mas foi assim que ela levou a firma ao ponto em que se encontra hoje.  um prazer receber a firma das mos dela. Como um barco perfeitamente 
comandado.
       - O que  muita sorte sua.
       A moa parecia novamente amargurada e outra vez Michael no entendeu. Num pequeno gesto nervoso, ele passou a mo por uma pequena cicatriz na tmpora. Abruptamente, 
Marie largou a  xcara em cima da mesa e observou-o.
       - O que  isso? 
       - Isso o qu?
       - Essa cicatriz.
       Ela no conseguia despregar os olhos da cicatriz. Sabia exatamente o que significava. Tinha de ser do...
       - No  nada. J a tenho h algum tempo.
       - No parece muito antiga.
       - Tenho h uns dois anos. - Michael parecia constrangido - Mas no foi nada importante. Um pequeno acidente, em companhia de alguns amigos.
       Ele estava tentando descartar-se do assunto e Marie sentiu vontade de jogar o caf em sua cara. Mas que desgraado! Um pequeno acidente... Obrigada, meu caro. 
Sei agora tudo o que precisava saber. Ela pegou a bolsa, fitou-o friamente por um momento e depois estendeu-lhe a mo.
       - Obrigada por um momento adorvel, Sr. Hillyard. Espero que aprecie a sua estada em So Francisco.
       - J vai? Falei alguma coisa errada?
       Oh, Deus, ela era mesmo impossvel! Que diabo havia de errado com ela agora? O que ele teria dito para deix-la assim? E no instante seguinte ele ficou chocado 
ao fit-la nos olhos.
       - Para ser franca, disse, sim. - Agora, era Marie quem estava chocada, ao ouvir suas prprias palavras. - Li a respeito do acidente que sofreu e no posso 
admitir que algum o classifique como algo sem importncia. As duas pessoas que estavam em sua companhia ficaram bastante machucadas, pelo que sei. No se importa 
absolutamente com isso, Michael? Ser que no se importa com mais nada alm de sua maldita firma?
       - Mas qual  o seu problema? Onde est querendo chegar?
       - Sou um ser humano e voc no .  por isso que o odeio. 
       - Voc est doida.
       - No, meu caro, no estou mais.
       Marie levantou-se bruscamente e afastou-se. Michael ficou a olhar para ela, aturdido. E depois, como se impelido por uma fora invisvel, descobriu-se de 
p, a correr atrs dela. Deixou uma nota de cinco dlares na mesinha de mrmore e foi no encalo de Marie Adamson. Tinha de contar para ela. Tinha de... No, no 
fora um pequeno acidente. A mulher a quem ele amava morrera. Mas que direito aquela jovem tinha de saber alguma coisa? Michael no teve a oportunidade de contar, 
porque Marie acabara de entrar num txi quando ele chegou  rua.


Captulo 28

       Marie tinha acabado de chegar  praia e estava armando o trip quando avistou um vulto se aproximando. A atitude determinada do homem deixou-a perplexa, at 
que descobriu quem era. Michael. Ele desceu  praia e subiu a pequena duna, parando diante dela e bloqueando-lhe a vista.
       - Tenho uma coisa para lhe dizer.
       - No quero ouvir.
       - O problema  seu, pois vou dizer de qualquer maneira. No tem o direito de se intrometer em minha vida particular e dizer-me que espcie de ser humano sou. 
Nem mesmo me conhece.
       As palavras de Marie haviam-no atormentado durante a noite inteira. E ele descobrira, atravs do servio de recados telefnicos de Marie, onde podia encontr-la. 
Nem mesmo tinha certeza por que fora at ali, mas sabia que precisava faz-lo.
       - Que direito tem de fazer qualquer julgamento a meu respeito?
       - Absolutamente nenhum. Mas no gosto do que vejo.
       Marie parecia fria e distante, enquanto trocava a lente da cmara.
       - E o que v, exatamente?
       - Uma casca vazia. Um homem que no se importa com coisa alguma, a no ser com o seu trabalho. Um homem que no se importa com ningum, no ama nada, no 
d nada, no  nada.
       - O que voc sabe sobre o que sou, sobre o que fao, como me sinto? O que a faz pensar que  toda-poderosa para saber de tudo? - Marie contornou-o e focalizou 
a cmara na duna seguinte. - Faa o favor de me escutar!
       Michael estendeu a mo para a cmara e ela o empurrou, virando-se para ele, dominada por uma fria intensa.
       - Por que no sai de minha vida? 
       Como fez nos ltimos dois anos, desgraado!
       - No estou em sua vida! Estou apenas tentando comprar alguns trabalhos seus!  tudo o que quero! No quero os seus julgamentos sobre a minha personalidade, 
minha vida ou qualquer outra coisa! Quero apenas comprar algumas de suas malditas fotografias!
       Michael estava quase tremendo, de to furioso. Mas Marie simplesmente passou por ele, e foi at o portflio, que estava sobre uma manta na areia. Abriu-o, 
consultou uma ficha e depois pegou um negativo. Levantou-se e entregou-o a Michael.
       - Aqui est.  seu. Faa o que bem quiser com essa foto. E agora me deixe em paz.
       Sem dizer mais nada, Michael virou-se bruscamente e voltou para o carro que deixara estacionado  beira da estrada.
       Marie no virou a cabea para olh-lo, concentrando-se em seu trabalho. Ficou na praia at que o crepsculo chegou e no havia mais claridade suficiente para 
continuar a trabalhar. Voltou para o seu apartamento, preparou alguns ovos mexidos, esquentou um caf e comeu. Depois, foi para o laboratrio. Foi deitar s duas 
horas da madrugada e no atendeu quando o telefone tocou. Mesmo que fosse Peter, ela no se importava. No queria falar com ningum. E ia voltar para a praia s 
nove horas daquela manh. Ligou o despertador para oito horas e adormeceu no instante seguinte. Libertara-se de alguma coisa l na praia. E tinha de ser franca consigo 
mesma: mesmo que o odiasse, pelo menos o vira. De uma maneira estranha, isso era um alvio.
       Na manh seguinte, ela tomou um banho de chuveiro e vestiu-se em menos de meia hora. Estava usando roupas de trabalho surradas. Tomou um caf enquanto lia 
o jornal. Deixou o apartamento na hora que havia previsto, alguns minutos antes das nove horas. J estava pensando no trabalho ao descer apressadamente a escada, 
acompanhada por Fred. Foi somente quando chegou l embaixo que levantou os olhos e soltou uma exclamao de surpresa. No outro lado da rua havia um enorme cartaz, 
montado num caminho, dirigido por Michael Hillyard. Ele estava sorrindo ao observ-la. Marie sentou-se no ltimo degrau e comeou a rir. Michael era mesmo doido. 
Pegara a fotografia que ela lhe dera, mandara ampliar e montara no caminho, depois a levara at a porta dela. Ele estava sorrindo ao sair do caminho e ao aproximar-se 
de Marie. E ela ainda estava rindo quando Michael sentou-se no degrau a seu lado.
       - Est gostando?
       - Acho que voc  doido.
       -  possvel. Mas no ficou bom? Pense s como os seus outros trabalhos vo ficar, ampliados e montados nos prdios do centro mdico. No seria sensacional?
        Michael  que era sensacional, mas Marie no podia dizer-lhe isso.
        - Vamos tomar um caf e aproveitaremos para conversar.
       Naquela manh, Michael no estava disposto a receber um no como resposta. Ele adiara todas as reunies, reservando a manh inteira para Marie Adamson. E 
ela achou a determinao  dele comovente, ao mesmo tempo que divertida.
       - Eu deveria dizer no. Mas no vou dizer isso.
       - Assim  melhor. Posso dar-lhe uma carona?
       - Naquilo?
       Marie apontou para o caminho e comeou a rir novamente. 
       - Claro. Por que no?
       E assim os dois entraram na cabina do caminho e seguiram para o Cais dos Pescadores, a fim de tomarem o caf da manh. Os caminhes eram uma paisagem familiar 
ali e ningum ia se impressionar com uma fotografia daquele tamanho.
       Surpreendentemente, o caf da manh transcorreu de modo agradvel. Ambos suspenderam a guerra, pelo menos at que o cafezinho final foi servido.
       - E ento, consegui persuadi-la?
       Michael parecia muito seguro de si mesmo, enquanto a contemplava, sorridente, por cima da xcara.
       - No. Mas reconheo que foi um momento dos mais agradveis.
       - Imagino que eu deveria sentir-me grato por esses pequenos favores, mas no  o meu estilo.
       - E qual  o seu estilo? Pode dizer, em suas prprias palavras.
       - Est querendo dizer que me d uma chance de explicar-me, ao invs de ficar dizendo o que sou?
       Michael falava em tom jocoso, mas havia uma ponta de amargura em sua voz. Ela chegara perto demais do problema com alguns dos seus comentrios no dia anterior.
       - Est certo, vou lhe dizer. Sob certos aspectos, voc tem razo. Vivo para o meu trabalho.
       - Por qu? No tem mais nada em sua vida?
       - No. A maioria das pessoas bem sucedidas provavelmente no tem. No h lugar para isso.
       - O que  uma estupidez. No precisa trocar a sua vida pelo sucesso. Algumas pessoas tm as duas coisas. 
       - Voc tem?
       - No inteiramente. Mas talvez algum dia eu possa ter. De qualquer forma, sei que  possvel.
       - Talvez seja. E talvez meu estmulo j no seja o que era antes.
        Os olhos de Marie se abrandaram quando ela ouviu tais palavras. 
       - Minha vida mudou consideravelmente nos ltimos anos. No realizei nenhuma das coisas que outrora planejei. Mas... tive algumas boas compensaes.
       Como tornar-se presidente da Cotter-Hillyard, s que Michael ficou constrangido de diz-lo.
       - Entendo. Presumo que no  casado.
       - No, no sou. No tenho tempo. Nem interesse.
       Essa era tima! Portanto, no final das contas, provavelmente havia sido melhor que no tivessem mesmo casado.
       - D a impresso de que nada o atrai.
       - No momento,  isso mesmo o que acontece. E voc?'
       - Tambm no sou casada.
       - Quer saber de uma coisa? Apesar de toda a sua condenao ao meu modo de vida, no  to diferente assim. Est to obcecada por seu trabalho quanto estou 
pelo meu, igualmente solitria, igualmente encerrada em seu pequeno mundo. Ento por que  to exigente comigo? Isso no  justo.
       A voz de Michael era gentil, mas tinha um tom de censura
        - Desculpe. Talvez voc esteja certo.
       Era muito difcil discutir aquele problema. E depois, enquanto Marie pensava no que ele acabara de dizer, sentiu a mo de Michael na sua. Foi como uma faca 
a penetrar em seu corao. Ela puxou a mo, com uma expresso angustiada nos olhos. Michael parecia novamente infeliz.
       - Voc  uma mulher muito difcil de compreender
       - Creio que tem razo. H muita coisa que seria impossvel explicar.
       - Deve tentar algum dia. No sou o monstro que parece imaginar. 
       - Tenho certeza de que no .
       Fitando-o, tudo o que Marie queria era chorar. Era como dizer adeus para Michael. Era saber, novamente, o que ela nunca poderia ter. Mas talvez ela compreendesse 
melhor agora. Talvez finalmente fosse capaz de larg-la. Com um pequeno suspiro, Marie olhou para o relgio.
       - Tenho de ir trabalhar agora.
       - Cheguei por acaso mais perto de um sim como resposta  nossa proposta?
       - Infelizmente, no.
       Michael detestava ter de admitir, mas seria forado a desistir. Sabia agora que ela jamais mudaria de idia. Todos os seus esforos haviam sido em vo. Ela 
era uma mulher obstinada. Mas ele gostava dela. E estava surpreso ao descobrir quanto, no momento em que ela baixava a guarda. Havia nela uma suavidade e uma ternura 
que o atraam intensamente, como h anos no se sentia atrado por ningum.
       - Acha que eu poderia convenc-la a jantar comigo este noite, Marie? No poderia ser uma espcie de prmio de consolao, j que no consegui o que queria?
       Marie riu baixinho ao ver a cara dele e afagou-lhe a mo.
        - Bem que eu gostaria, mas neste momento no ser possvel. Infelizmente, terei de viajar.
       Oh, diabo! pensou Michael. Estava realmente perdendo a luta, um round depois do outro.
       - Para onde vai?
       - Vou voltar ao leste. Para cuidar de alguns problemas pessoais.
       Marie tomara a deciso na ltima meia hora. Mas sabia agora o que precisava fazer. No era uma questo de enterrar o passado, mas sim de desenterr-lo. E 
ela tinha certeza agora. Tinha de se curar do passado.
       - Telefonarei para voc da prxima vez que vier a So Francisco. Espero ter melhor sorte.
       Talvez. E talvez tambm, a esta altura, eu j seja a Sra. Peter Gregson. Talvez eu j esteja curada. E no ter mais qualquer importncia. Absolutamente nenhuma. 
       Voltaram em silncio ao caminho e Michael deixou-a no prdio em que ela morava. Marie quase no falou ao se despedirem. Agradeceu pelo caf da manh, sacudiu 
lentamente a cabea e subiu para seu apartamento. Michael perdera. E observando-a afastar-se, ele sentiu uma imensa tristeza. Era como se tivesse perdido algo muito 
especial. No sabia muito bem o qu. Um negcio, uma mulher, uma amiga? Alguma coisa. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sentiu insuportavelmente s. Dando 
a partida no caminho, voltou para o hotel.
       Assim que entrou no apartamento, Marie ligou para Peter Gregson.
       - Esta noite? Ora, querida, tenho uma reunio.
       Ele parecia desconcertado e estava com pressa, atendendo o telefone entre dois pacientes.
       - Ento venha depois da reunio.  importante. Vou viajar amanh.
       - Para onde? Por quanto tempo!
       Peter estava agora preocupado.
       - Eu lhe direi quando chegar aqui. Esta noite?
       - Est bem, est bem. Por volta das onze horas. Mas isso  realmente absurdo, Marie. Ser que no pode esperar?
       - No.
       Esperara por dois anos e ela fora doida em deixar assim por todo esse tempo.
       - Est certo. Eu a verei esta noite.
       Peter desligou apressadamente. Marie telefonou para uma companhia area, a fim de reservar a passagem, depois foi ao veterinrio para acertar a estada de 
Fred.


Captulo 29

       Marie teve sorte. Houve um cancelamento naquela tarde e por isso estava sentada agora na sala aconchegante e familiar que h meses no visitava. Recostou-se 
no sof e estendeu as pernas na direo da lareira apagada, por puro hbito. Olhou distraidamente para os ps metidos em sandlias. Os pensamentos estavam to longe 
dali que nem ouviu Faye entrar.
       - Est meditando ou apenas comeando a dormir?
       Marie levantou os olhos com um sorriso, enquanto Faye sentava-se a sua frente.
       - Apenas pensando.  muito bom voltar a v-la.
       Na verdade, Marie estava surpresa por se sentir to bem em voltar. S de estar ali experimentava uma sensao de voltar para casa, uma extrema serenidade 
por se ajustar novamente a um lugar feliz. Tivera bons momentos naquela sala, assim como outros difceis.
       - Devo dizer-lhe que est maravilhosa ou j se cansou de ouvir o comentrio?
       Faye fitava-a com uma expresso radiante e Marie no pde deixar de rir.
       - Nunca me canso de ouvir. - Somente com Faye ela tinha coragem de ser franca. - Creio que est querendo saber por que vim at aqui.
       O rosto dela tornou-se sbrio, enquanto fitava Faye nos olhos.
       - No posso deixar de admitir que a pergunta me passou pela cabea.
       Elas trocaram um rpido sorriso e depois Marie pareceu ficar novamente imersa em seus pensamentos, por algum tempo, at  murmurar:
       - Tenho visto Michael.
       - Ele a encontrou?
       Faye estava aturdida e mais do que um pouco impressionada.
       - Sim e no. Encontrou Marie Adamson. Isso  tudo o que ele sabe. Um dos empregados dele estava querendo me contratar. A Cotter-Hillyard est fazendo um centro 
mdico aqui em So Francisco e querem fotografias minhas ampliadas para comporem a decorao.
       - O que  extremamente lisonjeiro, Marie.
       - E quem se importa com isso, Faye? O que pode importar-me o que ele acha do meu trabalho?
       Mas isso tambm no era toda a verdade. Ela sempre apreciara os elogios de Michael e mesmo agora experimentava uma certa satisfao por saber que novamente 
atrara a ateno dele com seu trabalho.
       - A me dele esteve aqui h algum tempo e eu disse a mesma coisa que j havia falado ao tal empregado. No. No estou interessada. No vou vender nada para 
eles. No quero trabalhar para eles. E ponto final.
       - E eles insistiram?
       - Demais at.
       - O que deve ser timo. Algum deles sabe quem voc ?
       - Ben no percebeu. Mas a me de Michael descobriu. Acho que foi por isso que ela marcou um encontro comigo.
       Nancy ficou calada, olhando para seus ps. Estava muito longe, de volta ao quarto de hotel, no dia em que se encontrara com Marion.
       - Como se sentiu ao v-la?
       - Muito mal. Fez-me lembrar de tudo o que ela me havia feito. Eu a odeio.
       Mas havia algo mais em sua voz e Faye percebeu-o.
       - E...?
       - Est bem. - Marie levantou os olhos, com um suspiro. - Fez com que tudo doesse novamente. Lembrou-me do quanto eu quis outrora que ela gostasse de mim, 
at mesmo me amasse, pelo menos me aceitasse como esposa de Michael.
       - E ela ainda a rejeita?
       - No tenho certeza, mas creio que no. Agora ela  uma mulher doente. Parece diferente. Quase como se estivesse arrependida do que fizera. Aposto que Michael 
no tem sido particularmente feliz nos ltimos dois anos.
       - E como voc se sente em relao a isso?
       - Alivada. - Ela deixou escapar um suspiro de cansao. - E depois compreendi que no faz a menor diferena o que ele tem passado. Est tudo acabado para ns, 
Faye. Tudo aconteceu h anos. ramos pessoas diferentes. E a verdade  que ele nunca veio me procurar. Provavelmente no estaria agora insistindo em contratar meus 
servios se soubesse quem sou... quem eu era. Mas no sou mais Nancy McAllieter, Faye. E ele no  o Michael que conheci.
       - Como sabe?
       - Eu o vi. Est insensvel, frio, impiedoso. No sei, mas  possvel que tudo isso seja uma conseqncia. Mas h tambm muita coisa nova.
       - E o que me diz de dor? Sensao de perda? Desapontamento? Angstia?
       - No, Faye. Por que no falamos de traio, abandono, desero, covardia? No acha que so as verdadeiras questes?
       - No sei. Sero mesmo?  assim que se sente quando o v?
       - , sim. - A voz dela estava novamente dura. - Eu o odeio.
       - Neste caso, ainda deve importar-se muito com ele.
       Marie fez meno de contestar, mas depois sacudiu a cabea, enquanto as lgrimas afloravam a seus olhos. Ficou olhando em silncio para Faye por longo tempo.
       - Voc ainda o ama, Nancy?
       Faye havia usado o nome antigo deliberadamente. A jovem suspirou profundamente e deixou a cabea descair contra o encosto do sof, antes de responder. E quando 
o fez, estava olhando para o teto e a voz no tinha qualquer inflexo:
       - Talvez Nancy ainda o ame, o pouco dela que restou. Mas Marie no o ama. Tenho agora uma vida nova. No posso me permitir am-lo.
       Ela olhou para Faye com uma expresso de pesar.
       - Por que no?
       - Porque ele no me ama. Porque no  algo real. Tenho de me desligar de tudo agora. Totalmente. Sei disso. No foi para isso que vim aqui hoje, a fim de 
chorar em seu ombro por estar ainda apaixonada por Michael. Precisava contar a algum como me sinto. E no posso realmente falar com Peter a respeito. Iria deix-lo 
transtornado. Mas eu precisava de qualquer maneira tirar isso do peito.
       - Estou contente que tenha vindo procurar-me, Marie. Mas no tenho certeza se pode decidir livrar-se de tudo com essa simplicidade que est imaginando, deixar 
tudo para trs de um momento para outro.
       - Na verdade, tudo ficou para trs h dois anos. Eu  que no permiti que isso se consumasse, at agora. Disse a mim mesma que o tinha feito, mas no era 
verdade. Por isso... - Marie empertigou-se novamente no sof e fitou Faye nos olhos. - Estou indo para Boston amanh, a fim de resolver o problema de uma vez por 
todas.
       - Como assim?
       - O problema de deixar tudo para trs. - Marie sorriu, pela primeira vez em uma hora. - H algumas coisas que ficaram inacabadas por l, algumas coisas que 
Michael e eu partilhvamos. Deixei-as ficarem como um monumento a ns, porque sempre pensei que ele voltaria. Agora, tenho de ir a Boston para cuidar disso.
       - Acha que est realmente preparada para tomar tal deciso? 
       - Estou, sim.
       Marie parecia segura de si mesma, at para Faye.
       -  o que realmente est querendo?
       - , sim.
       - No quer dizer a Michael quem... quem voc era, para ver o que acontece?
       Marie quase estremeceu. 
        - Nunca! Isso est acabado. Para sempre. Alm do mais... - Ela fez uma pausa, suspirando novamente e olhando para as mos. - ... no seria justo com Peter.
       - Deve pensar em ser justa com Marie.
       -  por isso que vou partir para Boston amanh. Continuo pensando que, depois disso, talvez eu esteja livre para assumir um compromisso de verdade com Peter. 
Ele  um homem maravilhoso, Faye. E tem feito muito por mim.
       - Mas voc no o ama.
       Era assustador ouvir algum mais dizer aquelas palavras e Marie imediatamente sacudiu a cabea.
       - No! No! Eu o amo!
       - Ento por que o problema de assumir um compromisso?
       - Michael sempre se interps entre ns.
       - Isso no  problema, Marie. Basta no deixar.
       - No sei... - Ela fez uma pausa prolongada. - Alguma coisa sempre me deteve. H alguma coisa... que no est certa. Talvez eu no me tenha empenhado de verdade. 
Por um lado, fiquei esperando por Michael. Por outro... no sei, Faye, simplesmente tenho o pressentimento de que no est certo. Talvez a culpa seja minha.
       - Porque sente que no parece certo?
       - No tenho certeza, mas s vezes fico com a impresso de que Peter no me conhece. Isto , ele conhece a mim, Marie Adamson, porque  a pessoa que ajudou 
a criar. No conhece a pessoa que eu era ou as coisas que tinham importncia para mim antes do acidente.
       - No poderia ensinar-lhe isso, Marie? .
       -  possvel. Mas no tenho certeza se ele quer saber. Peter me fez sentir amada, mas no por mim mesma.
       - No se esquea de que h muito peixe no mar, Marie. 
       - Sei disso. Mas ele  um homem maravilhoso e no h razo para que no d certo.
       - No, no h... a menos que voc no o ame.
       - Mas eu o amo
       Marie estava comeando a ficar nervosa,  medida que a conversa prosseguia.
       - Pois ento relaxe-se e deixe que esse problema se resolva por si prprio. Pode voltar para c e discuti-lo comigo, se quiser. Mas primeiro vamos cuidar 
dos seus sentimentos em relao a Michael.
       - Quero apenas fazer essa viagem ao leste. E depois estarei livre.
       - Est certo. Faa a viagem, mas venha procurar-me assim que voltar. Est bem assim? 
       - Est bem.
       De certa forma, Marie estava satisfeita por voltar. Era um alvio.
       Faye olhou para o relgio com uma expresso pesarosa e levantou-se. J haviam passado uma hora e meia que estavam conversando e ela tinha uma aula na universidade 
dentro de uma hora.
       - Vai telefonar para marcar uma sesso assim que voltar? 
       - Imediatamente.
       - timo. E seja boa com voc mesma enquanto estiver no leste. No se atormente por causa do passado. E se tiver algum problema, trate de me telefonar.
       Era um alvio saber que podia recorrer a isso. Ao se retirar, Marie sentia-se mais animada que em qualquer outro momento daquela tarde. A conversa iria tornar 
mais fcil explicar sua deciso a Peter.


Captulo 30

       -Boston? Mas por qu, Marie? No estou compreendendo.
        Peter parecia cansado e irritado, o que raramente acontecia. Mas fora um dia comprido e tivera uma reunio cansativa. Todas aquelas bobagens sobre o novo 
centro mdico. E tivera de encontrar-se com os arquitetos pela manh. Por que tinha de estar no comit? Certamente tinha coisas melhores a fazer com seu tempo.
       - Acho que  uma loucura fazer essa viagem.
       - No , no. Tenho de faz-la. E estou preparada. O passado acabou para mim. Completamente.
       - To completamente que outro dia, quando quase tivemos um acidente de carro, voc ficou histrica por mais de uma hora. No, Marie, no acabou.
       - Confie em mim, querido. Vou fazer a nica coisa que deixei inacabada e depois estarei livre. Voltarei depois de amanh.
       - Continuo a achar que  uma loucura.
       - No , no.
       A voz de Marie era to serena e firme que Peter no mais insistiu, recostando-se no sof, com um suspiro cansado. Talvez, no final das contas, ela soubesse 
o que estava fazendo.
       - Est certo. No entendo, mas tenho de esperar que voc saiba o que est fazendo. Tem certeza de que estar tudo bem quando voltar para l?
       - Claro! Confie em mim.
       - E eu confio, querida. No se trata de desconfiana.  que... ora, no sei direito. No quero que fique magoada. Posso fazer-lhe uma pergunta totalmente 
absurda?
       Marie esperava que no fosse a pergunta que temia. Ainda no. Mas no era nisso que Peter estava pensando, enquanto a observava atentamente do sof.
       - Pode, sim.
       Ela ficou esperando, como pela cirurgia.
       - J sabe que Michael Hillyard est em So Francisco?
       - J, sim.
       Marie estava estranhamente calma.
       - Voc se encontrou com ele?
       - Encontrei-me. Ele foi  galeria. Quer que eu faa um trabalho para o novo projeto que est realizando aqui. Recusei a proposta.
       - Ele soube quem voc era?
       - No.
       - Por que no lhe disse?
       Agora era o momento para Marie contar-lhe sobre o acordo que fizera com a me de Michael. Mas era tarde demais. No tinha mais importncia alguma.
       - Isso no fazia qualquer diferena. O passado est encerrado.
       - Tem certeza?
       - Tenho.  por isso que estou indo para Boston.
       - Neste caso, fico contente. - E no instante seguinte Peter ficou momentaneamente preocupado. - A viagem tem alguma relao com Hillyard?
       Mas ele sabia que isso no era possvel. Tinha uma reunio marcada pela manh com Michael Hillyard. Marie sacudiu firmemente a cabea.
       - No. No da maneira como est pensando. Tem relao com o meu passado, Peter. E tem a ver somente comigo. No quero dizer mais nada alm disso.
       - Respeitarei a sua vontade.
       - Obrigada.
       Peter queria am-la naquela noite, mas no o fez. Em vez disso, retirou-se logo depois, beijando-a gentilmente. Sentia que ela precisava ficar sozinha.
       Foi uma noite tranqila e Marie ainda se sentia assim quando deixou Fred no veterinrio na manh seguinte. Sabia exatamente o que estava fazendo e por que, 
sabia que era o certo.
       Pegou o avio com toda calma e chegou a Boston s nove horas da noite. Pensou em pegar um carro e seguir para o local naquela mesma noite, mas seria pedir 
demais da sorte. Por isso, adiou o resto da viagem at a manh seguinte. J havia alugado o carro. Tudo o que precisava fazer agora era ir at l e depois voltar. 
Poderia pegar o ltimo avio de volta a So Francisco.
       Sentia-se como uma mulher com uma misso sagrada, ao deitar-se naquela noite no quarto do motel. No tinha o menor desejo de ver a cidade, de procurar quem 
quer que fosse, de ir a algum lugar. No estava realmente ali. Era tudo como um sonho, um sonho de dois anos, que ela iria reviver pela ltima vez.


Captulo 31

       - Dr. Gregson?
       - Pois no?
       Ele ainda estava distrado quando sua secretria entrou na sala. Acabara de falar com Marie no aeroporto. Tinha um pressentimento desagradvel em relao 
 viagem, mas no podia deixar de respeitar os sentimentos dela em algo to pessoal. Mesmo assim, s iria sentir-se melhor quando ela voltasse, no dia seguinte. 
Ele levantou a cabea e tentou prestar ateno em sua enfermeira, repetindo:
       - Pois no?
       - Um certo Sr. Hillyard est aqui, querendo falar-lhe. Disse que tem um encontro marcado. E veio junto com trs outros homens.
       - Mande-o entrar.
       Oh, Deus, isso era o que mais estava precisando agora! Mas por que no? Pelo menos poderia conhecer o rapaz. Ele era na verdade jovem o bastante para ser 
seu filho. Mas que pensamento miservel! Peter se perguntou se Marie alguma vez j pensara nisso.
       Os quatro homens entraram na sala e apertaram a mo do mdico. A reunio foi iniciada imediatamente. Queriam recrutar o apoio dele para que o novo centro 
mdico fosse um sucesso total. J contavam com quinze ou mais mdicos ilustres em sua "equipe" e no restava a menor dvida de que as prdios teriam uma localizao 
ideal e instalaes magnficas. Era uma opo fcil de fazer. Gregson concordou em instalar seu novo consultrio no centro e declarou-se disposto a conversar a respeito 
com alguns colegas. Mas embora suas respostas fossem mecnicas, ele ficou observando Michael, fascinado, durante toda a reunio. Ento aquele era Michael Hillyard. 
No parecia um oponente to formidvel assim. Mas parecia jovem e atraente, bastante seguro e confiante. De uma maneira desconcertante, Peter comeou a compreender 
como ele era parecido com Marie. Havia uma semelhana de energia, determinao, at mesmo de humor. A compreenso fez Peter calar-se subitamente, compreendendo tudo. 
Ficou sentado em silncio por longo tempo, observando Michael. Nem mesmo estava mais prestando qualquer ateno  reunio. Estava apenas se ajustando  realidade 
que evitara por tanto tempo. E pensando tambm no motivo que levara Marie a viajar para o leste naquela manh. Teria sido realmente para destruir os ltimos vestgios 
do passado ou para prestar-lhes uma homenagem?
       Pela primeira vez, Peter perguntou-se se teria o direito de interferir. Apenas de observar Michael, sentia que estava vendo o outro lado de Marie, um lado 
do qual no tinha o menor conhecimento. Aquele homem representava uma parte da vida de Marie que ele nem sequer compreendia, uma parte que jamais quisera conhecer. 
Ele sempre quisera que ela fosse Marie Adamson. Ela nunca fora Nancy para ele. Havia sido uma nova pessoa, uma pessoa que nascera de suas mos. Mas agora reconhecia 
que havia algum mais. Todas as peas do quebra-cabeas comeavam a se ajustar e Peter experimentava uma sensao de resignao, assim como de perda. Estivera travando 
uma guerra que no podia vencer, tentando reconstituir o seu prprio passado. Marie era realmente uma nova pessoa, mas havia nela vislumbres da mulher que ele outrora 
amara, da mulher que morrera. Acalentara esses vislumbres de Lvia, assim como da jovem que trouxera para a vida. Talvez no tivesse o direito de fazer isso. Jamais 
tivera antes tanta liberdade com qualquer paciente, porque Marie no tinha ningum em quem se apoiar. A no ser ele. Permitira-lhe que fosse tudo para ela... tudo, 
exceto o que ele queria ser agora. Observando Michael, podia compreender que seu prprio papel na vida de Marie fora muito parecido com o de um pai. Ela ainda no 
havia percebido isso, mas um dia compreenderia.
       A reunio terminou e eles se levantaram, apertando-se as mos. Os trs companheiros de Michael j estavam na ante-sala, a sua espera, enquanto ele trocava 
as ltimas amenidades com Gregson. Subitamente, tudo parou. Michael olhava fixamente para algo por cima do ombro do homem mais velho. Era o quadro que ela estava 
pintando h dois anos, antes... iria ser o seu presente de casamento... fora roubado do apartamento depois que ela morrera, pelas duas enfermeiras. E agora estava 
no consultrio daquele homem e terminado! Hipnotizado, Michael aproximou-se do quadro, antes que Gregson pudesse det-lo. Mas nada poderia t-lo detido. Ele ficou 
parado ali, olhando para a assinatura, como se j soubesse o que iria ver. No canto, em letras pequenas, estava o nome. Marie Adamson.
       - Oh, Deus... Deus... Michael estava completamente aturdido, enquanto Gregson o observava. 
        - Mas como? No ... oh, Deus... por que ningum me falou? O que...
       Mas ele compreendia agora. Haviam-lhe mentido. Ela estava viva. Diferente, mas viva. No era de admirar que o tivesse odiado. Ele nem sequer desconfiara. 
Mas durante todo o tempo sentira-se atrado por alguma coisa nela, nas fotografias. Havia lgrimas em seus olhos quando se virou e fitou Gregson.
        Peter contemplava-o tristemente, com receio do que estava para acontecer.
       - Deixe-a em paz, Hillyard. Est tudo acabado para ela agora. Ela j sofreu demais.
        Mas mesmo enquanto ele falava, as palavras careciam de convico. S de olhar para Michael naquela manh, Peter ficara sem saber se ele deveria mesmo manter-se 
afastado de Marie. E algo no fundo dele queria revelar onde ela estava.
        Michael continuava a fit-lo com uma expresso de espanto.
       - Eles mentiram para mim, Gregson. Sabia disso? Mentiram para mim. Disseram que ela estava morta. - Os olhos dele transbordavam de lgrimas.- Passei dois 
anos como um morto, trabalhando como um rob, desejando ter morrido no lugar dela. E durante todo esse tempo...
       Por um momento, ele no conseguiu continuar a falar. Gregson desviou os olhos.
       - E quando a encontrei esta semana, no pude imaginar. Eu... isso deve ter sido uma morte para ela... no  de admirar que me odeie. Ela me odeia, no  mesmo?
       Michael afundou numa poltrona, olhando para o quadro.
       - No, Hillyard, ela no o odeia. Apenas quer deixar o passado para trs. E ela tem esse direito.
       E eu tenho o direito a ela. Peter queria dizer essas palavras, mas no conseguiu. Mas, subitamente, era como se Michael tivesse ouvido seus pensamentos. Michael 
acabara de lembrar-se do comentrio que ouvira a respeito de Marie, que ela tinha um patrocinador, um cirurgio plstico. As palavras ressoaram de repente em seus 
ouvidos e tambm subitamente a ira e a angstia de dois anos invadiram-no. Ele se levantou de um pulo e agarrou Gregson pelas lapelas. 
       - Ei, espere um pouco! Que direito voc tem de dizer que ela quer deixar o passado para trs? Como pode saber? Como pode sequer comear a entender o que tivemos 
juntos? Como pode imaginar o que tudo aquilo significou para ela ou para mim? Se eu sair da vida dela sem dizer nada, ento voc poder ter o que quiser. No  isso 
mesmo, Gregson? No  justamente isso o que est querendo? Pois v para o inferno!  com a minha vida que est jogando e acho que j houve pessoas suficientes manejando-a 
 vontade. A nica pessoa que pode dizer-me que quer tudo acabado entre ns  Nancy.
       - Ela j lhe disse para deix-la em paz.
       A voz de Peter era serena, enquanto ele fitava Michael nos olhos. Michael recuou, mas havia agora um brilho de esperana em seus olhos, misturado com a raiva 
e a confuso. Pela primeira vez em dois anos, havia um pouco de vida naqueles olhos.
       - No, Gregson. Marie Adamson me disse para deix-la em paz. Nancy McAllister no me disse uma s palavra h dois anos. E ela vai ter muito o que explicar. 
Por que no me telefonou? Por que no me escreveu? Por que no me informou que estava viva? E por que me disseram que ela estava morta? Isso foi idia dela ou... 
ou de alguma outra pessoa? E por falar nisso... - Michael hesitou por um instante, no querendo fazer a pergunta, porque j sabia qual seria a resposta. - ... quem 
pagou a cirurgia?
       Os olhos dele no se afastaram do rosto de Gregson por um instante sequer.
       - No conheo as respostas para algumas de suas perguntas, Sr. Hil1yard.
       - E quais so as que conhece as respostas? .
       - No tenho permisso para...
       - No me diga isso!
       Michael avanou novamente para cima dele e Peter levantou a mo.
       - Sua me pagou todas as intervenes cirrgicas e as despesas de estada dela desde o acidente. Foi um presente realmente extraordinrio.
       Era isso o que Michael temia, mas no chegou a se constituir um choque to grande. Ajustava-se ao resto do quadro que podia perceber agora. Talvez, de alguma 
maneira insana, totalmente desvirtuada, a me pensasse que estava agindo assim pelo bem dele. Mas pelo menos ela o conduzira agora de volta a Nancy. Ele olhou novamente 
para Gregson e assentiu.
       - E o que me diz de voc? Qual  exatamente o seu relacionamento com Nancy?
       Agora, Michael queria saber de tudo.
       - No vejo por que isso seja de sua conta.
       - Escute aqui!
       As mos de Michael agarraram novamente o casaco de Peter, que levantou a mo numa admisso de derrota.
       - Por que no paramos logo com isso? Todas as respostas esto com Marie. O que ela quer, quem ela quer. Afinal, ela pode at no querer nenhum dos dois. Por 
quaisquer que sejam os motivos, voc no a procurou por dois anos. Quanto a mim, tenho quase o dobro da idade dela e, por tudo o que sei, estou sofrendo de um complexo 
de Pigmalio.
       Peter sentou-se na cadeira trs de sua escrivaninha e sorriu tristemente.
       - Estou comeando a pensar que ela pode arrumar algo melhor que um de ns dois.
       -  possvel, s que desta vez quero ouvir isso pessoalmente dela. - Michael olhou para o relgio. - Vou at o apartamento dela imediatamente.
       - No vai adiantar. - Peter ficou olhando para o rapaz, a cofiar a barba. Quase desejava que Michael tivesse sorte. Quase. 
       - Ela me telefonou esta manh do aeroporto, pouco antes de voc chegar aqui.
       Mais uma vez, Michael pareceu ficar chocado.
       - Como assim? Para onde ela estava indo?
       Por um longo momento. Peter Gregson hesitou. No precisava dizer nada. No tinha de...
       - Ela foi para Boston.
       Michael fitou-o em silncio por algum tempo e depois um sorriso se insinuou em seus olhos, enquanto corria para a porta Parou ali, olhou para trs e saudou 
Peter com um sorriso exultante.
       - Obrigado.


Captulo 32

       Marie acordou ao amanhecer. Desperta, viva. Sentia-se melhor que em qualquer outra ocasio h anos. Estava quase livre agora. Dentro de poucas horas, estaria 
inteiramente livre. Como se aquela promessa infantil a tivesse prendido por todo esse tempo. E somente porque ela prpria permitira. Seu nico poder era o que ela 
mesma lhe concedera.
       No se deu ao trabalho de comer alguma coisa. Limitou-se a tomar duas xcaras de caf e entrou no carro alugado. Poderia chegar l em duas horas. Ou seja, 
por volta das dez horas. Estaria de volta ao hotel em torno de meio-dia. Poderia pegar um avio para So Francisco e estar em casa ao final da tarde. Poderia at 
mesmo ir buscar Peter no consultrio, fazer-lhe uma surpresa. O pobre Peter mostrara-se bastante paciente em relao quela viagem.
       Descobriu-se pensando em Peter enquanto dirigia, desejando ter-lhe dado mais, desejando ter sido capaz de faz-lo. Talvez, depois daquele dia, isso tambm 
mudasse. Ou ser que... Marie no se permitiu terminar a indagao.  claro que ela o amava. No era essa a questo.
       Ela seguiu em frente pelos campos da Nova Inglaterra, mal notando qualquer coisa por onde passava. A paisagem ainda era cinzenta e escura, as folhas novas 
ainda no haviam surgido. Era como se os campos tambm tivessem ficado enterrados por dois anos. J eram nove e meia quando ela passou pela Revere Beach, onde a 
feira fora realizada. Sentiu um pequeno aperto no corao ao reconhecer o lugar. Seguiu por uma estrada antiga, que ia serpenteando ao longo da costa, at que finalmente 
parou e saltou do carro. Estava tensa, mas no cansada. Estava exultante e nervosa. Tinha de fazer aquilo... tinha de fazer... j podia ver a rvore do lugar em 
que estava. Ficou parada a contempl-la por um longo tempo, como se a rvore guardasse todos os segredos, conhecesse a fundo a sua histria, estivesse esperando 
por seu retorno. Encaminhou-se lentamente para a rvore, como se fosse encontrar uma velha amiga. Mas no era mais uma amiga. Como tudo e todos que outrora amara, 
era uma estranha. Era apenas outra marca no tmulo de Nancy McAllister.
       Ela parou ao alcanar a rvore, ficando ali por um momento, antes de atravessar a areia at a pedra. Ainda estava ali. No se mexera. Nada sara do lugar. 
Somente ela e Michael haviam se movido, em direes opostas e para mundos diferentes. Ficou imvel ali por muito tempo, como se procurasse reunir a fora e a coragem 
para fazer o que precisava. E finalmente abaixou-se e comeou a empurrar a pedra, que se moveu um pouco. Rapidamente, com um pedao de pau, ela escavou a areia por 
baixo, em busca do que procurava. Mas no havia nada ali. Ela largou a pedra, ofegante. Depois de um momento, com vigor renovado, tornou a empurrar a pedra, at 
certificar-se de que no havia mais nada ali embaixo. Algum levara as contas. Ela deixou a pedra voltar para o lugar e nesse momento ouviu a voz dele.
       - No pode t-las. Elas pertencem a outra pessoa. A algum que amei. A algum que nunca esqueci.
       Havia lgrimas nos olhos de Michael enquanto ele falava. Esperara metade da noite pela chegada dela. Fretara um jato para traz-lo antes que ela chegasse 
ali. Mas teria voado com as prprias asas, se houvesse necessidade. Michael estendeu a mo e ela viu as contas, ainda com a areia grudada. Os olhos dela tambm se 
encheram de lgrimas ao v-las.
       - Prometi nunca dizer adeus. E nunca disse.
       Os olhos de Michael no se despregavam dos olhos dela.
       - Nunca tentou me encontrar.
       - Disseram-me que estava morta.
       - Prometi nunca mais tornar a v-lo se... se me dessem um novo rosto. Prometi porque sabia que voc me encontraria. E depois... voc no me encontrou.
       - Teria encontrado, se soubesse. Lembra-se da promessa que me fez?
       Ela fechou os olhos e falou solenemente, como uma criana. Pela primeira vez, em muito tempo, era a voz de Nancy McAllister, a voz que ele amara, no a voz 
nova e suave que ela aprendera.
       - Prometo nunca esquecer o que est enterrado aqui. Nem o que representa.
       - Havia esquecido?
       As lgrimas estavam escorrendo lentamente dos olhos de Michael. Ele estava pensando em Gregson e nos dois anos que haviam passado. Mas ela sacudiu a cabea.
       - No. Mas tentei esquecer.
       - Est disposta a recordar agora? Nancy, est...
       Mas ele no conseguiu continuar falando. Aproximou-se dela e abraou-a, levando algum tempo para murmurar:
       - Oh! Nancy, como eu a amo! Sempre amei. Pensei que ia morrer quando voc... quando pensei que voc tinha morrido. E, de certa forma, morri mesmo quando me 
disseram.
       Ela estava chorando demais para falar, recordando os interminveis dias, meses e anos de espera, at desistir de toda e qualquer esperana. Agarrou-se firmemente 
a Michael, como uma criana a uma boneca, como se nunca mais pretendesse larg-lo. E finalmente recuperou o flego e sorriu.
       - Querido, eu tambm o amo. Sempre pensei que me encontraria.
       - Nancy... Marie... qualquer que seja o seu nome... - Ambos riram como crianas, entre as lgrimas. - Pode dar-me a honra de tornar-se minha esposa? Desta 
vez, como pessoa civilizadas, num casamento com convidados, msica e...
       Michael estava pensando no casamento da me, apenas algumas semanas antes. Era estranho como estava totalmente livre de qualquer sentimento de raiva. Deveria 
odiar a me pelo que ela fizera. Em vez disso, queria perdoar. Tinha Nancy de volta. E isso era tudo o que importava. Sorriu para Nancy, ainda em seus braos, pensando 
no casamento deles. Mas ela estava sacudindo a cabea e Michael teve a sensao de que seu corao iria parar.
        - Temos mesmo de esperar tanto tempo? Temos de aceitar toda essa histria de convidados, msica e...
       - Est sugerindo...
       Michael no se atreveu a concluir a frase, mas Nancy assentiu. 
       - Estou, sim. Por que no? Agora. No quero esperar novamente. No poderia suportar. A cada momento ficaria com medo de que alguma coisa pudesse acontecer. 
Talvez a voc, desta vez.
       Michael concordou silenciosamente e apertou-a com mais fora ainda, enquanto as ondas deslizavam pela praia e o sol plido a leste espiava atravs das nuvens. 
Ele podia compreender.

       Fim
       
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